Notas iniciais
Boa leitura! :)

— Abatida! Ela me parece bastante abatida. – Analisou Lídia, pondo a mão no queixo e puxando para si o travesseiro que estava ao lado de Cecília.

— Eu acho que ela está apenas preocupada. Sempre que ela une as sobrancelhas assim é sinal de preocupação. E essa mão na testa também não me parece nada bom. – Respondeu Cecília ao comentário da irmã caçula, puxando de volta o travesseiro para si.

— Para mim isso é sintoma de saudade. Ela claramente está em negação por ter de passar uma semana inteirinha longe de Darcy Williamson. – Sugeriu Mariana, pegando o travesseiro e colocando um fim na disputa que se iniciava entre as duas irmãs.

— Eu concordo com Cecília; Elisabeta parece preocupada. Ela ama Darcy, muito. Mas, até parece que Elisabeta Benedito ficaria desse jeito por causa de apenas algumas horas de distanciamento do namorado. – Disse Jane, pondo as mãos nos quadris. O comentário da moça fez com que todos os olhares se voltassem exclusivamente para ela. Charlotte, que apenas ouvia atentamente a conversa das Benedito, disse com uma dose de humor na voz:

— Pelo que eu li certa vez, a paixão muda a cabeça das pessoas. Muda a forma de agir delas, a forma de pensar. Mas eu estou com Cecília e Jane. Elisa certamente está preocupada. E não descarto que tenha a ver diretamente com meu irmão. – Disse ela, pensativa.

— Me esperem um instante. Vou averiguar se consigo desvendar esse mistério. – Disse Jane, levantando-se da cama e se aproximando da escrivaninha logo à frente. Elisabeta estava com o cotovelo apoiando sobre a mesa. A cabeça estava inclinada e seus olhos fitavam atenciosamente o papel no qual ela escrevia algumas linhas.

— Poemas? – Perguntou Jane, sentando-se num banco ao lado da cadeira onde a irmã estava.

— Não. São apenas rabiscos. – A voz de Elisabeta era serena, apesar do olhar ser inquieto. – Faz muito tempo que não escrevo poemas. – Disse ela, com pesar. – Jane, será que Julieta ficará do lado de Darcy? Estou com medo de que ela o coloque contra a parede. – Elisabeta disparou em um fôlego só, como se aquelas palavras estivessem dando um nó em sua garganta há horas. Jane olhou para ela com os olhos arregalados. – Não será justo. – Continuou Elisabeta, passando as mãos pelo rosto. – Se, após essa conversa, tudo der errado eu vou me sentir mal, muito mal.

Jane deu meia-volta, ficando de frente à irmã. Ajoelhou-se, segurou-lhe as mãos e disse ternamente:

— Infelizmente eu não tenho a resposta, minha irmã. Mas temos que confiar na justiça e na verdade. E Darcy tem tudo isso a seu favor. – A mão de Jane tocou delicadamente o rosto de Elisabeta, e ela assentiu com a cabeça. Aos poucos um sorriso foi brotando e emoldurando sua face abatida. – Mas vamos! Pode ir levantando, senhorita. Não gosto nada de vê-la assim, tristonha. A manhã está linda, o sol brilha intensamente e todo mundo merece ser agraciado por seu belo sorriso. – Jane segurou-lhe as duas mãos. Em Jane, Elisabeta sempre encontrava as respostas para cada dúvida. O alento para cada angústia. E a motivação para mandar embora qualquer desânimo.

Elisabeta guardou os rabiscos na gaveta, olhou atentamente para os quatro rostos que a encaram com curiosidade, e disse em voz alta:

— Hoje será o dia das garotas! Vamos meninas levantem-se, pois iremos nos divertir! – Disse ela, animadamente. Todas as outras se levantaram num pulo de suas camas. Em poucas horas elas iriam reunir-se novamente para o dia da beleza; o programa para a noite ainda era um mistério que Elisabeta guardava a sete chaves. Todas as garotas desceram apressadamente para tomar café da manhã. Havia um brilho especial no olhar de cada uma delas. E esse brilho não passou despercebido por Ofélia. A matriarca da família tratou logo de questionar o motivo daquela inquietação toda. Afinal de contas, apenas notícias de bailes e saraus deixavam as moças daquela forma tão agitada.

— Elisabeta Benedito eu posso saber o que a senhorita anda aprontando? – Ofélia perguntou e Felisberto começou logo a pigarrear.

Elisabeta pretendia pegar um pão, mas a mãe segurou a mão da moça no ar bem na hora.

— Ora Mamãe. Mas que pergunta! Não estou aprontando nada. A senhora não se sente bem em nos ver assim, felizes? – Elisabeta esbanjou um largo sorriso; em seguida piscou para as irmãs e para a cunhada. Todas lhe retribuíram sorrisos cúmplices.

— Sinto. Claro que me sinto. Mas me espantam muito esses humores em plena manhã. Minha intuição de mãe me diz que preciso ficar alerta a respeito disso. – Concluiu ela, soltando, enfim, a mão da filha e lhe entregando em seguida a cesta com os pães.

— Ofélia, a senhora não gostaria de me ajudar a analisar alguns relatórios? Acredito que seria um ótimo passatempo; principalmente nessas horas de ócio, onde até o bom humor das meninas te incomodam. – Disse Felisberto, contendo um riso.

— Felisberto, como você ousa se referir a mim desta forma, na presença de visitas? Olhe só a garota Charlotte. – Disse ela, apontando para a menina. – O que essa moça tão educada não irá pensar de nós?

Charlotte apresentou um sorriso tímido e disse:

— Não se preocupe dona Ofélia, sei perfeitamente que a senhora tem muito trabalho para manter esta grande casa em ordem. Inclusive, esta casa me transmite sensações bastante agradáveis. Sinto-me verdadeiramente em família com vocês.

— Que gracinha. – Derreteu-se. – A senhorita será sempre muito bem-vinda aqui, Charlotte.

Charlotte assentiu com a cabeça, em agradecimento à gentileza da senhora.

— Vamos esquecer este pequeno burburinho que tivemos aqui. Vou depositar um voto de confiança em você, Elisabeta. – Disse Ofélia, arqueando uma sobrancelha e encarando a primogênita. – Espero não me arrepender.

— Que gentileza a sua mamãe. – Finalizou ela. A jovem Benedito mantinha um sorriso travesso. Após encerrarem o desjejum, as meninas voltaram para o quarto de Elisabeta, que era o maior e mais confortável entre todas as irmãs. Lá, elas usaram e abusaram dos produtos de beleza. Escolheram os melhores vestidos que usariam e escolheram também os mais elegantes e bonitos penteados da moda.

•••

Uma falta de ar repentina atingiu Darcy e Julieta instantaneamente. Não que a sala da propriedade fosse um lugar sufocante, ao contrário. O cômodo era amplo, confortável e possuía janelas em quase todas as paredes. Mas naquele momento elas pareciam insuficientes perante tanta tensão. Julieta não sabia ao certo a forma de começar aquela conversa, e Darcy também continuava calado, apenas observando-a. Sendo assim, ela o convidou para ambos darem uma volta pelo jardim da mansão. O ar fresco ajudaria a clarear as ideias e, talvez, resolver de forma sensata aquela situação embaraçosa e desconcertante.


— Não precisa me explicar os pormenores, Darcy. Eu sei perfeitamente o motivo da sua visita. – Os dois estavam a caminho do jardim quando Julieta começou a falar. Seu olhar era frio, assim como o vento que soprava naquela manhã. Após poucos segundos em silêncio, prosseguiu:

— Susana me telefonou momentos depois de você ter dito a ela que sairia da sociedade.


Darcy se sentiu imediatamente desconcertado ao se dar conta de que Susana havia agido por suas costas pela segunda vez em uma semana. Ele sentiu as palavras sumirem e o ardor da ira cobrir seu rosto.

— Com certeza ela deve ter contado a versão dos fatos que a torna uma vítima na história. Acho que se eu ouvisse poderia até me sentir comovido também, facilmente.

Darcy riu nervoso. Como Julieta podia agir de forma tão apática? Questionou ele, mentalmente.

— Sr. Williamson eu acho que este não é um momento adequado para ironias e brincadeiras. Não importa se Susana se fez de vítima ou não. O que importa é você assumir que agiu de forma imatura.

— O tom de voz de Julieta sofreu uma considerável mudança, alterando-se de calmo à austero. Ela passou a mão pelos cabelos, demonstrando nervosismo. Não queria brigar com Darcy e não queria parecer negligente com o problema; mas algo estava incomodando-a e Julieta não era o tipo de pessoa que se calava quando se sentia incomodada com algo ou alguém.

— Imaturo? Por querer me afastar de uma desalmada feito Susana Adonato? — Perguntou Darcy, atônito.

— Não. — Respondeu Julieta, voltando-se para ele. – Por querer jogar tudo que conquistamos para o ar por conta de... — Ela mordeu a língua subitamente e passou a buscar palavras menos ofensivas e mais adequadas do que as que circulavam por sua cabeça. – Por conta de romances e paixonites fervorosas. Me desculpe Darcy, eu poderia esperar isso de Camilo, que é mais jovem, inexperiente... Mas de você? — Disse ela, balançando a cabeça. – Eu realmente não sei nem o que pensar.

Darcy respirou fundo e disse:

— Então é isso, você acatou as justificativas da Susana e pretende continuar a apoiá-la? Mesmo sabendo o tipo de pessoa que ela é?

Darcy estava se sentindo completamente abatido e desacreditado.

— Darcy, você mais do que ninguém sabe a proporção dos nossos negócios. Não é algo que se pode romper do dia para a noite. Há muita coisa envolvida. Eu sei que você está ferido. Está se sentindo traído, magoado. Mas precisamos fazer coisas e tomar decisões com calma e de cabeça fria. Não quero me intrometer na sua vida pessoal. Mal conheço Elisabeta, inclusive. Mas também não posso agir pela emoção sem ao menos avaliar bem o que estou fazendo e em qual terreno estou pisando. Como disse, há muita coisa em jogo.

Ela tentou tocar a mão dele, mas Darcy recuou.

— Neste caso, qual será sua decisão Julieta?

— Não posso lhe dizer agora. Mas talvez seja algo que irá acalmar os ânimos. — Ela fez uma pausa e o encarou. Desta vez seu olhar era sereno. — Os ânimos de todos nós.

Darcy fitou Julieta e respirou fundo. Parecia querer entender o que estava acontecendo ali. Ou melhor, o que estaria por acontecer.

— E enquanto decide se me conta ou não você sugere que eu continue ao lado de Susana? — Não. Eu irei solicitar a vinda de Susana a São Paulo, esses dias. Enquanto isso, você terá sua paz de volta no Vale do Café.

Darcy permaneceu em silêncio. Aquela não parecia a solução mais adequada. Mas àquela altura, ele já não sabia ao certo o que seria adequado ou não. Uma vez que, após ouvir as palavras de Julieta sobre imaturidade e tudo o que o mundo dos negócios acometia, lhe ocorreu em mente, naquele exato momento, uma ideia um tampo intempestiva, mas completamente tentadora.

•••

Aquele dia não poderia acabar melhor! Elisabeta concluíra ao ver as irmãs e a cunhada se divertindo e dançando alegremente pela casa de chá. Ela sentiu vontade de se unir a elas. Sentiu vontade de beber algo para tentar conter a ansiedade que volta e meia invadia seu peito. Sentiu vontade de falar com seu Matias e pedir que ele a levasse a São Paulo naquela mesma noite. Todos esses pensamentos e vontades súbitas passaram pela cabeça de Elisa no mesmo espaço de tempo. Em uma espécie de impulsividade momentânea. Estava tão absorta que nem sequer percebeu alguns olhares em direção a ela. Olhares estes que foram tomando proporção cada vez maior.

— Aceita uma bebida? – A voz rouca tirou Elisabeta de seu transe e, por fim, ela encarou a figura à sua frente.

— Não, obrigada. – Respondeu ela, gentilmente.

— Não aceita por não ter o hábito de beber ou por educação? – Perguntou ele, tocando a borda do copo com um dedo.

— Me desculpe senhor, mas isso não lhe diz respeito. Passar bem! – Respondeu ela rapidamente. Elisabeta segurou seu longo vestido vermelho e levantou-se num pulo. Queria se afastar daquele estranho o quanto antes. Mas ele fora mais rápido e a segurou pela mão.

— Calma senhorita, só quis ser gentil. – Disse ele, segurando, ainda, a mão dela. – Nossa! Não sabia que as moças do Vale do Café eram assim.

— Assim? – Perguntou ela, em tom desafiador.

— Descompensadas. – Respondeu ele, tranquilamente.

— Descompensada é a senhora sua avó! Faça o favor de soltar o meu braço. – Elisabeta podia queimá-lo com o próprio olhar.

— Pronto. – Disse ele, apresentando um sorriso de lado e largando o braço da moça. – Está mais livre do que um passarinho.

Elisabeta o fuzilou com os olhos. O desconhecido era mais insolente do que ela podia imaginar.

— Roberto? Mal chegou à cidade e já está atormentando as damas?

Elisabeta e o homem olharam ao mesmo tempo para Camilo, que se aproximava dos dois a passos rápidos.