Entre o Aço e a Sombra
17 O Reencontro sob o Visco e o Caos do Desejo
O Natal chegou com uma camada espessa de neve cobrindo o Reino de Lâfrer, mas o gelo lá fora não era nada comparado ao frio que habitava o peito de Marcus Sinclair. Seis meses de casamento haviam lhe dado o que ele pediu: paz. Elena era doce, nunca discutia, concordava com cada vírgula de suas decisões e sorria com uma placidez que, para Marcus, começou a soar como o silêncio de um cemitério.
Ele sentia falta das faíscas. Sentia falta de ser desafiado. Sentia falta de Claire.
O Baile de Natal no palácio estava em pleno vapor. O cheiro de pinho e canela flutuava no ar, e a música das harpas tentava embalar a nobreza em uma alegria festiva. Marcus, vestindo seu uniforme de gala, observava a multidão com um olhar distante. Elena estava ao seu lado, conversando suavemente com algumas duquesas sobre receitas de tortas de maçã.
Foi quando ele a viu.
Claire Mackenzie entrou no salão. Ela não usava mais o verde de antes; vestia um vermelho profundo, a cor do sangue e da paixão. Seus cabelos ruivos brilhavam sob os lustres, e seus olhos verdes, embora mais tristes, ainda guardavam aquela chama de insolência que ele tanto conhecia. Eles se olharam por um segundo eterno, e a "paz" de Marcus desmoronou como um castelo de cartas.
Sem dizer uma palavra a Elena, Marcus se afastou da roda de conversa. Ele precisava de ar. Ele precisava dela.
Claire, notando o movimento, sentiu o coração disparar. Ela saiu pelas portas de vidro em direção ao jardim de inverno, onde a neve caía suavemente sobre as estátuas de mármore. Ela parou perto de uma fonte congelada, abraçando os próprios braços para se aquecer, quando ouviu o som pesado das botas dele na neve.
— Fugindo das festividades, Mackenzie? — A voz de Marcus era um rosnado baixo, carregado de uma saudade que ele não conseguia mais esconder.
Claire virou-se, o queixo erguido, recuperando sua máscara de deboche.
— E o General Sinclair fugindo da sua "esposa perfeita"? Achei que a paz da sua mansão fosse o seu paraíso particular. O que foi? O tédio finalmente começou a sufocar você?
Marcus deu um passo à frente, invadindo o espaço dela, o calor de seu corpo contrastando com o frio da noite.
— Você sabe muito bem o que está acontecendo, Claire. Eu tenho o que pedi, mas não tenho o que preciso. Eu passo os dias em um silêncio absoluto, esperando que alguém me chame de animal ou critique a cor das minhas cortinas!
— Você fez sua escolha, Marcus! — Claire gritou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. — Você escolheu a doçura! Você escolheu a mulher que não te enfrenta! Eu fiquei trancada naquele quarto morrendo por dentro enquanto você colocava uma aliança no dedo de outra!
— Porque eu achei que você me odiava! — Ele segurou os ombros dela com força, sacudindo-a levemente. — Você passava o dia me insultando! Como eu poderia saber que por trás daquela língua de víbora existia algo que eu não conseguiria viver sem?
— Pois agora você sabe! — Claire rebateu, batendo no peito dele. — Eu te amo, seu ogro estúpido! Eu te amo desde o primeiro sanduíche de pepino naquele jardim maldito!
O mundo parou. Marcus não hesitou mais. Ele a puxou pela cintura, colando seus corpos, e a calou com um beijo faminto, desesperado, que carregava toda a frustração de meses de separação. Claire respondeu com a mesma intensidade, as mãos emaranhadas nos cabelos dele, entregando-se ao fogo que tentaram apagar por tanto tempo. Foi o primeiro beijo deles — e foi um incêndio na neve.
— MAS O QUE É ISSO?! — Uma voz cortante como um chicote estalou no ar.
Eles se afastaram bruscamente, ofegantes, para encontrar a Rainha Elowen Styles Lâfrer parada sob o arco do jardim, com os braços cruzados e uma expressão de fúria absoluta. O Rei Dhorwack estava logo atrás, com a mão no rosto, como se previsse o desastre.
— Majestade... — Marcus tentou recompor a farda, mas seu rosto estava marcado pelo batom vermelho de Claire.
— Cale a boca, General! — Elowen deu um passo à frente, o dedo apontado para os dois. — Claire Mackenzie, eu te criei com etiqueta e honra, não para se esconder nos jardins como uma cortesã com um homem casado! E você, Marcus Sinclair, o herói do reino! Sua esposa está lá dentro, sendo a personificação da bondade, enquanto você desonra o nome dela e a coroa neste jardim!
— Elowen, acalme-se... — o Rei tentou intervir.
— Não me peça para me acalmar, Dhorwack! — Ela virou-se para o marido e depois voltou para os dois amantes. — Vocês dois são dois idiotas orgulhosos! Se tivessem falado a verdade antes, não estaríamos neste lamaçal de infidelidade!
Ela olhou para Claire com uma decepção que doeu mais que qualquer tapa.
— Volte para o seu quarto agora, Claire. E você, General, limpe esse rosto e volte para sua esposa. Amanhã, teremos uma conversa que decidirá o futuro de vocês dois neste reino. Se eu vir um único olhar atravessado de novo esta noite, mandarei os dois para as masmorras mais profundas de Lâfrer!
Claire saiu correndo, soluçando, enquanto Marcus ficou parado, a cabeça baixa, sentindo o peso do esporro da Rainha e a percepção de que, embora o beijo tivesse sido real, o preço agora seria cobrado em dobro.
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