Entre mundos
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Perdido em seus pensamentos devido aos últimos acontecimentos, ele chegou em casa. Na verdade, chegar em casa é uma expressão muito forte. Ele chegou no lugar onde ele tem a chave e pode dormir em segurança. Porque ele nunca sentiu que aquele lugar era sua casa, ele nunca soube qual a sensação de um lugar despertar o sentimento de lar.
O apartamento dele tinha uma disposição muito comum para que algo seja válido de ser destacado.
A cozinha ficava logo na entrada do apartamento, num mini hall à esquerda; ela era pequena, fina e comprida; o próximo cômodo após o mini hall era a sala em L com 2 ambientes pequenos, a mesa de jantar e os sofás com a TV; logo ao lado a varanda, lugar que ele passava mais tempo olhando os apartamentos vizinhos ou mais baixos de outros prédios, fumando enquanto contemplava a vida passar diante dos seus olhos, seja pela fumaça e cinzas seja pela procrastinação que o levava a tal espaço; um pequeno corredor com 2 quartos e um banheiro; um dos quartos era o de visitas com uma cama de solteiro, um pequeno guarda roupa e uma escrivaninha; o banheiro social na frente do quarto de visitas; e, no fundo do corredor, o quarto principal que era uma suíte, com cama de casal. A única TV da casa ficava na sala, porque não fazia sentido para ele colocar uma TV em algum outro ambiente.
Assim que passou pela porta, ele a deixou destrancada por pura preguiça, jogou de qualquer jeito a chave do carro na mesa e sem nenhuma cerimônia se atirou no sofá. A cabeça dele estava doendo muito mais do que o normal, mas não havia medicina no mundo que conseguisse amenizar aquela dor.
“Realmente, essa será uma noite muito longa” ele pensou. Depois de se jogar no sofá por uns 10 minutos – ao menos foi o que pareceu a ele, mas nem ele foi conferir que se passou pouco tempo nem se importava caso tivesse se passado horas – ele conseguiu reunir a energia restante no corpo dele para trancar a porta e preparar algo para comer. Ele não estava com fome, na verdade ele nem sequer queria comer algo. Mas ele sabia que precisava comer.
Amaldiçoando suas necessidades fisiológicas primitivas, ele foi até a cozinha e abriu a geladeira. “Eu preciso abrir mão disso o quanto antes, não tô conseguindo tomar nenhuma decisão pra minha vida, por mais simples que seja. É quase como se eu estivesse existindo apenas para suprir as expectativas de todo mundo, mas sem nenhum estímulo de seguir o caminho por mim mesmo.” A geladeira começa a fazer aquele barulho insuportável avisando que a porta não está fechada, o que só piora a dor de cabeça dele. “Nossa, pior momento imaginável de estar afundando rumo ao fundo do poço e já bem perto dele. Olha só pro meu estado: não consigo nem escolher algo pra comer, nada me parece minimamente apetitoso. Talvez eu devesse só pedir algum delivery, ou talvez só deixar minha pressão desabar, eu desmaiar em algum lugar da casa e então não precisaria me preocupar com nada por um tempo”. Ele fita um pote com uma comida de aparência super questionável como quem contempla uma obra de arte, enquanto a geladeira continua apitando furiosamente para ele.
Ele suspirou pesadamente. “Bem, outra noite, outro trauma.” Ele pegou o pão da geladeira, cortou uns pedaços tortos de queijo e separou umas fatias de presunto; preparou um sanduíche com maionese no lugar da manteiga e colocou na sanduicheira para esquentar o jantar enquanto ele guardava tudo o que tinha tirado da geladeira e separando o que já parecia ter passado do prazo de validade. “Nada como mais uma refeição completamente sem gosto pra terminar o dia.” Ao colocar o sanduíche meio aquecido (ele não teve paciência de esperar nem 5 minutos) no prato, pegar um copo de água e se dirigir para a sala, ele teve a sensação que um redemoinho invadiu sua mente, criando uma cena caótica com seus pensamentos que ele já estava demasiadamente acostumado para reclamar.
Lembranças de um passado distante, quase esquecido, de quando ele era verdadeiramente feliz. Dele conversando com alguns bons próximos amigos, indo a show, planejando viagens e – quem sabe, com sorte? — estudando no exterior. Conhecendo novas pessoas, imergindo em outras culturas, descobrindo novos lugares--
E desespero. Incerto quanto ao seu futuro, questionamentos sobre as habilidades dele no trabalho, desesperança de tantos relacionamentos amorosos fracassados, revisitando momentos que ele foi culpado por tudo ruim que aconteceu na vida dele e nas suas relações, ter sido traído, falas aleatórias de suas EXs xingando-o, humilhando-o e degradando-o inclusive publicamente, todos os mal entendidos que elas convenientemente não tiveram o mínimo de decência e consideração em defendê-lo para os amigos delas.
Ele desistiu do sofá e foi em direção ao seu quarto, o copo de água na metade e um pedaço maior do que ele era capaz de mastigar na boca. Deixou o prato e a água numa cômoda ao lado da cama, deitou e ficou de olhos fechados. “Puta merda, de novo isso não.”
Todas as desinformações, mentiras e distorções sobre ele começaram a vir à tona, assim como todos os xingamentos que ouviu durante o período da escola e nos seus relacionamentos.
Lixo.
Idiota.
Assediador.
Bully.
Imbecil.
Gordo.
Inútil.
Abusador.
Porco.
Covarde.
Fraco.
Maconheiro.
Zé droguinha.
Marginal.
Putinha.
Fraco.
Pau pequeno.
Ele se levantou depois de algum tempo, atordoado, e correu para o guarda roupa a fim de pegar seus medicamentos. “Só calem a porra da boca, eu só quero dormir! Ora merda!” E quanto mais enfurecido ele ficava, igualmente mais violentos seus pensamentos se tornavam – até chegar ao ponto dele morder sua língua até sangrar (afinal, por que não tentar silenciar as vozes através da dor, não é mesmo?)
Com sua língua sangrando, xingando de forma engraçada e com a mente tão caótica quando ela é capaz de ficar,
ele tomou seus remédios pra insônia com o resto de água que tinha na cômoda – que também afetavam de maneira supereficaz as vozes que ele ouvia na cabeça dele – e encarou o sanduíche pela metade. Ele não tinha condições de comer mais nada, tantos os remédios quanto os pensamentos intrusivos o deixavam extremamente enjoado, a ponto de só o cheiro de comida fazê-lo passar mal.
A única coisa que ele se lembrava antes de ser acordado com o barulho da campainha é dele ter procurado o celular. Olhando à sua volta, tudo parecia no lugar que deveria estar, só não achava o celular.
Alguém bate na porta e não parece estar de bom humor. Ele desliga a TV (não estava desligada?) e procura algo que possa dá-lo alguma referência de tempo, mas não encontra. Olha pra si mesmo e está vestido, apenas sem camisa. Estava sozinho em casa, já morava sozinho há um tempo e fazia questão disso – talvez pelos motivos errados e ele mesmo reconhecia isso, mas ou não fazia nenhum esforço pra mudar ou simplesmente se percebia inapto de mudar.
Ele vai até a porta e, quando abre, se depara com uma mulher meio baixa (considerando a referência dele, a que estava na frente dele era mais baixa que ela), roupas um tanto curtas e meio rasgadas em certas regiões, maquiagem pesada, cheiro de álcool misturado com cigarro e aparentando ter 20 e poucos anos. Aparentava estar mal humorada, embora nada que ela verbalizasse fizesse algum sentido. Ela então o empurrou com uma força surpreendente pro seu tamanho e seu físico, forçando-o a dar uns passos pra trás. Confuso, assustado e agora começando a ficar irritado, ele a encara procurando alguma informação ou tentando reconhecê-la.
E conseguiu reconhecê-la, só que ter notado quem estava ali só o deixou mais irritado.
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