Entre o Aço e a Sombra

20 O Perfume de Jasmim nas Brumas do Passado


Passaram-se cinco anos desde que o som das rodas da carruagem de Claire ecoou pela última vez no pátio de Lâfrer. Na Inglaterra, ela encontrou a paz das névoas, mas nunca o calor de um novo amor. O convite da Rainha Elowen, agora finalmente vivendo a alegria de uma gravidez tardia e celebrada por todo o reino, foi o pretexto que Claire precisava para enfrentar os fantasmas do passado.


​O ar da Espanha continuava o mesmo, mas Claire Mackenzie era uma mulher diferente. Aos trinta e poucos anos, sua beleza era mais madura, os olhos verdes guardavam uma profundidade serena e sua língua, embora ainda pronta para o contra-ataque, aprendera o valor do silêncio produtivo.

​Ao cruzar os portões do palácio, a nostalgia atingiu-a como uma lufada de vento quente. A Rainha Elowen recebeu-a nos jardins, sentada sob uma laranjeira, a mão repousando com carinho sobre a barriga proeminente.

​— Claire... — a Rainha sorriu, as lágrimas brilhando. — Você trouxe o frescor do Norte com você.

​— Majestade, você está radiante — Claire ajoelhou-se, beijando a mão da amiga. — O reino inteiro celebra este milagre.

​As duas conversaram por horas, recuperando o tempo perdido, até que o assunto inevitável surgiu. Claire tentou manter a voz casual, mas seu coração batia com uma força que ela julgava ter esquecido.

​— E... o General Sinclair? — Claire perguntou, fingindo ajustar uma dobra em seu vestido de viagem. — Suponho que a mansão de Valle de Prata esteja mais cheia de vida do que nunca com seus filhos.

​O rosto da Rainha sombreou-se por um momento. Ela pousou a xícara de chá com cuidado.

​— Você não soube, Claire? As notícias demoram a cruzar o mar... Elena partiu há dois anos. Uma febre súbita, no inverno. Foi rápido, mas devastador. Marcus... ele nunca mais foi o mesmo.

​Claire sentiu o mundo girar. A imagem de Elena, tão doce e pacífica, veio à sua mente, trazendo uma pontada de tristeza genuína. Ela nunca desejara o mal àquela mulher; apenas desejara o homem que estava ao lado dela.

​— Ele está viúvo? — a voz de Claire foi um sussurro.

​— Sim. Ele vive recluso na mansão. Cumpre seus deveres militares com a eficiência de sempre, mas raramente é visto em bailes ou banquetes. Dizem que ele transformou Valle de Prata em uma fortaleza de memórias. Os filhos estão crescendo, mas sentem falta da alegria do pai.

​Naquela noite, Claire não conseguiu dormir. O destino, que fora tão cruel, parecia agora abrir uma porta que ela acreditava ter sido trancada para sempre.

​No dia seguinte, sem avisar a ninguém, ela ordenou que preparassem um cavalo. Ela não queria a pompa de uma carruagem real; queria sentir o vento no rosto e a urgência da estrada. Quando avistou as torres de Valle de Prata, o estômago de Claire deu um nó. As cortinas azul-marinho ainda estavam lá, agora levemente desbotadas pelo sol espanhol, mas presentes.

​Ela desmontou e caminhou em direção ao jardim de inverno. E lá estava ele.

​Marcus Sinclair estava de costas, observando uma roseira que parecia lutar para florescer. Ele não vestia a farda de gala; usava uma camisa branca simples, com as mangas dobradas, revelando os braços fortes e marcados por cicatrizes. O cabelo tinha alguns fios de prata nas têmporas, mas a postura continuava a de um homem que carregava o peso de um mundo.

​— Sabe, General... — a voz de Claire quebrou o silêncio, trêmula mas carregada do velho deboche — ...aquela roseira nunca vai vingar se você continuar a encará-la com essa cara de quem está prestes a declarar guerra às flores.

​Marcus estacou. Cada músculo de suas costas tencionou-se. Ele virou-se lentamente, como se temesse que o som fosse apenas uma alucinação causada pela saudade.

​— Mackenzie? — a voz dele saiu rouca, um som que parecia vir do fundo de uma caverna.

​— Em carne, osso e com a língua tão afiada quanto o senhor se lembra — ela disse, dando um passo à frente, as lágrimas começando a turvar sua visão. — Soube que você precisava de alguém para criticar a decoração. Dizem que este lugar ficou... silencioso demais.

​Marcus não respondeu com palavras. Ele atravessou a distância que os separava com três passadas largas e, sem hesitar, envolveu-a em um abraço que parecia querer fundir suas almas. Claire enterrou o rosto no peito dele, aspirando o cheiro de couro e pólvora que nunca deixara seus sonhos.

​— Você demorou muito, Claire — ele murmurou contra o cabelo dela, a voz quebrada pela emoção. — Eu passei mil noites discutindo com a sua sombra nestes corredores.

​— Eu estou aqui agora, Marcus — ela respondeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos escuros dele, que agora brilhavam com uma esperança nova. — E desta vez, nem a Rainha, nem o dever, nem o silêncio vão me tirar daqui.

​Ali, no jardim que fora palco de tantas dores, o Leão e sua Dama de Companhia finalmente baixaram as armas. A guerra acabara. E a paz, pela primeira vez, não parecia um castigo.