Entre o Aço e a Sombra

13 O Chá das Pretendentes e o Banho de Vinagre



​O salão principal da mansão "Valle de Prata" nunca esteve tão impecável — e tão sufocante. Claire havia passado a manhã inteira coordenando criados, movendo móveis e garantindo que as flores estivessem em tons que não brigassem com as novas cortinas azul-marinho. Marcus, por sua vez, vestia uma farda de gala impecável, mas sua expressão era a de um homem marchando para o próprio fuzilamento.

​— Por favor, Marcus, tente não rosnar para as convidadas — Claire cantarolou, ajustando a medalha de ouro no peito dele. Seus dedos roçaram o tecido da farda, e por um segundo, o olhar de Marcus suavizou, mas ela logo se afastou com uma prancheta na mão. — Lady Beatrice e Lady Genevieve acabaram de chegar. Sorria. Ou pelo menos tente não parecer que está calculando a melhor rota de fuga.

​O chá começou sob um sol de primavera enganosamente calmo. Quatro das damas mais cobiçadas do reino estavam sentadas ao redor da mesa de mármore no jardim.

​— General Sinclair — começou Lady Beatrice, com uma voz tão baixa que Marcus teve que se inclinar para frente, quase derrubando o bule. — Soube que o senhor aprecia a solidão dos campos. Eu também adoro o silêncio. Poderíamos passar horas... apenas olhando para as árvores.

​Marcus olhou para Claire, que estava sentada ao lado da Rainha Elowen, observando a cena de longe. Claire levou a xícara aos lábios, escondendo um sorriso maldoso, e murmurou baixo o suficiente para apenas ele captar:

— Cuidado, General, se ela ficar mais silenciosa, você vai esquecer que ela está na sala e acabar trancando-a no armário por acidente.

​Marcus pigarreou, voltando-se para Beatrice.

— As árvores são úteis para emboscadas, Lady Beatrice. Mas temo que horas olhando para elas sem um propósito militar me deixariam... inquieto.

​Lady Genevieve, a intelectual, interveio imediatamente, ajeitando seus óculos de leitura.

— Ora, General, o senhor é um homem de estratégia! Li seu relatório sobre a Batalha das Colinas de Ferro. Achei a divisão da cavalaria um tanto... arriscada. O senhor não acha que uma formação em cunha teria reduzido as baixas em 12%?

​Marcus travou. Seus olhos faiscaram. Ninguém questionava sua estratégia de campo, muito menos em um chá da tarde. Ele abriu a boca para rebater, mas Claire interveio com a agilidade de um felino.

​— Lady Genevieve, que observação fascinante! — Claire exclamou, aproximando-se da mesa. — Mas temo que o General prefira discutir estatísticas com quem já segurou uma espada, e não apenas uma caneta de pena. General, por que não mostra para a Lady Isabelle a vista do mirante? Ela mencionou que adora homens... protetores.

​Isabelle, uma jovem de cachos loiros e olhos imensos, praticamente se jogou nos braços de Marcus ao levantar.

— Oh, General! Eu me sinto tão segura ao seu lado. O senhor é tão... grande. Tão forte. Sinto que nada de ruim poderia me acontecer se eu estivesse sob sua guarda.

​Marcus olhou para a mão de Isabelle em seu braço como se fosse uma aranha peçonhenta. Ele olhou para Claire pedindo socorro, mas ela estava ocupada demais "ajudando" a Rainha a escolher um doce, embora seus olhos estivessem fixos nele, brilhando com um deboche vitorioso.

​— Sou um soldado, senhorita, não um guarda-costas particular — Marcus respondeu, sua voz voltando ao tom de trovão. — E se algo ruim acontecesse, eu esperaria que minha esposa soubesse pelo menos onde fica a saída de emergência em vez de desmaiar no meu pé.

​O clima na mesa esfriou instantaneamente. Lady Isabelle recuou, ofendida.

​— Chega! — Claire disse, levantando-se e caminhando até o centro do grupo. Seu tom era de diversão, mas havia uma nota de possessividade que ela mesma não percebeu. — Meninas, creio que o General está com uma dor de cabeça tática. Por que não dão um passeio pelo pomar enquanto eu converso com ele sobre... etiqueta básica?

​As damas saíram, cochichando indignadas sobre a "grosseria" do herói. Assim que ficaram sozinhos sob o gazebo, Marcus explodiu.

​— Que tipo de tortura é essa, Claire?! Aquela mulher queria que eu a carregasse no colo porque tinha medo de uma borboleta! E a outra queria reescrever meus manuais de guerra!

​— Eu estou apenas seguindo as ordens do Rei! — Claire rebateu, aproximando-se dele com os olhos em chamas. — Estou tentando encontrar alguém que te suporte! Mas você afasta todas elas com esse seu jeito de urso ferido! Qual é o problema com a Lady Beatrice? Ela é perfeita!

​— Ela é um tédio! — Marcus gritou, dando um passo em direção a ela. — Eu não quero alguém que concorde com tudo o que eu digo ou que tenha medo da própria sombra!

​— E o que você quer, Sinclair?! — Claire gritou de volta, ficando na ponta dos pés para encará-lo, o rosto a centímetros do dele. — Quer uma mulher que te xingue no café da manhã? Que jogue coxas de frango em você? Que te arraste para a chuva só para provar que você está errado?!

​O silêncio caiu sobre o jardim, pesado e elétrico. O peito de Marcus subia e descia com força. Ele segurou os braços de Claire, não com violência, mas com uma urgência que a fez perder o fôlego.

​— Talvez — ele murmurou, a voz agora perigosamente baixa e rouca. — Talvez eu queira exatamente isso. Porque nenhuma daquelas damas ali fora me faz sentir metade da raiva... ou da vida... que você me faz sentir, Claire Mackenzie.

​Claire abriu a boca para soltar mais um deboche, mas as palavras morreram em sua garganta. Pela primeira vez, a "Lady de Língua Afiada" não tinha o que dizer. As faíscas que vinham voando desde o primeiro banquete finalmente haviam incendiado o jardim.

​De longe, na varanda da mansão, o Rei Dhorwack observava a cena e sorria, levantando sua taça de chá para a Rainha Elowen.

— Eu te disse, minha querida. O General não precisava de uma esposa. Ele precisava de uma adversária à altura.