Entre o Aço e a Sombra

23 Epílogo: O Caos de Ouro e a Doce Reclamação



​Cinco anos após o casamento que parou o Reino de Lâfrer, o jardim da mansão Valle de Prata não era mais o cenário de silêncios melancólicos ou de gramados impecáveis. Agora, era um campo de batalha de risadas, brinquedos espalhados e uma vida que transbordava pelos canteiros de lavanda.

​O Rei Dhorwack e a Rainha Elowen estavam sentados sob o pavilhão de ferro forjado, observando com deleite o pequeno Príncipe Leo, de quatro anos, tentando acompanhar o ritmo de Arthur e Beatrice. Os filhos de Marcus, agora adolescentes em formação, tratavam o herdeiro do trono com uma mistura de proteção e a típica paciência de irmãos mais velhos, correndo entre as árvores frutíferas.

​Perto da mesa de chá, Claire estava acomodada em uma poltrona de vime, com as pernas apoiadas em um puff de veludo. No tapete a seus pés, a pequena Diana — uma miniatura perfeita de Claire, com cabelos ruivos rebeldes e olhos atentos — engatinhava com uma velocidade impressionante, tentando alcançar a bota de couro de Marcus.

​Claire soltou um suspiro dramático, levando a mão ao ventre já visivelmente arredondado.

​— Olhe para isso, Elowen — Claire começou, com o tom de deboche que o tempo não ousou apagar. — Eu passei anos criticando a falta de logística do General em campo, e agora vejam a minha situação. Uma filha que ainda nem aprendeu a andar direito e já estou aqui, carregando o próximo "recruta" de Sinclair. Honestamente, Marcus, a sua eficiência estratégica é de uma inconveniência absoluta.

​Marcus, que estava de pé ao lado dela, observando os filhos com um orgulho que suavizava todas as suas rugas de batalha, soltou uma risada profunda. Ele se inclinou, pegando a pequena Diana no colo antes que ela conseguisse morder o cordão de sua bota, e depositou um beijo na testa da esposa.

​— Reclame o quanto quiser, Mackenzie — Marcus provocou, os olhos escuros brilhando de diversão. — Mas eu me lembro perfeitamente de você dizendo que Valle de Prata precisava de "vida e movimento". Eu apenas estou seguindo as ordens da minha superiora.

​— "Vida e movimento", Sinclair, não um batalhão de infantaria completo em menos de dois anos! — Claire rebateu, embora o sorriso em seus lábios a traísse. — A Rainha aqui presente é testemunha: eu era uma dama de companhia elegante. Agora, eu sou uma gestora de crises fraldárias e mediadora de disputas por espadas de madeira. Veja o meu estado!

​Elowen riu, trocando um olhar cúmplice com Dhorwack.

​— Você nunca esteve tão radiante, Claire. E admita, você adora ter alguém para mandar o dia inteiro sem que ele possa fugir para a guerra.

​— Oh, ele tenta fugir — Claire brincou, olhando para Marcus enquanto ele colocava Diana sentada em seu colo. — Mas ele sabe que, se me deixar sozinha com essas pequenas feras, eu decoro o quarto dele inteiramente de rosa choque antes dele chegar ao portão principal.

​Marcus sentou-se na borda da poltrona dela, envolvendo os ombros de Claire com um braço pesado e protetor. O silêncio caiu sobre o grupo, mas desta vez era um silêncio preenchido pelo som das crianças correndo ao longe e pelo calor do sol da tarde.

​— Valeu a pena, não valeu? — Marcus sussurrou no ouvido dela, longe dos ouvidos dos Reis.

​Claire olhou para o marido, para os filhos dele que agora eram seus, para a bebê em seu colo e para o futuro que crescia em seu ventre. O deboche desapareceu por um breve segundo, dando lugar a uma ternura absoluta.

​— Cada discussão, Sinclair — ela murmurou, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas não se acostume. Assim que este bebê nascer, eu vou exigir um relatório completo sobre por que as cortinas do berçário ainda não foram trocadas.

​Marcus sorriu, sabendo que aquela era a sua maior vitória. A guerra tinha acabado, e a paz de Claire Mackenzie era a única pela qual ele aceitaria ser derrotado todos os dias, para o resto de sua vida.

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