Entre nós dois
3 Wake Me Up
Notas iniciais
Pov. Ally
Os pensamentos sensatos já se esvaíram de minha mente há alguns instantes e a razão, que sempre pude contar nas piores hipóteses, deixara-me na mão. Olhos da cor castanha que pediam em um convite mudo para inundar-me neles fazem-me perder qualquer resquício de lucidez quando direcionados para minha direção.
Interesso-me apenas em nossas mãos entrelaçadas e a leve onda de tranquilidade transpassada para mim. Não devo em hipótese alguma estar dessa maneira em relação ao meu melhor amigo, Austin, porém evitar se tornou a ideia mais absurda existente. Compreendo vagamente que mesmo já tendo nos relacionado, cobrando-me de esquecer o passado, focar em nós individualmente e com as carreiras sólidas, enviei o fato para qualquer espaço longe e escuro do âmago para ser esquecido. Apenas estou sendo guiada pela batida de um coração: O meu.
Única recordação é que hoje vamos comemorar minha primeira aparição em uma revista reconhecida e o menino loiro está levando-me para um lugar mal mencionado, logo não lembro qual. Mas, sinceramente, não me importo para onde, desde que ele esteja junto. Suponho que essas reflexões terão como resultado o breu no peito e o vazio tomando conta de meu âmago assim que despertasse da ilusão, e também que falhei ao lutar contra. Então, aclamo para o mundo que me acorde quando tudo isto tiver acabado e eu for mais sábia e velha, pois desse jeito não sofreria tanto por uma paixão fadada à ruína, e sim saberia conviver com todas as minhas sensações e realidade.
A sabedoria mínima que ganhei no decorrer do tempo empurra-me para a frase “O amor é um prêmio”, rapidamente sendo recebida com o pensamento de eu ser uma portadora de tal ganho e me juntar ao grupo de pessoas que escondem o prêmio num armário distante da vida a fim de não correr riscos de perdê-lo totalmente.
Num certo ponto, quando reconheço movimentos leves e carinhosos em minha palma, vendo o polegar do loiro desenhando círculos imaginários na mesma, compreendi as famosas borboletas no estômago. Eu estou sentindo o meu caminho em meio à escuridão, sendo descoberto através da felicidade no âmago. Não sei onde essa jornada vai acabar, mas sei onde começar. A trajetória aparecerá parcialmente quando fechar os olhos e recordar das vezes em que me foi permitido sentir a textura dos lábios do meu companheiro de parceria, pois foi no primeiro beijo que o percurso tomou força total, já o fim é desconhecido. Só possuo incertezas para qualquer pergunta pairada na mente, talvez algumas me impulsionem para agarrar aqueles fios loiros de Austin e trazê-lo próximo a mim, procurando iniciar um ósculo.
Puno-me mentalmente ao esquecer todos os minutos que lutei fazer jus à minha separação com Austin, visto que os motivos para a mesma é manter as carreiras intactas, buscar por mim mesma, e ficar divagando com tais pensamentos é praticamente matar o esforço, contudo, em seguida, percebo não saber mais quem sou. A Ally de tempos atrás não estaria com tamanhos problemas, e sim se mantendo escondida entre os clubes que participava e trabalhando na loja de instrumentos.
“Ally?” Saí do transe com os leves chacoalhares no ombro. Pisco repetidamente por instantes, tentando ficar menos atordoada e observar a face do garoto, que apresenta certa preocupação “Você está bem? Eu estava conversando com você e não me respondia.”
“Ah, sim. Estou bem” Endireito minha postura, que está curvada, para dessa maneira não ter de esticar tanto o pescoço para olhar diretamente a ele “O que queria me falar?”
“Bom...” Olha para baixo e aperta os dedos em claro sinal de nervoso “Daqui a duas ruas nós vamos chegar ao shopping e assim à Sonic Boom. A comemoração vai ser lá, não sei se comentei direito isso para você. Acho que estava nervoso. Não, eu não estava, porque ainda estou..."
"Austin" Interrompi-o, enquanto o mesmo coça a nuca após dar um longo suspiro "Fique calmo e fale.”
"Então, antes de você ser atacada por todos seus outros amigos eu gostaria de te parabenizar, pois sei o quão marcante aparecer em uma matéria valorizada é, dizer também que você é uma pessoa muito importante para mim, não consigo nem entender como é possível alguém ser tão importante na minha como você. Sobretudo, falar que eu realmente gosto muito, muito mesmo de você.”
O menino dá um passo em minha direção e deposita um beijo em minha bochecha. Fico perplexa por longos segundos, enquanto sou fitada pelos orbes castanhos que agora ganharam um brilho especial com o bônus de um sorriso bobo nos lábios de seu dono. Diante daquelas palavras e gesto tão carinhoso não devo dizer nada, senão qualquer esforço nosso para afastar-nos terá sido em vão. A vontade de agarrar-lhe em um beijo intenso e demorado parece-me demasiada tentadora, novamente.
“Oh, Austin” Falo melancólica e num movimento rápido capturo-o em um abraço apertado, o meu único direito.
O gesto é saudoso, afinal, não temos tais contatos constantemente após o rompimento, entretanto sempre que acontece é uma necessidade para nós dois. Como foi que tudo aconteceu? Como vim parar aqui? Questiono-me, navegando num mar de dúvidas. A vontade de chorar cresce igualmente às incertezas, porém não me entrego a ela por motivos da sensação ser demasiada boa para mudá-la.
Em um ímpeto, a explicação para tudo nasce em meus pensamentos. Eu não sabia que estava perdida, mas o menino é e sempre será a direção que devo tomar.
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