Entre o Aço e a Sombra

21 O Forte de Travesseiros e a Conquista do Caste


A reconstrução de uma família sobre as cinzas do passado nunca é uma linha reta, especialmente quando há crianças envolvidas que guardam a memória de uma mãe doce e silenciosa. Para Claire, conquistar o coração dos pequenos Sinclair seria a sua batalha mais difícil — e a mais gratificante.


​A mansão de Valle de Prata, antes mergulhada num luto respeitoso e cinzento, começou a vibrar com uma energia nova. Claire instalou-se num dos quartos de hóspedes, a convite de Marcus, sob o olhar atento e desconfiado de Arthur, de oito anos, e da pequena Beatrice, de seis.

​Arthur era a imagem viva de Marcus: sério, observador e com um maxilar que já demonstrava a teimosia dos Sinclair. Beatrice, por outro lado, tinha a doçura de Elena, mas escondia uma timidez que a fazia desaparecer atrás das cortinas sempre que Claire entrava numa sala.

​— Eles não facilitam, não é? — Marcus comentou certa tarde, encontrando Claire no corredor enquanto ela segurava um livro de lendas inglesas.

​— Se fosse fácil, Marcus, eu estaria entediada — Claire retrucou com um brilho desafiador. — O seu filho olha para mim como se eu fosse um espião inimigo e a sua filha foge como se eu fosse um dragão. Mas eu já domei o pai deles, não foi?

​Marcus soltou uma gargalhada rara, beijando a têmpora dela antes de seguir para o escritório.

​A estratégia de Claire foi puramente... Claire. Nada de doces excessivos ou bajulação. Numa tarde de chuva, ela entrou na biblioteca onde as crianças estavam sentadas rigidamente com a sua preceptora.

​— Esta sala é um tédio — Claire anunciou, fechando o livro de gramática de Arthur com um estalo. — Como é que esperam que alguém aprenda estratégia militar ou etiqueta real num lugar tão... arrumado?

​Arthur arqueou uma sobrancelha, exatamente como o pai.

— É assim que se estuda, Lady Claire. O meu pai diz que a disciplina é a base de tudo.

​— A disciplina é a base, mas a criatividade é a vitória — ela rebateu. — Sabiam que, na Inglaterra, quando chove assim, nós construímos fortes imbatíveis dentro de casa?

​Em menos de uma hora, a biblioteca estava transformada. Claire usou as famosas cortinas azul-marinho extras, lençóis de linho e todos os travesseiros de veludo da mansão para erguer uma fortaleza entre as estantes de livros.

​— Arthur, você é o General de Defesa. Beatrice, você é a Mestra das Provisões — Claire comandava, com o cabelo já despenteado e as mangas do vestido arregaçadas. — Eu sou a Almirante das Brumas. Estamos cercados por piratas invisíveis. O que fazemos?

​Pela primeira vez, viu-se um brilho de excitação nos olhos de Arthur. Beatrice, timidamente, saiu de trás de uma poltrona segurando um cesto de maçãs.

​— Nós... nós jogamos livros neles? — sugeriu a menina.

​— Livros são tesouros, pequena Bea! Usamos a lógica e, talvez, algumas almofadas bem lançadas — Claire piscou.

​Marcus parou à porta da biblioteca, paralisado pela cena. O seu salão impecável estava um caos. Havia risadas — risadas reais — ecoando pelas paredes. Ele viu Claire gatinhar para dentro do "forte" para contar uma história sobre cavaleiros e dragões que não eram vencidos pela espada, mas pela astúcia.

​Semanas depois, o gelo quebrou-se definitivamente. Arthur aproximou-se de Claire enquanto ela lia no jardim.

​— Lady Claire? — o menino chamou, chutando o chão. — O meu pai disse que você era a pessoa mais teimosa que ele já conheceu. E que você discutia com ele até sobre a cor das paredes.

​Claire sorriu, fechando o livro.

— Ele não mentiu, Arthur. Mas eu só discutia porque me importava. Às vezes, as pessoas que mais nos amam são as que mais nos desafiam a ser melhores.

​Arthur assentiu devagar.

— A minha mãe era como uma manhã de sol. Tudo era calmo. Você... você é como uma tempestade. Mas o meu pai parece que finalmente acordou desde que a tempestade chegou.

​Ele estendeu a mão para ela.

— Você me ensina a discutir com ele? Ele nunca me deixa vencer no xadrez.

​Claire riu, uma gargalhada que espantou os pássaros das árvores, e segurou a mão pequena do enteado.

— Oh, pequeno Sinclair... eu vou ensinar-te truques que farão o teu pai pedir trégua em cinco minutos.

​À noite, durante o jantar, a Rainha Elowen — que viera de visita para ver o progresso da "conquista" — observou a mesa. Claire corrigia a postura de Beatrice com um comentário sarcástico que fazia a menina rir, enquanto Arthur e Marcus debatiam táticas de defesa sob o olhar atento e aprovador de Claire.

​A mansão de Valle de Prata já não era um mausoléu. Era um lar. E enquanto Claire olhava para Marcus por cima das cabeças das crianças, ela percebeu que a sua maior vitória não foi voltar para a Espanha ou reconquistar o General. Foi descobrir que o amor, quando é verdadeiro, tem espaço para o passado, para o presente e para um futuro cheio de barulho, discussões e, finalmente, muita vida.