Entre mundos

1 Capítulo 1


Cai uma chuva torrencial lá fora. Ele já tinha saído do prédio, dando uma certa distância da multidão apreensiva de se eles conseguiriam chegar em casa esta noite ou não. A chuva estava impiedosa, as gotas eram tão pesadas que quase chegavam a machucá-lo — ele apenas ficou parado ali, suas roupas ensopadas e o estacionamento cheio de luzes incandescentes, barulhos e preocupações. Essa cena decadente o acolhia de certa forma, então decidiu ir até seu carro. Era como se tivesse debaixo d'água, abaixo da superfície da realidade e submerso em desesperança, tanto que os gritos chamando o nome dele estavam abafados pela chuva.

Enquanto contemplava a insignificância da própria existência, uma voz no meio da multidão prendeu sua atenção. Ele se esforçou muito para não olhar pra trás, mas instintivamente reagiu àquele chamado e respondeu. Ao mesmo tempo que ficou feliz ao ouvi-lo, ele se xingou por tê-lo feito.

Ela correu na sua direção enquanto tentava se proteger da chuva, tão implacável quanto poderia estar. É como e ele tivesse agora despertado da realidade quando ele notou a sua presença, e partiu na frente para o carro. Ele abriu a porta, ela riu discretamente, sussurrou um "obrigada" e tirou a jaqueta. Ele riu quando ouviu a voz dela, embora no mesmo instante seu sorriso se tornou frio e seus olhos, mortos. Ele contornou o carro caminhando devagar — como se nada tivesse acontecendo, nenhum alerta de enchentes estivesse soando ou não soubesse de árvores caídas nas ruas. Ele sentou e a fitou enquanto ela arrumava a blusa e ligava o aquecedor — não precisava ser um gênio para notar que ela estava tremendo de frio.

Sem perceber ele estendeu o braço para tocá-la, mas se proibiu de fazer isso. Ele não tem certeza se ela percebeu esse movimento, então preferiu deixar pra lá. Ele ligou o carro, mas não dava pra ouvir o barulho do motor ligado. Ele ligou o rádio e inesperadamente uma playlist aleatória começou a tocar enquanto ele estava manobrando o carro para sair daquele lugar.

Ela se encolheu quando notou qual música estava tocando, pegou o celular dele, desbloqueou e escolheu uma música — ou melhor músicas, com sempre.

Ele riu pelo nariz, como nos velhos tempos. Eles entravam no carro, ele dirigia enquanto ela tomava o comando das músicas e do ar condicionado. Ele tentou o melhor que pode não deixar nenhuma lágrima escapar de seus olhos e soltou um "Eu te deixo em casa, relaxa."

"Não tem pra que, não se segui para---"

"Ei," ele a interrompeu, "relaxa. Já faz tempo, pra ser sincero. Meio que sinto falta disso, sabe? Deixa eu te deixar em casa hoje, pelos velhos tempos. Assim, tá chovendo MUITO, seria tão desconfortável pra ti aceitar uma carona descompromissada?"

"Hm" ela respondeu, encarando logo em seguida a janela. "Tudo bem, se você insiste. Não me importo de pegar ônibus se ficar desconfortável."

"Nem se estressa, se for o caso finja que eu não existo. Nem precisa falar comigo, só deita aí e tira um cochilo, que eu te acordo quando a gente chegar na sua casa, não tem BO."

"Você ainda é o mesmo de antes" ela murmura enquanto sorri timidamente, se mexe pra ficar numa posição confortável e em poucos minutos começa a dormir.

Ele riu. "Parece que você não mudou nada" e dirige em direção à casa dela.

Ele perdeu a noção do tempo e ela acordou depois de algum. Ela estava de costas pra ele, mas ele notou que ela tinha acordado — não falou nada ao ter percebido e continuou dirigindo cantando o que tivesse tocando.

Ela só mexeu a cabeça para olhar pra frente e fitou o para-brisas embaçado silenciosa. Ele automaticamente parou de cantar e mesmo que ele estivesse mexendo seus lábios, não mais saía som de sua boca.

Ele suspirou "Me desculpe pelo que fiz. Quero dizer... me sinto culpado pelo que aconteceu e nunca tentei conversar explicitamente sobre isso, então.. Me perdoa. Eu não deveria ter deixado aquilo acontecer, pra início de conversa. Mas não vou te importunar com meus pensamentos, só queria te dizer isso."

Ela o encarou por um tempo "Relaxa u pouco, isso não parece você falando. Você tá muito tenso, inclusive me deixando desconfortável" e deixou surgir um riso tímido no seu rosto. "Digo o mesmo. Meio que eu sempre fui contra isso desde o começo, mas você me convenceu que estava tudo bem e... nunca quis te machucar."

"É, eu sei. Mais um motivo de eu ter pedido desculpas. Estraguei tudo, e não tem sido o mesmo entre a gente desde então. Eu não deveria ter dito muitas coisas, eu não deveria ter feito muitas coisas."

E aí tudo ficou em absoluto silêncio. Os pensamentos dele eram tão barulhentos que ele não conseguia ouvir o barulho da chuva torrencial caindo no carro e se chocando no para brisas, não conseguia reconhecer que música estava tocando, o grito dela, a buzina do carro que vinha na contramão--

Calma, carro?