Entre o Amor e as Correntes
9 Bellagio
No quarto reservado, a luz suave do sol entrando pelas cortinas criava um clima íntimo e acolhedor. Sara se aproximou de Grissom, ainda segurando a mão dele, e percebeu como o toque do supervisor sempre a deixava em alerta — o tipo de alerta bom, que fazia o coração disparar.
— Você realmente sabe como me enlouquecer, sabia? — provocou ela, com um sorriso leve e um olhar malicioso.
Grissom ergueu uma sobrancelha, aproximando-se mais, a presença dele preenchendo o espaço ao redor. — Só quando alguém merece. E você… definitivamente merece.
Ela riu, um som baixo e quase rouco, e sentiu a proximidade dele como eletricidade percorrendo a espinha. Cada gesto dele, cada movimento sutil, parecia sincronizado com os desejos que ela guardava havia semanas.
— Acho que… — começou ela, deixando a frase incompleta, deixando o espaço entre eles carregado de expectativa — você finalmente percebeu o quanto eu estava esperando por isso.
Grissom respondeu com um leve sorriso torto, inclinando-se para sussurrar perto do ouvido dela:
— Na verdade eu que estava precisando muito de você. Eu não estava mais aguentando de saudades do seu corpo, de estar dentro de você.
O riso baixo dela se misturou à respiração dele, e os olhares se tornaram mais intensos, carregados de desejo e ternura ao mesmo tempo. Ele deslizou uma mão pelo braço dela, sentindo a pele quente, enquanto ela apoiava a testa na dele, a respiração se misturando.
— É… bom estar aqui com você — disse Sara, com sinceridade e um toque de travessura. — Sem Heather, sem laboratório, sem regras. Só nós.
Grissom sorriu, quase aliviado, sentindo o peso das semanas se dissipar. — Só nós. E… eu prometo que vou fazer cada momento valer a pena.
Ela se afastou apenas o suficiente para olhá-lo nos olhos, com aquele sorriso que ele conhecia tão bem — o sorriso que desarmava qualquer dúvida. — Então, Gil… se você continuar desse jeito, eu posso não querer voltar para o mundo lá fora tão cedo.
Ele respondeu com um sorriso silencioso, aproximando-se novamente, deixando que o momento falasse por eles. Se renderam a um intenso beijo. Um toque, um olhar, um suspiro — e naquele quarto, no silêncio aconchegante, eles finalmente se entregaram ao que vinha guardando em seus corações.
Fora dali, Heather, Hank, o laboratório e todos os casos podiam esperar. Ali, só existia o amor deles, intenso, ousado e cheio de uma química que nenhuma adversidade poderia apagar.
Grissom e Sara estavam completamente envolvidos, os beijos intensos e as mãos se explorando, quando o som estridente do telefone cortou o ar quente do quarto. Ambos se afastaram, respirando com dificuldade, o coração ainda acelerado.
— Ah, pelo amor de… — resmungou Grissom, a frustração evidente enquanto procurava o aparelho.
Sara ergueu uma sobrancelha, divertida e travessa:
— Quer que eu atenda? Ou vai deixar a pessoa continuar destruindo nosso momento?
Ele bufou — Só se for para você despachar quem esta nos incomodando?!
Sara pegou o telefone, olhando para o número desconhecido com aquele sorriso ácido que Grissom conhecia bem. — Hum… vamos ver quem não entende limites? — disse, antes de atender com um “alô” que misturava ironia e diversão.
— Heather? — a voz de Sara soou mais cortante do que precisava, quase arrancando uma careta do supervisor. — Que surpresa… no momento mais inoportuno você resolve ligar.
Do outro lado da linha, a dominatrix, confiante, tentou soar persuasiva:
— Sara? Cadê o Gil? Eu preciso falar com ele rapidinho…
Sara não deixou o pedido prosseguir, interrompendo com aquele tom que misturava sarcasmo e malícia:
— “Rapidinho”? Olha, Heather, ele está ocupado — muito ocupado, aliás — sendo completamente agraciado por um beijo que você nunca vai roubar. Então, ou você desiste agora, ou vai ouvir o barulho do meu sarcasmo ecoando até aí.
Grissom respirou fundo, tentando não rir — e também não morder Sara no mesmo instante já que ele estava a beijando — enquanto a voz dele, seca e gelada, se intrometia na conversa:
— Heather, por favor. Este não é o momento para conversarmos. Acredito que você possa resolver suas pendências sem precisar de mim.
Do outro lado da linha, Heather não conseguiu disfarçar a irritação, e Sara desligou com um clique firme, jogando o telefone na cama.
— Agora sim — disse ela, voltando-se para Grissom com um sorriso triunfante. — Podemos continuar o que estávamos fazendo … você é todo meu.
Grissom soltou um suspiro misto de alívio e diversão, puxando-a de volta para perto, enquanto murmurava com aquele tom rouco:
— Mal posso acreditar que Heather é a razão da sua graça…
Sara sorriu, ainda o provocando, e respondeu entre um beijo e outro:
— Melhor se acostumar, Gil. Porque se ela insistir em aparecer, alguém vai precisar mostrar que quem manda aqui… somos nós dois.
Grissom e Sara permaneciam próximos, corpos quase colados, o calor do momento ainda vibrando no ar. Ele deslizou a mão pela cintura dela, olhando profundamente em seus olhos.
— Você tem ideia do quanto me tortura, sabia? — murmurou, a voz rouca. — Eu pensei que ia enlouquecer ontem à noite… e agora… aqui com você.
Sara sorriu, aquele sorriso ácido que misturava provocação e malícia:
— Ah, Gil… e você acha que só porque me tem perto, o ciúme desaparece? Não se esqueça do Hank. Ele também ficou no corredor, me lembrando que alguém precisa proteger o território.
Grissom estreitou os olhos, ciúme evidente, e baixou a voz:
— Hank é um safado. Você é… você. E eu não pretendo perder você por nada e nem ninguém.
Sara se afastou apenas o suficiente para encarar o rosto dele, com o humor ácido de sempre:
— Então vamos fazer um trato. Eu aceito voltar a ficar com você, mas… devagar. Heather não vai mais se intrometer na nossa vida. Eu não tolero mais isso.
Ele segurou as mãos dela, firme e decidido:
— Concordo. Eu dou um basta. Ela não vai mais atrapalhar. A partir de agora, só nós dois importamos. E… queria muito que você volte para casa. Lá está muito vazio, triste sem você conosco. Hank fica na porta te esperando todos os dias.
A morena suspirou, ciente de que aquele momento representava muito mais do que paixão.
— Devagar, Gil. Vamos reconstruir sem pressa. Posso de vez em quando passar e dar umas voltas com Hank, mas que fique claro: se Heather aparecer… você terá que mostrar limites ou então pode me esquecer.
— Pode deixar — respondeu ele, com um meio sorriso, misto de ciúme e humor. — Ninguém mais vai se intrometer no que é nosso. Eu não quero de jeito nenhum ficar longe de você.
Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Heather Kessler estava parada em frente à sua janela, observando um ponto ao longe, imaginado onde o casal estaria neste momento. Seus dedos apertavam a borda da cortina, o rosto tenso e vermelho de fúria. Ela sabia exatamente o que eles estavam fazendo juntos e isso provocava uma mistura de raiva e impotência.
— Maldito Grissom… — sussurrou, com a voz carregada de ressentimento e desejo de retomar o controle. — Ela não vai estragar tudo… não vai.
Dentro do Bellagio, Grissom e Sara, finalmente se entregaram ao mais tranquilo dos sonos, conscientes do mundo lá fora, mas decididos a focar apenas neles. O clima era intenso, ousado, e pela primeira vez em muito tempo, a tensão deu lugar à promessa de que poderiam reconstruir algo verdadeiro — juntos, sem segredos, sem Heather no meio.
No plantão seguinte, Sara entrou na sala de descanso com um sorriso que Catherine não pôde deixar de notar. A morena parecia mais leve, com o humor visivelmente renovado. Catherine arqueou a sobrancelha, observando cada gesto da amiga.
Quando Grissom entrou para separar os casos do dia, a perita percebeu imediatamente que ele também exalava uma aura diferente — mais tranquilo, sorrindo de leve, até jogando comentários discretos que arrancavam pequenas risadas de quem estava por perto.
Grissom separou as pastas, designando os casos.
Grissom: Eu, Sara e Catherine vamos ficar com o caso do armazém abandonado. Parece ser o mais complexo, então vamos precisar de toda a nossa atenção.
Antes que ele pudesse continuar, Greg, que já estava de braços cruzados, soltou um suspiro teatral.
Greg: Ah, qual é, Grissom? Por que você sempre fica com as mulheres? E eu, o que eu sou? A vela? Já não basta ir para a balada sozinho…
Warrick, que estava em um caso solo, se aproximou com um sorriso malicioso, balançando a cabeça.
Warrick: Olha só, o nosso rato de laboratório ainda é um bebê, ele precisa de uma babá. E o pior é que ele tem que ir com o Nick. Ah, que injustiça!
Greg (virando-se para Warrick, com a voz esganiçada): — Hey! Não me chame de bebê, e se eu preciso de babá, por que não pode ser a Sarinha? Ela é tão bonitinha e boazinha…
Nick (em uma voz de criança): — Eu sou bonitinho e bonzinho também! E você vai comigo e pronto.
O clima na sala de briefing se tornou mais leve com as brincadeiras. Grissom e Sara trocaram um olhar divertido. Catherine apenas riu, enquanto Warrick balançava a cabeça, como se estivesse assistindo a uma comédia.
Grissom (ignorando a bagunça, ele entregou a pasta a Nick e Greg): — O duplo homicídio é de vocês. Vão em frente.
Enquanto Nick e Greg saíam da sala, discutindo qual deles era mais bonitinho, Grissom se aproximou de Sara e Catherine, com um sorriso no rosto.
Grissom: — Pelo visto, o nosso trabalho vai ser bem mais fácil.
Sara (erguendo a sobrancelha, com um sorriso de canto): — Não sei, Grissom. Acho que eles estão certos, você sempre fica com as mulheres.
Grissom riu e a guiou em direção à porta.
Grissom (sussurrando para Sara): — Eles só têm inveja.
Já no carro, Catherine, como sempre perspicaz, não deixou passar aquela oportunidade. Aproximou-se de Sara, inclinando-se com aquele sorriso maroto:
— Bom humor por aqui, hein? O que aconteceu? Isso é efeito colateral de café forte?
Sara riu, mas não respondeu imediatamente, apenas trocou um olhar cúmplice com Grissom, que tentava agir naturalmente, porém o sorriso denunciava tudo. Catherine não deixou barato:
— Ah, vamos lá, Gil… você está rindo demais hoje. Qual é o segredo?
O supervisor suspirou, relutante, mas sabendo que Catherine não largaria o osso:
— Passei o dia com Sara ontem. Apenas… um dia normal juntos.
Catherine explodiu em risada, divertida com a sinceridade dele:
— Então é por isso que vocês dois estão parecendo adolescentes em férias! Vocês deviam ser presos por tamanha felicidade no horário de trabalho.
Sara revirou os olhos, sorrindo maliciosa:
— E você, Catherine, não deveria se meter nos romances dos outros… mas obrigada pelo comentário.
O clima no carro estava leve. Risos discretos, olhares cúmplices e um toque de humor haviam quebrado a tensão que, por meses, pairava sobre Grissom e Sara.
Catherine, satisfeita, apenas murmurou para si mesma, ainda com o sorriso:
— Finalmente… meu amigo Gil aprendendo a demonstrar ciúmes e alegria ao mesmo tempo. Quem diria.
A cena do crime era um armazém abandonado. Grissom, Sara e Catherine chegaram juntos, cada um com sua maleta, e encontraram Brass já coordenando os policiais no perímetro.
Enquanto Sara e Grissom examinavam marcas no chão, Catherine ficou de lado com Brass, que logo percebeu a expressão divertida da loira.
— O que foi? — perguntou ele, desconfiado. — Você tá sorrindo como quem sabe de coisa boa.
Catherine soltou uma risadinha e baixou a voz:
— Digamos que nosso amigo Gil tomou vergonha na cara e agiu. O café da manhã rendeu frutos.
Brass arqueou a sobrancelha, curioso:
— Ah é?
Catherine fez um gesto discreto com o queixo, apontando para o outro lado do galpão, onde Grissom e Sara trabalhavam juntos, inclinados lado a lado, trocando comentários baixos e até algumas risadas abafadas.
— Viu como estão os dois? completou Catherine, com um ar de quem estava se divertindo mais do que deveria.
Brass soltou uma gargalhada curta, balançando a cabeça:
— Não acredito… O Gil rindo assim, no meio de um cena de crime ? Isso é histórico.
Sara, ao ouvir a risada ecoar, levantou os olhos desconfiada.
— O que foi agora? — perguntou, erguendo a sobrancelha para Catherine e Brass.
Catherine, rápida no improviso, respondeu com aquele sorriso inocente que não convencia ninguém:
— Ah, nada… só uma piadinha entre amigos. Pode voltar pro seu… exame detalhado.
Sara estreitou os olhos, mas antes que pudesse retrucar, Grissom interrompeu, sério mas com a ponta dos lábios denunciando o bom humor:
— Menos conversa paralela, por favor. Temos evidências para coletar.
Brass piscou para Catherine, mal contendo o riso:
— Olha só, supervisor cheio de energia. Se eu soubesse que “um bom café da manhã” tinha esse efeito, tinha mandado você levar a Sara pra comer panquecas há anos.
Sara quase engasgou rindo e Grissom, sem graça, apenas pigarreou, ajustou os óculos e fingiu estar totalmente focado numa parte da cena.
Catherine, satisfeita com a reação, sussurrou para Brass:
— Ele vai me matar depois, mas valeu cada segundo.
O humor leve corria solto, e, mesmo no meio de um caso pesado, aquela troca deixava claro: algo tinha mudado.
Heather estava em seu quarto luxuoso, sentada diante da penteadeira. O espelho refletia sua expressão fria, mas os olhos faiscavam de raiva. Passava lentamente o batom vermelho como quem afiava uma lâmina.
— Então é assim, Gil… — murmurou, com um sorriso enviesado. — Trocou minhas visitas, minhas conversas, minha presença… por ela.
Ela apoiou o cotovelo na mesa e tamborilou os dedos no queixo. No celular, aberto sobre a bancada, estava uma notícia banal sobre uma ocorrência em Las Vegas, mas a foto mostrava Hank ao fundo, o paramédico em ação. Heather inclinou a cabeça, reconhecendo o rosto.
— Hank… — sussurrou, saboreando o nome. — O ex-namorado. O elo solto.
Levantou-se devagar, andando pelo quarto como uma predadora calculando a distância até a presa.
— Ele ainda olha pra ela. Ele ainda a deseja. E, pelo que ouvi, o ciúme do meu querido entomologista está latejando por causa dele.
Heather pegou uma taça de vinho, girando o líquido escuro com delicadeza. Seu sorriso agora era aberto, cruel.
— Se Gil pensa que pode simplesmente me afastar… vai aprender do pior jeito que não se brinca comigo.
A dominatrix então ergueu a taça em um brinde silencioso.
— Hank será perfeito. Um peão no meu tabuleiro. Eu só preciso empurrá-lo para a direção certa. E, quando a dúvida corroer a confiança dela… quando Gil enlouquecer de ciúmes… o que eles têm vai desmoronar.
Deu um gole longo, saboreando como se fosse a vitória antecipada.
— Ninguém tira o controle de mim. Ninguém.
Fale com o autor