Elisabeta e Darcy exalavam felicidade e paixão. O relacionamento deles chegara a um nível em que alguns atos podiam facilmente torná-los os românticos mais incorrigíveis do planeta. No dia em que estavam completando um mês de namoro, Darcy resolveu aparecer discretamente na instituição onde Elisabeta realizava seu trabalho voluntário. O horário era estratégico e conveniente para os dois; ela estava de saída após horas de aula e ele estava em pausa para o almoço. Dessa forma, o momento ideal para que eles se encontrassem era quase sempre o mesmo. Naquele dia em especial ele levou consigo um ramo de rosas vermelhas; as mais belas e cheirosas que Dona Gracinda poderia oferecer em sua floricultura. Aquela escolha tinha um significado especial: As rosas eram iguais a que ele havia levado no dia em que os dois compartilharam uma tarde inesquecível. Uma tarde em que ele a pediu em namoro e ela aceitou. Uma tarde em que eles perceberam que suas vidas estavam ligadas de forma que nada nem ninguém poderia jamais separar. Apesar de a data marcar um mês de namoro, aquele dia seria, aos olhos das outras pessoas, um dia de trabalho normal como outro qualquer. Elisabeta e Darcy decidiram fazer um pacto com relação ao namoro deles. Até ela achar que fosse conveniente nenhum dos dois iriam dizer uma só palavra a ninguém sobre o recém-romance. A única pessoa a par de tudo era Jane que, desde então, achou a decisão da irmã exagerada. Jane afirmara que Ofélia havia caído de amores por Darcy e já o considerava um amigo da família. Saber que, naquela altura, ele já era seu genro seria um bônus de felicidade e motivo de muita comemoração. Mesmo com todas as insistências Elisabeta permanecia irredutível em sua decisão. Darcy, assim como Jane, não concordava com a postura da namorada. Dizia que ambos eram adultos e donos de suas vidas. Que interferência suas famílias poderiam ter sobre o amor dos dois? Questionava ele. Mas Elisabeta prometeu a Darcy que aquele segredo perduraria por pouco tempo; até que sua mãe confiasse na relação deles e não inventasse de colocar "a carroça na frente dos bois". Depois da primeira visita, ocorrida numa noite chuvosa e preocupante; Darcy passou a frequentar a mansão Benedito com mais frequência. A presença do rapaz era motivo de muita satisfação para Ofélia e Felisberto. Darcy sempre os mantinha entretidos com conversas agradáveis e bastante construtivas. Mas, sem sombra de dúvidas, a pessoa mais feliz em toda a sala era Elisabeta. A cada dia que se passava ela se sentia mais a vontade com Darcy. Ela sentia seu coração preenchido toda vez que ele aparecia, de surpresa. Ou então quando ele estava a sua espera na frente da escola para acompanhá-la até sua casa. Ou quando ele a convidava para ir até a casa dele. Lá eles também tinham que atuar como se fossem apenas bons amigos. Charlotte apesar de desconfiada ainda não tinha a confirmação do namoro dos dois. Mas ela tinha certeza que já havia presenciado várias vezes seu irmão roubando alguns beijos da "amiga" quando ambos iam se despedir, ou que os abraços dos dois eram demasiado longos e apertados. Mas quando ela ia questioná-lo ele sempre sorria e desconversava. Elisabeta também fazia o mesmo, afinal eles mantinham um pacto. Na escola a fisionomia de Elisabeta também chamara a atenção dos alunos. As crianças cochichavam entre si, comentando que a "tia Elisa" parecia mais contente sempre que o rapaz alto e bonitão aparecia. Quando escutava tais comentários, Elisabeta sorria e sentia seu rosto corar. Charlotte apenas se divertia, de longe, com a cena. As crianças de fato possuíam uma intuição forte e assertiva. Mas era tão evidente que aqueles dois já haviam ultrapassado a linha da amizade. Mas, para todos os efeitos, a palavra final deles ainda era "não" e todo mundo por perto fingia que acreditava. Darcy e Elisabeta estavam descobrindo juntos o amor da forma menos convencional, mas também da forma mais bela possível. A felicidade dos dois era quase inabalável, pois de acordo com Elisabeta Benedito: “o que ninguém sabia ninguém estragava”. Mas por um descuido um vendaval em forma de mulher se fez presente na vida dos dois.

— Susana?


Elisabeta abriu a porta e encarou surpresa a mulher à sua frente. A fisionomia de Susana Adonato parecia horrível. A maquiagem estava borrada e desfeita. Susana sempre fora considerada uma das mulheres mais elegantes do Vale. Sempre gostou de exibir uma imagem impecável. Mas naquele dia em questão, ela parecia não dar a mínima para a opinião alheia a seu respeito. Havia saído de casa ou de onde quer que fosse da forma mais desleixada possível. Era cedo da manhã e isso talvez justificasse sua aparência.

— Não vai me convidar para entrar, senhorita Elisabeta Benedito?


Havia um tom de rancor na voz de Susana. Um rancor reprimido que aos poucos transparecia através do olhar dela, que examinava Elisabeta com cuidado e bastante atenção.

— Claro! Entre Susana, por favor. A que devo a honra de sua visita?


Elisabeta não se sentia confortável diante de tal mulher, mas se tinha uma coisa que Felisberto havia ensinado bem às suas meninas, era receber as pessoas com educação e polidez. Elisabeta se dirigiu até a sala de visitas e Susana a acompanhou.


— Sente-se, por favor. Gostaria de um chá, um café? – Perguntou Elisabeta, gentilmente.


— Não, muito obrigada minha querida. O que tenho para tratar será algo rápido. Inclusive, poderíamos conversar no escritório?


— No escritório? Mas a senhorita acabou de dizer que seria algo breve... Por que tamanha discrição?

— Creio que a senhorita não goste de falar sobre assuntos pessoais na frente dos criados, certo?! – Perguntou Susana, enquanto percorria o olhar por todo o cômodo.


— Nossos "criados" são quase como entes da família. Não vejo problema algum conversarmos aqui. Mas se para a senhorita isso é um motivo de inquietação, tudo bem. Vamos até o escritório então...

Susana se esforçou para sorrir e, em seguida, acompanhou Elisabeta até a sala.


As duas entraram no vasto escritório e Elisabeta apontou para a cadeira posicionada ao lado da mesa central. Susana ignorou o gesto da moça e manteve-se de pé. De repente, ela se aproximou de Elisabeta e, como se fosse uma amiga íntima, segurou-lhe as duas mãos.

— Venho aqui para lhe abrir os olhos Elisabeta. E para isso não pretendo dar voltas no assunto.

— Pois muito bem, pode falar Susana. — Respondeu Elisabeta. Ela bem que tentava, mas não conseguia compreender o que estava acontecendo. Susana estava agindo de uma forma tão diferente. Elas não haviam trocado muitas palavras. A última lembrança que Elisabeta tinha dela era de uma mulher antipática, que segurava a barra do vestido de sua sócia mor enquanto a mesma caminhava.

— Venho falar sobre Darcy Williamson. — Disparou Susana, tirando Elisabeta de seus pensamentos.

— Sobre Darcy? – A indagou, surpresa.


— O próprio! — Susana apertou levemente a mão da moça e isso fez Elisabeta soltá-la de imediato. – Você precisa se afastar dele!

— Do que você está falando?


— Eu também sou mulher, Elisabeta. Sei perfeitamente que Darcy possui seus encantos. E são vários... Mas não se engane! Ele não pretende ir muito longe com a senhorita. Você, apesar de nascida no interior é uma moça experiente, viajou para fora, conheceu muitos lugares, pessoas de todos os estilos, suponho. Deveria manter os olhos mais abertos ao invés de se encantar tão facilmente com alguns rapazes que, a princípio, parecem ser cavalheiros, mas na verdade são lobos em pele de cordeiro.

— Do que você está falando? O que sabe sobre mim?

— Sei o necessário para alertá-la! Sei que Darcy Williamson está lhe cortejando com segundas intenções. Intenções essas que são estritamente financeiras. A senhorita deve estar ciente que eu e minha equipe conseguimos comprar as terras dos pequenos produtores. Darcy foi um excelente informante sobre as estratégias e negociações falhas de sua família.

— Você acha que seu sócio agiria tão baixo assim?

— Lamentavelmente sim, minha cara. Eu também já caí nos jogos de sedução de Darcy. Mas, como a senhorita pode ver. — Susana estendeu a mão esquerda. – Continuo solteira e com o coração em pedaços graças ao caráter duvidoso do meu sócio. Mas devemos manter as desilusões amorosas devidamente separadas dos negócios. Ademais, não posso negar que ele é um excelente estrategista; sempre tem ótimas ideias e também investiu parte de sua herança em nossa sociedade.

Elisabeta permaneceu pensativa por alguns instantes. Em seguida disse cautelosamente:


— Eu fico muito grata pela sua preocupação, Susana. — Naquele momento, Elisabeta queria colocá-la para correr de sua casa. Começaram a surgir em sua cabeça imagens de Darcy beijando aquela mulher. Imagens que lhe embrulhavam o estômago e que a faziam repetir para si mesma que só podia ser invenção da sua mente conturbada com tamanhas atrocidades.


— Espero que você reflita sobre tudo que lhe disse. — Susana voltou a segurar a mão de Elisabeta. –

Apesar de não sermos íntimas, me senti no dever de alertá-la.


— Refletirei. Não se preocupe! — Elisabeta forçou um sorriso e acompanhou Susana até a porta. Jane observava tudo enquanto as outras irmãs mantinham-se entretidas nos quartos, arrumando-se para o desjejum.

— Que carinha é essa? – Elisabeta ouviu a voz que vinha do corredor e viu sua irmã se aproximar. Jane levou sua mão até o rosto de Elisabeta e secou uma lágrima que teimava cair. Elisabeta permaneceu em silêncio; apenas a abraçou fortemente. De repente ela sentiu a sala se tornar um lugar reconfortante, assim como o abraço caloroso de sua irmã.

•••


"Eu preciso que você seja honesto comigo". "Você seria capaz de usar alguém dessa forma?"

Elisabeta ensaiava em sua cabeça coisas que ela sabia que não teria coragem de perguntar a Darcy. Não tinha coragem porque antes da dúvida plantada por Susana, ela já tinha a certeza da resposta. Ela tinha a certeza do caráter, da índole e do amor de Darcy. E isso era algo que ela jamais colocaria em questão. Mas ela precisava ouvi-lo. Precisava ouvir dos lábios dele que tudo aquilo não passava de blasfêmias e intrigas. Foi por essa razão que ela decidiu procurá-lo. O rosto de Elisabeta marcado por expressões deu lugar a um sorriso largo quando Darcy abriu a porta e a abraçou, tirando-a do chão em segundos. Quando colocou os pés no solo novamente, Elisabeta sentiu o sabor dos lábios dele invadir os dela. E então ela se esqueceu do que tinha planejado fazer ali. C o m p l e t a m e n t e.

— Nós precisamos conversar! — Depois de alguns minutos Elisabeta recobrou seus sentidos e pôde, enfim, se desvencilhar dos braços de Darcy.

— Claro meu amor, entre. Que surpresa mais agradável te ver aqui, tão cedo.

— Charlotte está em casa? – Perguntou ela, enquanto entrava e colocava a bolsa sobre o sofá.

— Sim. Deve estar se arrumando. Mas não precisa se preocupar. Ela demora uma eternidade e não tem como nos fiscalizar. — Darcy beijou a bochecha de Elisabeta. O perfume dele era agradável. Era difícil para ela manter a centralidade quando ele estava assim, tão próximo.

— Podemos conversar na biblioteca?

Darcy percebeu que o tom de voz de Elisabeta estava diferente. Mais ríspido.


— Me acompanha? — Ele então dobrou o braço e Elisabeta o segurou, deixando escapar um sorriso cúmplice.

— Você e Susana são apenas sócios ou houve algo a mais entre vocês dois? — Perguntou ela, antes de cruzar os braços e encará-lo seriamente.

Aquela pergunta fez Darcy parar, segurando a maçaneta da porta.

— Nós somos sócios; apenas sócios. Por quê?

— Porque por alguma razão ela suspeita de nós, do nosso relacionamento. Foi até minha casa e disse querer abrir meus olhos; ela me disse que você já a seduziu antes e, depois, deixou a ver navios.

Darcy ficou sem reação naquele momento. Passou as mãos pelos cabelos em sinal de nervosismo.

— Não Elisabeta. Susana está jogando sujo conosco. Se essa mulher tivesse o poder de decidir todas as coisas, ela e eu estaríamos hoje casados, sim! Inclusive ela já armou muito para que eu... Para que nós dois...

— Tá, eu entendi o que você quer dizer. Então vocês dois já... Não pode ser!

— Ela e eu nada. – Darcy exclamou desesperado. – Eu nunca prometi e nem tive nada com Susana. Meu relacionamento com ela sempre foi completamente profissional. Ela não tinha o direito de fazer isso. Não mesmo!


Elisabeta encarava os sapatos. O clima parecia estranho e ela não sabia como converter. Mas ela confiava perdidamente nas palavras dele.


— Eu amo você. Amo você mais que tudo no mundo. Você e Charlotte são as duas mulheres da minha vida. As únicas. – Darcy se aproximou dela, segurando delicadamente suas mãos.

— Ela disse que você estava comigo apenas por interesse financeiro. Com a finalidade de descobrir e conseguir coisas através de mim.

Darcy sentiu vontade de lançar seu punho contra a parede. Parecia querer colocar para fora a fúria que invadia seu peito a cada palavra e história distorcida que ouvia. Mas precisava controlar seus impulsos. Precisava estar calmo para conversar com seu amor e tirar dela o peso daquelas acusações infundadas.


— Não! Eu não posso acreditar que ela chegou a esse ponto. – Darcy voltou a se aproximar de Elisabeta, pondo as mãos no rosto dela, olhando profundamente em seus olhos. – Poderia fazer uma brincadeira para colocar um sorriso no seu rosto, meu amor. Mas estou completamente atordoado e não posso deixar essa atitude infantil da Susana ficar por isso mesmo.

— Não Darcy, deixe isso para lá. Eu confio em você meu amor. Eu só precisava ouvir de você a verdade. Achei que seria o certo. – Elisabeta depositou um beijo em uma de suas mãos. – Ela não merece um segundo do nosso tempo.


— Me desculpe Elisa, mas dessa vez eu não posso atender seu pedido. Eu preciso colocá-la em seu devido lugar. A Susana não tinha esse direito. Mas agora o que não entendo é como ela descobriu sobre o nosso namoro. Ela nunca nos viu juntos.

— Isso eu confesso que gostaria de saber também... Mas Darcy, eu agora tenho certeza!

— Tem certeza de...?


— Tenho certeza de que o mundo inteiro merece e deve saber do nosso amor. Porque, pelo visto, mantê-lo em segredo pode ser muito mais perigoso. Há muitas serpentes venenosas à solta por aí.

— Onde eu posso assinar Elisabeta Benedito? Não podemos correr esse risco novamente! – Perguntou ele, divertido.


As risadas que Darcy e Elisabeta davam eram contagiantes e preenchiam todo o lugar. Ao escutar o burburinho, Charlotte desceu as escadas cautelosamente e pode presenciar um beijo apaixonado do casal. Ela era oficialmente a segunda pessoa a ficar sabendo sobre o namoro dos dois, pois Susana definitivamente não contava.

•••


Susana escutou as reclamações de Darcy mantendo frieza no olhar e nas atitudes. Em nenhum momento ela pareceu se sensibilizar quando o rapaz perguntou sobre que tipo de ser humano era ela; capaz de inventar tamanhas mentiras e de tentar envenenar Elisabeta sem nenhum pudor como ela havia feito. Por último, Darcy deixou claro que não sabia se conseguiria continuar trabalhando com ela após aquele lamentável episódio. Susana então se viu desesperada com a possibilidade. Não queria vê-lo ao lado de Elisabeta, mas queria menos ainda desfazer a sociedade e, com isso, correr o risco de perder definitivamente o contato com ele. Os sentimentos de Susana para com Darcy eram obsessivos. Quase doentios.

— Eu juro que não irei me intrometer novamente na vida de vocês, Darcy. Mas, por favor, não desfaça a sociedade.

— Como você ficou sabendo sobre mim e Elisabeta?


— Eu estava no escritório, procurando alguns relatórios quando fui até sua gaveta. Pensei que você os tivesse guardado e achei, sem querer, um bilhete. Pelas iniciais e algumas desconfianças a mais pude intuir que a remetente era a Srta. Benedito. O resto você já sabe... — Susana encarou o chão, desconfiada.

— Você é mais baixa do que eu pensava, Susana! Não tenho mais nada a fazer aqui.


Darcy deixou o escritório, batendo a porta com força. Estava enfurecido e totalmente enojado com Susana. Depois de sair dali ele marcou uma reunião às pressas com Camilo. A situação para ele era insustentável. Ele tinha convicção de que não voltaria a depositar confiança naquela mulher depois de ouvir aquilo tudo.

Notas finais
No capítulo de hoje teve DR Darlisa. Ainda bem que terminou tudo bem, rs. ♥