Entre o Amor e a Morte.
21 Kily e Helena
Notas iniciais
Cof Cof Cof
Inferno, tudo dói! Parece que cinco caminhões passaram por cima de mim. Droga Kily, você não tem tempo para pensar nisso agora. Você está na porra de um rio, sendo levado embora pela correntesa para onde Judas perdeu as botas.
Mas será que onde Judas perdeu as botas é tão ruim assim? Sei lá, ta tudo doendo e eu podia simplesmente boiar e deixar levar.
FOCO KILY! Você precisa sair dessa merda de rio e... Helena! Puts, onde está Helena?
Olho em volta a procura da minha namorada, nada. Começo a ficar desesperado e nado pelo rio tentando ver ela. Eu tenho que encontrar ela, não sei o que vou fazer sem a garota que aprendi a amar loucamente. De repente vejo algo, cabelos loiros boiam ali perto.
— Helena! — Chamo, mas ela não se mexe. Não sei da onde tiro forças, mas começa a nadar em sua direção o mais rápido possível. O meu braço lateja de dor e vejo que por causa do esforço o sangue ainda corrioa do buraco da bala. Eu poderia acabar morrendo se não desce jeito logo naquele ferimento. Me assusto ao constatar que isso não preocupa nem um pouco, a única coisa que quero no momento é que Helena continue viva.
Apesar da forte correntesa consigo chegar à minha namorada. Ela estava totalmente desmaiada e parecia ter engolido muita água. Suspiro e penso no que fazer. Vejo um tronco barrar parte do caminho do rio, seria um encontro bastante doloroso por causa da velocidade e que éramos carregados, mas provavelmente nos ajudaria a chegar a margem mais fácil.
Opto por sentir um pouco de dor. Abraço fortemente Helena e me viro de costas para o tronco, me preparando para sentir o impacto.
— Puta que pariu. — Exclamo ao bater com tudo na madeira, a dor passara por níveis astronomicos até beirar o insuportável. Por alguns segundo sou obrigado a largar Helena para tentar pegar um pouco de folego, um trabalho muito difícil já que meus pulmões pareciam pegar fogo. Acho que depois daqui vou tentar as olimpíadas.
Felizmente eu estava certo, a madeira impediu que prosseguíssemos o caminho do rio. Puxando-a de pouco em pouco vou consigo levar os nossos corpos até a margem. Quando finalmente consigo me arrasto até Helena.
Merda, ela não está respirando.
— Helena. Por favor não vá Helena, não vá. — Começo a fazer massagem cardíaca nela, mas não parecia adiantar. — Droga Helena, você não pode me deixar.
Faço então a respiração boca a boca nela. Gasto até a última particula de ar que resta em meus pulmões na tentativa de faze-la voltar. Quando sinto que não tenho mais forças, a loira começa a tossir. Ela vomita toda a água que engoliu e parece procurar ar desesperadamente.
Acho que em toda a minha vida, nunca fiquei tão feliz por ver alguém botar tudo pra fora.
— Kily?- Ela diz ainda aturdida e eu sorrio abraçando-a, lágriams começam a cair e eu começo a chorar como uma criancinha. Estava tão aliviado por ver ela viva de novo.
— Você não pode mais fazer isso comigo. — Digo entre soluços. Se alguém visse a cena não acreditaria que era a mesma pessoa que outra hora estava convencendo alguém a atirar em si mesmo.
— Só se você me prometer que vai parar de ser alvo de malucos por minha causa. — Ela diz, sua voz ainda está fraca. Rio concordando e não a largo. -Kily, você está sangrando! — Ela exclama segurando o meu braço, não consigo dizer nada e muito menos larga-la. — Solta, Kily! — Helena se livra do meu abraço. — Se eu não cuidar disso logo talvez você tenha que amputar.
Ela se levanta e começa a andar de um lado para o outro tetando pensar em alguma coisa.
— Helena, se você não sentar sua respiraçã não vai voltar ao normal tão cedo.
— Se eu sentar você vai morrer.
De repente ela parece lembrar de algo. Seus olhos correm o local e se fixão em alguma coisa.
— Tem uma cabana aqui perto! Eu passava horas nela quando era menor, acho que posso cuidar de você lá.
Ela estende a mão para me ajudar a levantar. Nessa hora sinto toda a dor que antes eu tentei ignorar.
— Acho que vou ficar por aqui mesmo. — Reclamo.
— Nem pensar, anda, levanta Kily, eu te ajudo.
Com muita força e ajuda consigo ficar em pé. Me pergunto se alguma de minhas costelas haviam se quebrado no impacto, espero realmente que não. Andamos o mais rápido que eu conseguia e chegamos a uma cabana de madeira.
HELENA
Puxei Kily pela mão em direção a cabana.
Muitas vezes, quando eu era menor e as águas desse rio não eram tão avermelhadas eu descia o penhasco para ficar brincando e me banhando. Quando meu pai estava bêbado demais, ou seus amigos assassinos estavam me enchendo o saco, eu passava a noite ali.
— Helena? — Me chamou.
— Oi?
— Promete que meu braço não vai cair? — Me perguntou, me encarando com aqueles olhinhos tão desamparados e assustados, parecendo uma verdadeira criança. — Acabei não conseguindo me controlar.
Soltei uma risada.
— Claro que eu prometo, amor. — Assim que a frase escapou de minha boca percebi a cagada que eu tinha feito. Merda! Eu não sabia se seria melhor eu consertar, ou ficar quietinha esperando que esse deslize passasse despercebido.
— Amor? — Perguntou, com aquele sorrisinho assanhado.
— É.... — Acabei por responder, bastante envergonhada. Ele ficou quietinho depois disso, porém eu senti que essa conversa ainda não tinha terminado.
— Subimos a escadinha da pequena varanda que tinha na entrada para pequena casa. Soltei a mão de Kily por um momento apenas para me abaixar e pegar a chave que sempre ficava escondida debaixo do tapete.
—Ah, você tá de sacanagem? — Se pronunciou Kily — Lá em cima tem uma cacetada de serial Killers e vc guarda a chave da sua casinha embaixo do tapete?!
— Primeiro. Não chama ela te casinha. Segundo... Sim — Retruquei rindo da cara que ele fez. Roubei um rápido selinho antes de adentrar o cômodo, sabendo que estava sendo seguida por ele. — Pode sentar ali no sofá enquanto eu pego as coisas para dar um jeito no seu braço. — Falei.
— Me dirigi para a cozinha. Me pus na ponta dos pés para pegar o álcool que tinha no armário. Fui em direção ao quarto, que por sorte, estava arrumadinho da última vez que estive aqui. Peguei uma gaze que tinha na cômoda, uma agulha e uma linha enfiadas da bonequinha de pano que eu estava costurando e voltei para a sala.
— Volteeeeeiii — Cantarolei. Eu deveria estar chateado por causa de todos os acontecimentos, porém, por algum motivo desconhecido, eu estava muito animada. 0
— Pera, pera, pera. Você tem uma cabana embaixo de um penhasco do lado de um rio de sangue. Uma chave escondida debaixo de um tapete escrito “bem-vindo” , álcool, gaze, agulha e linha??
— Não questiona, não. Você deveria estar agradecido. Eu não falei que ia fazer com que o seu braço ficasse no lugar?
— Na verdade, você disse: Prometo, meu amor.
— Para, Kily! — Fiz birra. Ele só riu, achando super engraçado eu parecer uma criança pirracenta. — Eu vou esterilizar essa agulha aqui e já volto. — Falei saindo novamente do cômodo.
Depois de ter limpado ela direitinho voltei para a sala.
— É o seguinte. Eu não tenho nada alcoólico aqui, mas eu não vou deixar você sentir muita dor.
— E como você vai fazer isso, doutora? — Perguntou debochado. Me fascina o jeito que ele, mesmo sentindo dor consegue ser tão bem humorado.
— Você vai ver — Falei dando um sorrisinho safado.
Cheguei me pertinho dele e sentei em seu colo.
— Hã.... Hele... CARALHO!!! — Berrou quando joguei meio litro de álcool na ferida.
— Shiuuu.... — Fiz enquanto beijava sua boca. O coitado não sabia se chorava ou se me retribuía. Nos separei depois de um tempo. — Agora você vai ficar bem quietinho para eu costurar, ok? — Perguntei.
— Acho que ainda preciso de mais distração antes. — Resmungou, olhando para a minha boca. Dei um selinho nele para não falar que não atendi o pedido.
Peguei a agulha e fui costurando. Não podia ficar parando toda hora para agradar ele porque sei que assim só estaria prolongando seu sofrimento. Quando finalmente terminei, envolvi seu braço com gaze.
— Pronto? — Perguntou.
— Pronto. — Respondi. Fui me levantar de meu colo quando ele protestou.
— Fica aqui mais um pouquinho....
— Eu já volto, só vou lavar as mãos. Depois voltei para a sala e ficamos conversando por um tempo, agarradinhos no maior amorzinho.
— Helena... — Murmurou, um pouco depois de o céu ter escurecido.
— Sim?
— Sobre o que você disse hoje... “meu amor”.... Não precisa ficar envergonhada. Eu sou seu amor sim, e te amo, quero que me chame assim sempre. — Disse, me olhando profundamente com aquelas lindas bolotas azuis.
— Ah Kily. Você é a minha luz no fim do túnel. Não tem noção de como me sinto feliz ao seu lado....
Ele me olhou com cuidado, segurou meu rosto entre as mãos e foi se aproximando delicadamente, quando do nada.... parou. Esperei que ele continuasse o trajeto mas ele simplesmente não se movia.
— O que foi? — Perguntei já irritada por não ter ganhado meu beijo.
— Ah... Nada. É porque tá dando para ver o reflexo do meu rosto em seus olhos. Você tem sorte em me ter mesmo — Disse, todo convencido.
Olhei para ele, desejando que estivesse brincando. Você tá de sacanagem. Me levantei de se colo irritadíssima.
— Eiii!!!! — Me berrou. Mesmo com ele me chamando continuei me dirigindo para o quarto. Que dormisse no sofá.
— Por que? Por que ele teve que estragar um momento lindo desses? — Me perguntei.
Acho que fiquei uns 15 minutos deitada na cama sozinha e já estava quase adormecendo quando senti o colchão se mexer.
— Psiu. — Me chamou.
Resolvi fingir que estava dormindo e não me mexi.
— Eu sei que você está acordada. Não vai me responder. — Continue quieta. — Tá bom então. — Começou a beijar meu pescoço, meu rosto e toda a área. Acabei sorrindo. — Para de ser cabeça dura princesa. Eu sei que adora meus beijos, e eu adoro te beijar — Me disse me olhando.
E ali, bem ali, olhando os olhos daquele lindo idiota, naquela cama velha e cabana cheia de lembranças, fiz amor com o homem que eu amo.
Melhor. Noite. Da. Minha. Vida
Fale com o autor