Entre o Amor e as Correntes
13 Capítulo 13
No quarto de hotel, o silêncio parecia mais alto que o barulho do ar-condicionado. Sara recostou-se na cabeceira, o laptop ainda iluminando o rosto dela. A tela congelada mostrava Grissom olhando diretamente para a câmera, quase como se olhasse para ela.
Ela soltou uma risada curta, carregada de ironia.
— Você é mesmo um idiota, Grissom… mas o meu idiota.
O celular vibrou na mesa ao lado. Uma notificação: nova mensagem de vídeo. Ela hesitou, mordendo o lábio, e clicou.
Desta vez, Grissom não falava sobre evidências. Ele apenas mostrava a noite em Vegas, a lua refletida no lago artificial do Bellagio. Nenhuma palavra, só o som da água e o movimento lento da câmera. No fim, a voz dele surgiu baixa, quase um sussurro:
— Isso me fez pensar em você. Sempre você.
Sara fechou o laptop devagar, abraçando o travesseiro. A raiva ainda estava lá, latejando como uma ferida que não cicatrizava, mas algo mais forte começava a nascer: a certeza de que ele não desistiria dela.
Ela murmurou para si mesma, com aquele humor que usava para disfarçar o coração acelerado:
— Droga, Grissom… você sabe exatamente como complicar a minha vida.
E, pela primeira vez desde que chegara ao Alabama, adormeceu com um meio sorriso nos lábios.
Grissom estava sozinho no escritório, a luminária iluminando pilhas de relatórios. O laptop apitou discretamente: “Nova mensagem: Sara Sidle”.
O coração dele disparou. Abriu de imediato.
Era curta. Quase nada.
"Bonito o vídeo. Não sabia que você tinha esse lado poético."
Ele leu três vezes. Não havia um “sinto sua falta”, não havia confissão explícita. Mas para Grissom, era como se Sara tivesse aberto uma fresta da porta que havia fechado entre eles.
Ele tirou os óculos, massageando a ponte do nariz e deixando escapar um sorriso raro, quase juvenil.
— Poético, é?… você não imagina o quanto, Sara.
Por um instante, a tensão dos últimos dias evaporou. O cientista meticuloso, o supervisor sério, simplesmente se permitiu ser um homem apaixonado, agarrado a um fio de esperança.
Sem pensar muito, começou a digitar uma resposta. Riscava, apagava, reescrevia — cada palavra parecia insuficiente. No fim, enviou algo tão sucinto quanto ela:
"Só estou aprendendo a olhar o mundo pelos seus olhos."
Quando clicou em enviar, encostou-se na cadeira, ainda sorrindo.
Brass entrou sem bater, trazendo uma xícara de café.
— O que foi, Gil? Ganhou na loteria?
Grissom ajustou os óculos de novo, tentando disfarçar.
— Algo assim.
Brass arqueou a sobrancelha, desconfiado, mas não insistiu. Só pensou, divertido: “Finalmente esse homem está começando a se soltar e creio que a ousadia está rolando."
No quarto de hotel em Alabama, Sara estava terminando de revisar um item do curso quando a notificação do e-mail piscou. O nome dele.
Respirou fundo antes de abrir.
"Só estou aprendendo a olhar o mundo pelos seus olhos."
Ela leu uma vez. Depois outra. E outra.
Os lábios se curvaram num sorriso involuntário, que logo foi abafado por um suspiro descrente.
— Esse danado esta impossível… — murmurou, balançando a cabeça.
Havia doçura ali, mas também ironia. Ele sabia exatamente como mexer com ela.
Pegou o laptop, apoiou nos joelhos e começou a digitar, os dedos rápidos, o humor ácido misturado com vulnerabilidade:
"Cuidado, Grissom. Olhar o mundo pelos meus olhos pode ser perigoso. Você pode acabar descobrindo coisas que preferia não ver."
Pensou em apagar. Era um risco. Mas deixou.
Enviou antes que tivesse tempo de se arrepender.
Ela estava tentando resistir. Mas era impossível negar: ele estava conseguindo atravessar a muralha, um e-mail de cada vez.
Em meio esse clima de trocas de carinhos no mundo virtual, a equipe recebe um convite para estar presente numa premiação onde o homenageado será o Xerife. Todos teriam que ir. Seria no Cassino MGM.
Pelo menos teremos uma boca livre — falou um animado Greg.
O salão estava impecável: luzes de cristal, mesas fartas, risadas espalhadas. O xerife, orgulhoso, discursava sobre a excelência do turno noturno do laboratório. Catherine já calculava quantas taças de champanhe poderiam ser aceitas antes de sair na foto, Nick sorria educadamente, Warrick observava as roletas lá no fundo… e Grissom, como sempre, estava desconfortável de terno.
Heather, por outro lado, parecia feita sob medida para aquele ambiente. Vestido vermelho de seda, olhar de predadora e passos que atraíam olhares como ímãs. Ela não deveria estar ali — mas, como sempre, ninguém ousava barrar Lady Heather.
Ela circulava entre os convidados como uma sombra sedutora, observando cada detalhe. Não queria apenas ser vista: queria criar uma oportunidade. E o alvo, claro, era ele.
Grissom a notou de relance, os olhos estreitando. De novo, Heather… pensou, já tenso. Mas antes que pudesse se afastar, ela estava perto demais, sorrindo com aquela calma venenosa.
— Gil… você parece deslocado. — A voz dela era quase um sussurro. — Talvez precise de um lugar mais… tranquilo.
Ele ajustou os óculos, o tom seco:
— Não estou interessado, Heather.
Ela manteve o sorriso, como quem já esperava aquela resposta. Mas enquanto falava, a mão dela repousava na taça que um garçom havia acabado de deixar sobre a mesa. Um leve toque nos dedos, quase imperceptível — e o líquido borbulhante recebia algo a mais.
Catherine, de longe, observava com desconfiança, os olhos estreitando. Brass também percebeu o movimento suspeito, mas ainda não tinha certeza.
Heather ofereceu a taça a Grissom, insinuante:
— Só um brinde. Pela sua genialidade. Pelo reconhecimento.
Ele hesitou. O olhar gelado dela se fixou no dele, como se quisesse hipnotizá-lo.
Mas antes que pudesse encostar a bebida nos lábios, Catherine apareceu ao lado dele, rindo alto e batendo no ombro do supervisor:
— Ah, não… não vamos deixar você escapar assim, Griss! Vem, tem gente querendo te parabenizar.
Ela tirou a taça da mão dele com naturalidade e passou a outro convidado distraído. Heather fechou o sorriso por um instante, mas logo recompôs a máscara.
O plano não havia acabado, apenas adiado.
Enquanto Grissom se afastava, ainda incomodado, Heather observava com frieza. Se não fosse naquela noite, seria em outra. E se precisasse usar mais do que sedução para levá-lo a um quarto… usaria.
Catherine puxou Brass discretamente para um canto do salão, taça ainda na mão, mas os olhos faiscando.
Catherine (sussurrando, irritada):
— Você viu isso? Eu vi! Ela ia dopar o Grissom bem na minha frente.
Brass (arqueando a sobrancelha, tom irônico):
— Lady Heather, a versão de Las Vegas de Mata Hari. Claro que vi. Só não sei como ninguém mais percebeu… talvez porque todo mundo estava ocupado rindo do discurso do xerife.
Catherine (bufando):
— Eu já sabia que ela era manipuladora, mas isso passa de provocação. Isso é perigoso, Jim.
Brass (cruzando os braços, sério agora):
— Concordo. E sabe o que mais me preocupa? O Gil. Ele tem uma fraqueza por ela. Sempre teve. Ele diz que é “amizade peculiar”, mas, no fundo, é um buraco na defesa dele. E ela sabe disso.
Catherine respirou fundo, olhando de relance para Grissom, que agora conversava com Nick e parecia alheio.
Catherine:
— O problema é: e se a Sara descobre que Heather tentou algo assim? Ela já está com os dois pés atrás. Isso pode implodir tudo.
Brass (com humor ácido):
— Se Sara descobrir, Heather não vai precisar se preocupar em dopar o Gil. A Sara mesma vai enterrar a ruiva no deserto.
Catherine riu, mas logo ficou séria de novo.
Catherine:
— Precisamos manter os olhos nela, Jim. Não é só ciúme ou drama de triângulo amoroso. Isso aqui cheira a problema real.
Brass (erguendo a taça, seco):
— E, como sempre, o problema tem cabelos vermelhos e salto alto.
Eles brindaram, mas os olhares trocados diziam tudo: Heather havia cruzado uma linha perigosa.
Grissom terminou a conversa com Nick, mas seus olhos seguiram Catherine, que estava parada perto do bar, mexendo na taça com mais força do que o necessário. Ele ajeitou os óculos e foi até ela.
Grissom (direto, desconfiado):
— Cath… por que você me tirou dali daquele jeito?
Catherine soltou um riso leve, mas o olhar esquivou rápido demais.
Catherine (tentando soar casual):
— Você sabe, Gil… xerife, discursos, fotógrafos… você ia ser arrastado pro microfone em dois segundos. Eu só te salvei de uma noite inteira de flashs e formalidades.
Ele arqueou a sobrancelha, nada convencido.
Grissom:
— Não cola. Você parecia… nervosa. E você nunca fica nervosa em eventos sociais.
Catherine respirou fundo, mordendo o lábio, tentando formular algo convincente.
Catherine (com humor seco):
— Tá, talvez eu estivesse um pouco… irritada. Vamos dizer que vi algo que não gostei. Mas não é nada que você precise perder o sono.
Grissom (estreitando os olhos):
— Isso tem a ver com Heather?
Catherine gelou por um segundo, mas manteve o disfarce.
Catherine (forçando um sorriso):
— Gil, você já sabe o suficiente sobre a Heather. Mais do que deveria, se quer saber minha opinião. Não precisa de mim repetindo.
Ele inclinou a cabeça, estudando-a como se fosse uma amostra de laboratório.
Grissom:
— Então você está escondendo alguma coisa.
Catherine (com uma risada curta, quase debochada):
— Não estou escondendo. Estou poupando. E olha, se tem alguém nesse salão que deveria confiar nos instintos… é você. Então confia nos meus: mantém distância dela.
Grissom ficou em silêncio, analisando cada palavra. Não era a resposta completa que queria, mas o tom dela deixava claro: havia mais do que ela estava revelando.
Grissom (baixo, sério):
— Se algo acontecer por causa dessa proximidade… não será só minha vida que vai desmoronar. Será a da Sara também.
Catherine apenas tocou o braço dele, firme.
Catherine:
— Então não dá espaço. É simples assim.
Heather observava de longe, encostada na sombra de uma das colunas. Os olhos dela fixos em Grissom, que deixava o salão acompanhado de Catherine e Brass. O sorriso falso sumia de seu rosto, substituído por uma expressão calculista.
Heather (pensamento, amarga):
— Aqui não. Eles estão de olho demais em mim.
Ela cruzou os braços, batendo uma unha contra o anel de prata, o som ecoando como um tic-tac de paciência.
Quando Grissom se despediu de Catherine e Brass e caminhou até o carro, Heather viu ali uma oportunidade. O motor do SUV dele rugiu, e ela seguiu a alguns metros atrás, discretamente, misturada no fluxo da Strip.
Heather (sussurrando para si mesma, quase num veneno doce):
— Não consegui te levar hoje, Gil. Mas eu conheço o caminho… e todo cientista tem sua fraqueza. A sua… é achar que ainda pode confiar no mundo.
O olhar dela refletia os letreiros de neon conforme o carro de Grissom se afastava.
Heather (fria, decidida):
— Eu vou esperar. Quando chegar em casa, quando baixar a guarda… eu vou estar lá.
Sara estava deitada na cama depois de um dia intenso de curso. O quarto estava silencioso, exceto pelo som distante do ar-condicionado. O celular vibrou na mesa de cabeceira.
Era uma mensagem de Grissom:
"Você sabe como amo esses eventos, né, amor?? Só que não!! kkkk"
Sara não pôde conter a risada curta. Imaginou o jeito dele digitando aquilo, provavelmente com a cara séria de sempre, sem nenhum “kkk” na voz.
— Ai, Gil… — murmurou, balançando a cabeça.
Logo depois, chegou outra mensagem:
"Catherine e Brass estavam lá, claro. Premiação, discursos, gente tentando parecer mais importante do que é… Eu só pensava em você. Esses jantares nunca foram o mesmo sem você para me cutucar embaixo da mesa quando eu começo a divagar."
O sorriso dela suavizou. A raiva que carregava ainda estava lá, mas se dissolvia um pouco com cada palavra.
Sara digitou devagar:
"Ainda bem que não estava aí. Você sabe que eu teria te provocado só para te ver revirando os olhos."
E completou, depois de hesitar:
"Sinto sua falta."
Ela respirou fundo antes de enviar. O coração apertou, mas também se aliviou.
Grissom ficou mega feliz ao ler a mensagem dela. Respondeu rapidamente: Eu também estou com saudades meu amor! Eu te amo muito!!!
O silêncio do bairro era quebrado apenas pelo zumbido distante de uma motocicleta. Heather e Hank estacionaram a alguns metros da casa de Grissom. Ela ajeitou o casaco, escondendo o frasco de clorofórmio, enquanto Hank carregava sua maleta como se fosse mais um plantão de emergência.
Heather sorriu, venenosa:
— Ele não vai nem perceber… e quando acordar, a imagem já estará gravada. Sara nunca mais vai olhar para ele do mesmo jeito.
Dentro da casa, Grissom nem teve tempo de reagir. O pano úmido pressionado contra o rosto o fez perder os sentidos em segundos. Entre risos satisfeitos, Heather e Hank o arrastaram até o quarto. Em poucos minutos, ele estava deitado na cama, sem roupas, o cenário cuidadosamente montado.
Heather, triunfante, começou a soltar os cabelos e a abrir a blusa, pronta para deixar os rastros certos. Foi então que Hank, com uma calma perturbadora, puxou outro pano encharcado de clorofórmio.
Heather arregalou os olhos:
— O que… você está…
Mas não terminou. O corpo tombou ao lado de Grissom, igualmente inconsciente.
Hank ajeitou os dois na cama, tirou uma série de fotos, e murmurou:
— Se quer um cenário ideal, que seja convincente. Os dois dopados… perfeito.
Depois de um tempo explorando o apartamento, mexendo em gavetas, observando livros e lembranças, Hank se preparava para sair. Foi então que faróis iluminaram a sala pela janela. Um carro estacionava.
Era Brass.
O paramédico gelou. Em segundos, decidiu sair pela janela dos fundos. O som de passos se aproximava da porta. Hank já estava do lado de fora quando ouviu o rangido da maçaneta.
Brass notou imediatamente: a porta estava entreaberta. Um frio percorreu sua espinha. Ele sacou a arma, encostou-se na parede e ligou para Catherine, sussurrando:
— Cath, é o Jim. Estou na casa do Grissom. Porta aberta, sinais de invasão. Vou entrar, mas preciso de você aqui agora.
Ele desligou, respirou fundo e empurrou a porta, a arma firme na mão.
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