Entre o Aço e a Sombra
16 O Silêncio das Alianças e o Grito no Vazio
As semanas que antecederam o "Casamento do Século" foram um deserto para o coração de Claire Mackenzie. Ela se tornou um fantasma nos corredores do palácio, uma sombra da mulher vibrante e afiada que costumava ser. Seus comentários ácidos haviam secado; sua risada, outrora cristalina, não era ouvida nem mesmo nos jardins reais. Ela cumpria suas obrigações com uma precisão robótica, evitando qualquer menção ao nome "Sinclair" como se fosse uma praga.
No dia da cerimônia, o Palácio Real e a Catedral de Lâfrer estavam adornados com o ouro da vitória e o branco da união. Quando a Rainha Elowen entrou nos aposentos de Claire para chamá-la, encontrou a dama sentada diante da janela, vestindo apenas um robe simples, com os olhos perdidos no horizonte.
— Claire, querida... as carruagens estão prontas — disse a Rainha, sua voz carregada de uma compaixão que Claire não queria aceitar.
— Peço permissão para ficar, Majestade — Claire respondeu, sem desviar o olhar. — Uma enxaqueca terrível me abateu. Não seria uma companhia adequada para uma celebração tão... harmoniosa.
A Rainha suspirou, sabendo que a "enxaqueca" era, na verdade, uma ferida aberta no peito. Ela assentiu silenciosamente e saiu, deixando Claire na penumbra do quarto. Mas, assim que o som das carruagens se afastou, o silêncio tornou-se um carrasco. Claire não aguentou. Movida por um masoquismo desesperado, ela vestiu uma capa escura com capuz e esgueirou-se pelas passagens de serviço até a galeria superior da catedral, um lugar escondido entre as sombras das colunas góticas, onde ninguém a veria.
Lá embaixo, o espetáculo era cruel. O General Marcus Sinclair estava parado no altar. Ele vestia sua farda de gala máxima, as medalhas brilhando sob a luz dos vitrais. Ele parecia uma estátua de granito, imponente e inabalável. Elena entrou, uma visão de pureza e simplicidade, caminhando em direção ao homem que Claire agora sabia que amava com cada fibra de seu ser.
Claire assistiu a cada segundo. Viu quando Marcus pegou a mão de Elena — a mesma mão calejada que havia limpado o suor de sua testa naquelas noites de febre. Ouviu o eco das promessas de fidelidade e paz. Quando o bispo pronunciou as palavras finais e Marcus inclinou-se para selar o matrimônio com um beijo casto e tranquilo na testa de Elena, Claire sentiu como se o ar tivesse sido sugado de seus pulmões. Não houve faíscas, não houve gritos, não houve a eletricidade que incendiava o ar quando eles discutiam. Era apenas... pacífico. E era essa paz que a estava matando.
Ela viu Marcus olhar por um breve segundo para o lugar vazio ao lado da Rainha, onde Claire deveria estar. Por um milésimo de segundo, a máscara de gelo do General pareceu vacilar, um lampejo de busca em seus olhos escuros, mas ele logo voltou a atenção para a sua noiva, oferecendo-lhe o braço para saírem sob a chuva de pétalas de flores.
Claire fugiu. Ela correu de volta ao palácio, tropeçando em sua própria capa, o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado. Ao entrar em seu quarto, ela trancou a porta com as mãos trêmulas e encostou-se na madeira fria.
O transtorno finalmente a dominou. Ela não chorou suavemente; ela desabou. Claire começou a andar de um lado para o outro, arrancando os enfeites de cabelo, jogando as escovas de prata contra a parede. O silêncio que ela tanto temia agora estava em todo lugar. Ela se olhou no espelho — o mesmo espelho onde um dia se orgulhou de sua beleza e arrogância — e viu apenas uma mulher que havia perdido a única guerra que realmente importava por puro medo de se render.
— Idiota! — ela gritou para o próprio reflexo, a voz embargada. — Você teve a chance de enfrentar o urso e escolheu bicar as sombras!
Ela se jogou na cama, enterrando o rosto nos travesseiros para abafar os soluços que sacudiam seu corpo. Enquanto os fogos de artifício estouravam do lado de fora, celebrando a união do herói com sua doce esposa, Claire Mackenzie permanecia trancada em sua própria escuridão, prisioneira das palavras que nunca teve coragem de dizer.
Fale com o autor