Entre o Amor e a Razão
17 Epílogo
Vale do Café, 1916
Embora bastante concentrada, Elisabeta B. Williamson finalmente desviou seu olhar do documento chatíssimo e burocrático que lia há horas. E para isso não foi necessário que alguém fizesse baderna ou tocasse tambor ou gritasse forte. Foram necessários apenas um cruzar de braços, uma cara emburrada e um olhar friamente decepcionado. Aquelas expressões e gestos, cada vez mais frequentes, falavam muito. Ela podia ver a si própria fazendo as mesmas coisas sempre que queria chamar a atenção de alguém. A cada dia que passava ela tinha mais e mais certeza de que ambos possuíam personalidades altamente parecidas.
— Mamãe, você prometeu! – Thomas se aproximou dela, dando três tímidos passos à frente. Os braços permaneciam cruzados, porém seu olhar suavizou um pouco quando ela lhe lançou um sorriso terno e apaziguador. Desarmando-o completamente.
— Boa noite, meu amor! – respondeu, com um tom de voz calmo. Em seguida, deu a volta na mesa do escritório e se aproximou do filho, depositando dois beijos em cada lado de suas bochechas. – Vem cá. –, estendeu sua mão na direção de Thomas.
Segurando firmemente a mão do menino, sentou-se na aconchegante poltrona e o acomodou em seu colo. Enquanto repousava, Thomas a encarou com expectativa durante alguns segundos, esperando sua resposta. E, de preferência, que ela fosse positiva.
— Eu sei que estou em dívida com você, Tom. Mas a mamãe tinha muitas coisas para resolver essas últimas semanas. Coisas que você, por ter apenas cinco anos, não entenderia. – Disse, pausadamente. Elisabeta amava tocar os cabelos macios dele. Ela amava ter seu pacotinho por perto mesmo quando ele estava extremamente chateado com ela.
Thomas lhe lançou outro olhar decepcionado. Mas não tão intenso quanto o primeiro. Algumas vezes Elisabeta olhava para ele e visualizava perfeitamente a imagem de Darcy – quando ele também estava chateado com ela por alguma razão e unia as sobrancelhas formando uma expressão séria.
— Mas você disse que iríamos esse final de semana. Você, o papai e eu. – ele replicou, esfregando os olhos e abrindo a boca para um bocejo. Àquela hora Thomas já deveria estar na cama. – Por que você não cumpre suas promessas, mamãe?
Elisabeta engoliu em seco. Sentiu seu coração pulsar mais acelerado que o normal. Ela não queria reconhecer, mas as circunstâncias mostravam que estava se tornando, aos poucos, algo que ela sempre temeu e que, felizmente, nunca teve: Uma mãe sem tempo suficiente. Uma mãe sobrecarregada, cansada e atarefada demais para sair de férias com a família.
Formar uma família, inclusive, fora uma experiência nova e desafiadora para ela. O casamento por si só já era uma grande montanha-russa. Nos primeiros meses de casados, Darcy e Elisabeta aproveitaram ao máximo a vida a dois. Fizeram uma viagem romântica durante três meses por alguns países da Europa. Depois, fizeram mais duas conhecendo algumas belas cidades brasileiras. Quando estavam em casa, dedicavam-se bastante ao trabalho, a família e, claro, um ao outro. O amor deles crescia e se fortificava a cada dia, mas, como todo casamento, o deles também possuía seus altos e baixos. Havia dias em que Elisabeta queria torcer o pescoço de Darcy devido algum desentendimento. Outras vezes ela queria passar o dia inteiro a seu lado, amando-o intensamente. Eles tinham personalidades fortes, mas sempre conseguiam resolver de forma adequada qualquer problema. Por mais difícil ou bobo que fosse. A chegada de Tom, após um ano de casamento, proporcionou uma alegria imensa para a família inteira, especialmente para Darcy e ela. Mas, diferente da maioria das mães daquela sociedade, Elisabeta continuou trabalhando arduamente após a maternidade. Era uma quebra de paradigma que interferia bastante em suas relações. Darcy, sua mãe e seu pai insistiam várias vezes para que ela relaxasse um pouco, pois o trabalho sempre acabava consumindo-a demasiado. Thomas, ao passo que crescia, naturalmente começava a perceber isso e a reclamar da ausência dela.
— Não fale assim, Tom. — com a voz vacilante, Elisabeta continuou. – Eu só não consegui cumprir essa promessa. Ainda!
— Porque seu trabalho nunca permite... – Concluiu. Thomas subitamente desviou o olhar dela. Ele não pretendia magoá-la ao proferir aquilo. Mas, de certa forma, suas palavras serviram como uma reflexão e uma autocrítica também. — Mamãe, não fica triste. Me desculpe!
Ele percebeu os olhos de Elisa marejar. Então, tocou delicadamente seu rosto.
— Eu não estou triste, meu amor. – segurou sua mão levando-a aos lábios –, só estou... Cansada. – Elisabeta forçou um sorriso, tocando levemente a ponta do nariz de Thomas – E acho que o senhorito também está!
Thomas lhe sorriu de volta, deixando à mostra a janelinha na boca. Ele morria de vergonha daquela nova imagem.
— Em breve iremos à praia, meu anjo. Eu prometo! – ela revirou os olhos – Ou melhor, eu garanto!
Tom colocou uma das mãos no bolso e retirou de dentro uma concha que havia ganhado de Charlotte quando ela voltou de sua última viagem ao litoral, que ocorreu em torno de dois meses antes.
— O barulho do mar é assim mesmo? – Ele perguntou, encostando, cuidadosamente, a concha sobre o ouvido de Elisabeta.
— Quase. – ela sorriu e fechou os olhos enquanto formulava o restante da resposta. – Digamos que o som do mar é mais forte e muito mais relaxante também. E a paisagem é infinitamente linda.
Aquela descrição fez crescer ainda mais a vontade dele de conhecer o litoral. Melhor dizendo, de visitá-lo novamente. Da primeira e última vez ele ainda era um bebê. Não havia possibilidade alguma de guardar lembranças daquele passeio.
Elisabeta se levantou e levou Thomas até seu quarto. Apesar de querer ouvir sobre as viagens de sua mãe junto com suas tias e avós; o sono já estava batendo à porta. E, então, ele adormecera logo na metade da primeira história.
Ao descer as escadas, Elisabeta avistou Darcy entrando na sala de estar, livrando-se do paletó urgentemente. Ele havia acabado de chegar de uma reunião com alguns investidores. Ela se aproximou dele e o abraçou, em silêncio. Aninhando o rosto em seu peito.
— O que houve meu amor? – Darcy segurou delicadamente o queixo de Elisabeta, buscando seus olhos.
— Thoma... – ela interrompeu as palavras por um momento, pondo uma das mãos sobre a testa. Pensou em contar sobre a conversa que havia tido horas antes com o filho. Mas sabia que Darcy iria reforçar a ideia de Thomas – pai e filho eram cúmplices em tudo –, então, decidiu ouvir o que seu coração dizia e pedia naquele momento. – Thomas finalmente me convenceu. Não importa a minha reunião da semana que vem. Não importa a sua reunião da semana que vem. E todo o resto... – segurou firmemente os braços de Darcy e suspirou ao se lembrar daqueles e de tantos outros compromissos que estavam por vir. – Vamos ao litoral?!
Aquilo não foi exatamente um convite ou pergunta, foi praticamente uma intimação. Mas Darcy, da mesma forma que Thomas, esperava ansiosamente por ela. Dessa forma, ele simplesmente assentiu com a cabeça mantendo nos lábios um sorriso largo. Logo depois lhe deu um beijo, tirando-a do chão por alguns minutos. Aproveitando o agradável silêncio da casa e a saudade que estava dela. Antes de ir para seu próprio aposento, Darcy passou no quarto de Thomas e velou o sono do filho por algum tempo. O garotinho permanecia agarrado à concha e Darcy riu instantaneamente com a cena. Em meio a tantos, aquele era quase seu brinquedo favorito. Darcy sentiu uma felicidade enorme por saber que, no dia seguinte, ele finalmente iria realizar seu grande sonho.
Enquanto Darcy manteve-se entretido no andar de cima; Elisabeta que ainda estava na sala, teve a súbita ideia de convidar para a viagem aquele que era, segundo sua mãe, o casal mais meigo do Vale do Café: Camilo e Jane. Elisa pegou o telefone urgentemente e ligou para a irmã, provavelmente despertando-a de seu quinto sono. Uma Jane Bittencourt bastante sonolenta achou o convite tentador, embora apressado. No entanto, após muita insistência por parte de Elisa e pela dificuldade exorbitante de negar um pedido vindo dela; Jane e Camilo acabaram concordando em irem junto. O passeio seria algo memorável! Tinha tudo para sê-lo, afinal. Aquela seria a primeira viagem ao litoral da mais nova integrante da família: a pequena, loirinha e adorável Elena Benedito Bittencourt, de apenas dois anos de idade.
•••
No dia seguinte, Darcy e Elisabeta fizeram suspense e resolveram esperar o momento do café da manhã para contar a novidade a Thomas. Quando ele se deu conta do que aconteceria naquele dia, levantou-se de onde estava e deu vários beijos seguidos nas bochechas dos pais, agarrando-os pelo pescoço. Momentos depois, Dona Lucinda, a senhora responsável por cuidar de Thomas logo se aproximou com os brinquedos e com a mochila do menino já organizada. Elisa e Darcy também já estavam com suas bagagens ok. Então, poucos momentos depois eles se despediram dos empregados, passaram na casa de Jane e Camilo e partiram rumo ao litoral paulista.
O automóvel estava cheio e um tanto apertado. Porém, exalando alegria. Thomas e Elena cantarolavam algumas canções, enquanto Elisabeta e Jane recordavam episódios das antigas viagens delas em família. Darcy e Camilo ouviam tudo e faziam comentários divertidos. Ambos concluíram novamente que as Benedito eram verdadeiras pimentinhas quando crianças.
“Elisabeta e Mariana, principalmente! Lídia também, mas só depois porque nessa viagem que estamos falando ela ainda era muito novinha.” Jane complementou o comentário dos rapazes, divertida. Elisa prontamente se defendeu, buscando seus melhores argumentos.
Quando eles finalmente chegaram à casa de praia da família Benedito, o sol já estava se pondo e o vento soprava bravamente. O entardecer proporcionou uma paisagem linda. Os olhos de Thomas ficaram maravilhados diante tamanha beleza. Subitamente o menino largou as mãos dos pais, segurou a de Elena e ambos correram em direção ao mar, para ouvir melhor o som perfeito que ele emitia. Camilo e Jane seguiram os passos das crianças para acompanhá-las mais de perto e tomar os devidos cuidados. Camilo estava com uma câmera fotográfica e, então, começou a correr e registrar a brincadeira dos primos. Cada movimento era um clique diferente e divertido. Darcy e Elisabeta seguiram de mãos dadas indo na mesma direção deles. Mas, diferente de Thomas, Elena, Jane e Camilo; os passos dos dois eram mais lentos e menos urgentes. Primeiro porque eles tinham quase duas semanas para aproveitar aquele paraíso sem pensar em trabalho e, segundo... Bom, e segundo porque entre um passo e outro Darcy roubava um, dois, três beijos de Elisabeta. E a cada beijo eles sentiam o mundo parar um pouco mais.
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