Entre o Amor e a Razão
10 Capítulo 9
“Você acha que estou sendo egoísta? Que o certo seria largar tudo, todos os meus planos e seguir por um caminho que eu não havia planejado?” – Enquanto observava o mirante, de braços abertos e sentindo o vento tomar conta do seu rosto, Elisabeta fazia perguntas do tipo a Darcy. Se referindo ao fim do relacionamento com John; ao fato de decidir ficar no Vale do Café ao invés de viajar e morar definitivamente na Europa. Aquela havia sido a primeira vez que Elisabeta dividia abertamente o assunto com alguém que não fosse Jane: sua irmã, melhor amiga e confidente.
Darcy estava do lado direito de Elisabeta. Após escutá-la depositando total atenção em cada palavra, ele puxou-a pelo braço, posicionando-se atrás dela, envolvendo-a num abraço reconfortante. A proximidade era tanta que Elisabeta podia sentir o calor da respiração dele em toda a extremidade do pescoço dela.
“Eu acho que você deve seguir seu coração, Elisabeta. Sempre! A razão é de suma importância, mas quando o nosso coração fala mais alto, não há melhor conselheiro. – Disse ele, enquanto entrelaçava seus dedos aos dela. – Não pense que digo isso apenas por mim, pela felicidade que sinto ao saber que você não vai embora. Eu digo por você mesma, pelo brilho que posso ver em seu olhar quando fala da sua família, do seu lugar...”
“E quando falo de você, Darcy Williamson; quando falo com você.” – Elisabeta tocou o rosto de Darcy. O vento, que estava ficando cada vez mais forte, bagunçava o cabelo dos dois, e ambos se divertiam com isso. Darcy beijou levemente a mão de Elisabeta, olhando profundamente nos olhos dela. Em seguida, beijou-lhe os lábios, com paixão. Um beijo que fazia seus sentidos darem a volta ao mundo em fração de segundos.
Após recuperar o ar, Elisabeta fitou Darcy; o semblante dele transmitia uma paz indescritível.
— Obrigada por se preocupar comigo. Obrigada por me trazer a este lugar tão maravilhoso. Me senti renovada aqui.
Darcy retribuiu o comentário da moça através de um belo sorriso.
— Mas esse não é o destino do nosso passeio de hoje! Estamos apenas na metade do caminho...
Elisabeta o encarou, estava pensativa.
— Mesmo? Eu pensei que...
— Não Elisa! Vem comigo, garanto que a senhorita não irá se arrepender! – Ele tomou a liberdade de levá-la novamente até onde seu cavalo estava; conduzindo-a para o próximo destino deles.
•••
O olhar curioso de Elisabeta percorreu minuciosamente cada canto do lugar onde, segundo Darcy, a tristeza não tinha vez nem espaço. A Benedito, desde criança, sempre alimentou o hábito de explorar o Vale do Café; de conhecer suas peculiaridades, suas belezas, seus cantinhos mais secretos e Darcy Williamson, apesar de conhecê-la a pouco tempo, sabia perfeitamente disso. Elisabeta tinha certeza que aquela era sua primeira vez naquele local tão rústico e, ao mesmo tempo, agradável. Qualquer pessoa que entrasse ali se sentiria automaticamente alegre, concluíra. Havia música, comida, bebida. Enquanto um grupo de amigos conversava animadamente e bebia alguns drinques, no lado oposto outro grupo dançava eufórico, fazendo com que rastros de suor escorressem pela face de cada um deles. Os garçons carregavam bandejas que exalavam no ar um aroma de dar água na boca e balançar o estômago. Pela variedade de massas e molhos, não restavam dúvidas de que o estabelecimento pertencia à família de imigrantes italianos. O estilo musical e o tipo de dança executado por boa parte dos clientes da taberna também dava margem à ideia. Uma voz longínqua e com sotaque carregado chamou por Darcy. Ao escutá-la, Elisabeta interrompeu sua vistoria e direcionou sua atenção ao senhor de meia idade, um tanto gordinho, de cabelos grisalhos e bigode engraçado que se dirigia a passos largos até eles. Darcy virou-se e acenou para ele. O senhor levantou a mão, na qual carregava duas canecas de chopp. Darcy apresentou Elisabeta ao homem, que ficou encantado com a beleza e educação da moça. “Che bella ragazza, Sr. Darcy”. Ao ouvir o comentário do velho amigo, Darcy engoliu em seco. De fato Elisabeta era belíssima, mas para a infelicidade dele ela ainda não era oficialmente sua namorada. Após cumprimentá-los, o senhor retornou para o balcão do estabelecimento, cujo movimento pouco a pouco se intensificava. Darcy mantinha o olhar fixo em Elisabeta. Estava se divertindo com as expressões dela ao prestar atenção na forma como as pessoas dançavam. Era um estilo bastante diferente do que ela estava habituada a ver de perto nos grandes bailes e seus salões luxuosos. As pessoas ao redor aplaudiam, numa grande festa. Ao ver a reação daquelas pessoas, Elisabeta podia jurar que nenhuma delas passava por problemas. Ou que não possuíam preocupações, dores de cabeça, mágoas, aflições... Após passar alguns segundos observando-a, o rapaz levantou-se, ficou de frente para ela e perguntou:
— Então, Elisabeta Benedito, o que achou do lugar? – Darcy pôs a mão na cintura dela e ambos caminharam até uma das poucas mesas desocupadas. Ele parecia um tanto apreensivo. Elisabeta era uma moça fina. Definitivamente não costumava pôr os pés em ambientes populares daquele tipo. Mas a expressão dela não parecia desagradável. Ao contrário, parecia satisfeita.
— De todos os outros que passamos este é o mais interessante, inusitado, genuinamente alegre e tentador. – Elisabeta pronunciou a última palavra demonstrando angústia na voz e passando a mão sobre a barriga. – É sempre aqui que o senhor vem nas horas vagas, Mr. Darcy? – Elisabeta olhou para ele mantendo os olhos estreitos.
Darcy sorriu. Estava impressionado. Impressionado ao perceber a sensibilidade que Elisabeta possuía para descrever as coisas ao seu redor em tão pouco tempo e de forma tão assertiva. A taberna dos Pricelli de fato despertava tais sensações em todos que por ela passavam.
— Geralmente sim. – Disse ele, de maneira tranquila. – Mas nunca vim acompanhando de alguém tão especial quanto a senhorita. – Darcy exibiu um sorriso ingênuo, o que fez Elisabeta divagar por alguns segundos, observando-o. – Mas por que este lugar parece tentador? Em que sentido especificamente? – Perguntou ele, enquanto puxava uma cadeira para ela. Darcy sabia perfeitamente o que Elisabeta queria dizer, mas preferiu obter dela uma explicação mais aprofundada.
— Fecha os olhos, pensa no horário e sente o cheiro. Eu estou quase levitando e prestes a seguir esse cheiro maravilhoso, Darcy. – Elisabeta pressionou o braço do rapaz, chamando-lhe mais ainda a atenção.
— Nossa! Eu concordo plenamente. Estou faminto!
— Estou absurdamente faminta também! – Disse ela, analisando o menu que estava sobre a mesa.
Darcy e Elisabeta concordavam que ambos estavam com fome. Muita fome. Pois o trajeto até a taberna era longo e já passava da hora do almoço. Além disso, no meio do caminho eles pararam algumas vezes para contemplar as muitas e belas paisagens que cruzaram para chegar até ali. E a cada parada eles conversavam sobre temas importantes para os dois, e para a história que estavam prestes a começar a viver juntos, ainda que não soubessem claramente.
Embora famintos, havia certa discórdia entre Darcy e Elisabeta quanto ao prato que ambos iriam escolher naquela tarde. Ele sugeria uma coisa, ela outra e nada de tomarem uma simples decisão. Após finalmente entrarem em um consenso, ambos decidiram o que comer. Seria o prato mais comum da casa: espaguete.
— Eu queria muito ter um espelho agora para provar ao senhor que os homens são crianças em corpos errados. – Disse ela, antes de experimentar um gole da bebida que Darcy acabava de lhe servir.
— Ah é? Por quê? – Darcy encarou Elisabeta, começando a se sentir constrangido. – Elisabeta, por que você está me olhando assim com esse riso contido? – Darcy questionou, tocando de leve o nariz dela.
— Desculpa Darcy, mas é que você se esqueceu de que existe um utensílio chamado guardanapo e que está logo ali do seu lado. – Ela sorriu enquanto limpava o canto da boca de Darcy com o dedo. – Prontinho! Agora o senhor está apresentável novamente.
— Ah, engraçadinha. Não há no mundo alguém que coma espaguete sem que esse pequeno deslize aconteça.
— Pois você está diante de uma. Eu consigo fazer isso com maestria. – Disse ela, cruzando as mãos e colocando-as abaixo do queixo.
— É mesmo? Pois eu pago para ver. Aliás, eu aposto! – Disse ele, pegando para si o guardanapo dela.
— Aposta? O quê? Eu adoro apostar e mais ainda ganhar! – Elisabeta se inclinou diante de Darcy propositalmente.
— Uma dança! Alá italiana. – Disse ele, erguendo uma sobrancelha e esbanjando um sorriso encantador.
— Nem em sonho, Darcy! Dançar desse jeito – Ela apontou discretamente para um casal que se esbaldavam na dança – na frente de todo mundo? Não mesmo. – Pontuou.
— Elisabeta Benedito recuando em uma aposta? Nossa! – Replicou ele, fingindo estar surpreso. – Mas não deveria fazê-lo, pois a senhorita dança esplendorosamente bem. Pude comprovar na festa oferecida em sua casa. O problema é que seu par, na ocasião, não era eu, claro.
Elisabeta revirou os olhos.
— Fico bastante grata com o elogio, Darcy. Mas isto não é um recuo. É que eu...
— Você...
— Eu não sei dançar desse jeito. Vai ficar feio e não quero passar vergonha. Pronto!
— É impossível, Elisabeta. Tudo em você é lindo, consequentemente todos os seus atos também são.
Elisabeta sentiu seu rosto ruborizar com o comentário de Darcy. Ele sabia perfeitamente como tirá-la de órbita com uma simples frase. Usando palavras clichês, mas totalmente certeiras. Será que era por isso que algumas mulheres que estavam naquele mesmo local não tiravam os olhos de cima dele? Será que Darcy era uma espécie de Don Juan com todas? Elisabeta riu mentalmente do que acabara de cogitar. Já estava começando a sentir ciúmes de Darcy, sem nem ao menos ser namorada dele. – Ainda – Ela não sabia definir o que eles eram. Se ainda estavam no estágio de amizade colorida ou se a relação havia avançado para um campo desconhecido com aqueles beijos, com aquela noite.
— Dá para você ser menos galante, Sr. Darcy? Isso é golpe baixo. – Elisabeta bateu de leve no peito de Darcy e ele se divertiu com o gesto.
— Desculpe, mas eu só disse a verdade. E as verdades precisam ser ditas. Não é?
Elisabeta revirou os olhos – pela décima vez, provavelmente –. Darcy estava a ponto de convencê-la. Não que ela fosse uma mulher fácil de persuadir. Mas a ideia de dançar com Darcy naquele pequeno salão, a ideia de experimentar, ao lado dele, aquela dança tão empolgante estava começando a interferir na sua decisão anterior de recusá-la. Darcy ressaltou que a aposta ainda não havia sido ganha. Ela ainda precisava cometer um pequeno deslize para ter de dançar com ele. Dessa forma, Elisabeta apertou-lhe a mão e acatou o desafio. Mas já não tinha certeza se faria de tudo para ganhar a aposta.
— Está bem! Desafio aceito.
Era triste para Darcy aceitar, mas Elisabeta venceu a aposta. Ela era uma moça extremamente prendada e ágil. O rosto de Elisabeta estava tão limpo que dava a impressão de que ela havia acabado de lavá-lo. No fim das contas ambos se divertiam com a situação que, embora infantil, começava a chamar a atenção de muitas das pessoas que estavam no local; através das risadas contagiantes que os dois davam e que ecoava por toda a taberna.
— Parabéns Elisa! Devo confessar que estou surpreso. – Disse Darcy, apertando novamente a mão de Elisabeta.
— Foi a coisa mais fácil do mundo. Mais fácil que tirar doce de criança. – Disse ela, erguendo um copo de chopp.
— Ah, humilha. Pode me humilhar mais.
Elisabeta riu da expressão dele.
— Já que o senhor perdeu então a prenda a ser paga agora é toda sua!
— Justo! O que devo fazer para pagá-la, então?
— Me ensinar a dançar essa dança esquisita! – Elisabeta levantou-se e estendeu a mão para Darcy.
— Será um prazer Srta. Benedito. – Disse ele, beijando levemente a mão dela. – Não sou um expert em Tarantela, mas podemos arriscar alguns passos e ficarmos quites.
Os dois se dirigiram até um dos cantos do estabelecimento. Exatamente para o local onde um grupo de pessoas estava concentrado, dançando alegremente. Darcy então posicionou Elisabeta de modo que ela ficasse de frente para ele. Ela estava descalça, havia tirado os sapatos de salto para que pudesse apreciar o momento com mais conforto e segurança. Ainda mais após ingerir alguns copos de cerveja e sentir seu equilíbrio um tanto ameaçado. Apontando para os próprios pés, Darcy pediu que ela o seguisse, dando pequenos pulos, levantando uma perna de cada vez. Elisabeta não sabia se ria pelo fato de Darcy, um homem gigante, ter de dançar um estilo musical que exigia tanta agilidade, ou se ria de si mesma por estar completamente fora do ritmo. Na sequência dos passos, Darcy levantou uma das mãos para que Elisabeta a tocasse e ambos pudessem girar pelo salão, e colocou a outra em volta da cintura dela, conforme a dança pedia. O passo saiu perfeitamente harmonioso. Em poucos segundos os dois já pareciam familiarizados com aquele ritmo e já dominavam o salão inteiro com a graciosidade que esbanjavam naquele momento. Após repetirem a dança por três vezes consecutivas a música enfim parou. Todos os casais estavam completamente exaustos.
— Eu nunca me diverti tanto em toda a minha vida. – Disse ela, com a voz ofegante, apoiando-se nos braços dele. – Essa dança é maravilhosa. Você me surpreendeu Sr. Darcy! Um inglês com Tarantela na ponta do pé. Desejo praticar outras vezes.
Darcy sentiu-se lisonjeado e empolgado com o comentário de Elisabeta, pois também desejava o mesmo que ela.
— Que bom, meu amor! Te ver feliz me faz mais feliz ainda. – Disse ele, acarinhando o rosto dela. Elisabeta sentiu seu coração arfar. Mais uma vez a palavra amor saía dos lábios dele. E com uma facilidade inigualável, de forma natural. Era cada vez mais difícil para ambos definir o que existia entre os dois. Apesar de já saberem que o sentimento era amor, e que era mútuo.
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