Entre mundos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Foi por puro reflexo: ele quase não conseguiu desviar do carro que vinha rápido na contramão.
“Mas que porra..?” Ele estava suando, ansioso. “Você viu aquilo? Ô, SEU ARROMBADO--”
“Para” ela replicou. Ela ainda estava trêmula pelo outro carro e quando começou a ficar furiosa com ele, decidiu respirar fundo de olhos fechados “ok, presta mais atenção da próxima vez. Porque assim, você estava distante. Muito mais do que o normal, e estava real me assustando.”
“Foi mal, eu--” mas ele não conseguiu terminar a frase. O seu autocontrole estava se esvaindo muito rapidamente, ele não conseguiria chega a tempo na casa dela para que ele pudesse ventilar as frustrações dele sozinho no carro, em seu caminho de volta pra casa. Ele suspirou pesado e a única coisa que ele conseguiu dizer foi “Me desculpe. Eu prestarei mais atenção na estrada, isso não vai acontecer novamente.”
“Não é como se eu quisesse que aquilo tivesse acontecido, pra começar. Até porque tipo… tá bom, eu tenho estado estranho por todo o tempo. O que porra tem de errado comigo? Por que eu estou tendo uma reação tão desproporcional? Eu acho que… tem coisas demasiadas com as quais eu tenho que lidar, onde que porra eu me meti?” A mente dele simplesmente não conseguia acompanhar a velocidade e os pensamentos dele começaram a ficar cada vez mais rápidos e ferozes, a ponto dele não conseguir disfarçar a sua expressão cansada de dor. Seu olhos ficaram mais caídos, a luz neles escureceu.
Ela percebeu que ele estava travando o maxilar e notou a mudança nas linhas faciais dele. “O que houve? Sério, você não quer falar sobre isso? Ou o problema é que você não quer falar sobre isso comigo?”
“Ótimo, agora eu tô tendo minha sessão improvisada de terapia com o objeto desejado e meu gatilho de ansiedade ao mesmo tempo. Simplesmente FANTÁSTICO.” “Não se preocupe, é que.. mesmo que eu quisesse comentar, eu não conseguiria verbalizar – eu nem consigo sequer entender o que eu estou pensando ou sentindo agora. Vamos dizer que… me sinto perdido. É como se meu mundo tivesse ficado de cabeça pra baixo e eu não soubesse como dar o próximo passo pra seguir em frente. Eu sinto como se eu estivesse constantemente caindo e a gravidade estivesse me esmagando contra o chão ao mesmo tempo. A sensação que eu tenho é que eu tento respirar dentro de uma piscina cheia de enxofre, ou tentando falar no momento que eu esqueço todas as palavras, sílabas, fonemas… Eu estou realmente perdido, a ponto de não conseguir me reconhecer ao longo da minha rotina. Eu sei o que eu tenho que fazer – embora algumas vezes nem isso – mas eu simplesmente esqueço como fazer as coisas. Tipo, relaxa; estou perfeitamente capaz de dirigir, se eu não tivesse eu não teria te oferecido carona. Na verdade, é uma das raríssimas coisas que faço no piloto automático. E esses pensamentos… não são novos, eles estão muito bem estabelecidos na minha mente por um bom tempo já. Só que… eu nunca falei sobre eles até agora. E pra ser sincero eu me arrependo um pouco de ter jogado tudo isso em você sem nenhum tipo de aviso prévio.”
“Eu me preocupo com você, sabe? Meio que… eu não sei o que dizer agora, mas eu estava apreensiva sobre o que estaria te consumindo nesse nível. E mesmo que eu não possa fazer absolutamente nada sobre isso, fico feliz em você ter me contado sobre e ter verbalizado tudo. É um tanto… reconfortante entender um pouco mais como você tem estado.”
“Relaxa, você não precisa dizer nada, sério. Só… esquece.” Ele inspirou profundamente e riu de desconforto. “Mesmo que você diga que não pode fazer absolutamente nada, você sempre foi a única capaz de amenizar a situação com pouquíssimas atitudes. E só precisaria de algumas palavras suas, mesmo que fossem mentira, pra tudo se resolver…” Ao pensar isso ele franziu o cenho e ficou com uma expressão confusa, uma mistura de dor, desconforto, tristeza e arrependimento. “Meu Deus, por favor só me mata agora. Tem tanta coisa que eu queria dizer, mas tem tanta coisa no caminho que me impede… e é melhor eu ir me acostumando com isso, eu escolhi ficar nessa situação.” Ele tentou disfarçar a tensão que estava sentindo, mas foi em vão. “Eu… me desculpe por hoje. Eu realmente queria poder te recompensar de alguma forma, o que você me diz de eu te pegar um dia pra gente almoçar? Não importa quando, só dizer.”
“Você não tem que fazer isso, mas tenho certeza que você já sabe disso.”
“Bem… sim. Vamos dizer que eu estou fazendo isso pra poder soltar essa angústia que estou sentindo agora e para provavelmente poder te proporcionar um momento leve e divertido. Vamos lá, só um almoço. Eu pago.”
Eles já conseguiam ver a residência dela se aproximando, e num instante ele estacionou bem na frente de onde ela mora. Eles só perceberam agora que estiou, mas a chuva já parou tem um tempo.
“Então… ok, eu acho. Mas olha, eu preciso ir. Falo contigo depois, pode ser?”
“Tudo bem, sem problemas. Manda mensagem quando for tranquilo pra você. Eu te a--- adoro, espero que você consiga descansar quando subir e que você tenha bons sonhos, haha. Qualquer coisa vejo você amanhã” Ele quase se engasgou. Aparentemente ela não notou o que ele quase disse. “CARA, TU EXISTE MESMO? SEU PALERMA. O que tu tá querendo, que um meteoro venha te cobrir à noite? Um carinho de uma bala entrando na sua cabeça? Nossa, essa situação que tu criou tá mais feia do que cagar em pé. Seu imbecil, tenha o mínimo de respeito próprio já que amor próprio tá difícil, pelo amor de Deus!”
Ela saiu do carro, já com as chaves em mãos, e abriu o primeiro portão. Ela partiu sem olhar pra trás, nem uma vez sequer. Ele apenas continuou acompanhando os movimentos dela com os olhos, esperando pacientemente ela passar pelos portões e só então pegou a estrada de volta pra casa, mesmo que ele sinta que acabou de deixar sua casa.
“Hoje será uma noite absurdamente longa”, ele choramingou.
O telefone dele tocou logo após esse pensamento ter invadido a mente dele. Uma notificação de mensagem.
Era ela, apenas três palavras que colocaram um sorriso no rosto dele que o acompanharia até chegar em casa e que o permitiria encarar seus próprios demônios por toda a noite. Três palavras fortes o suficiente para mudar completamente o humor dele, para fazê-lo querer dar meia-volta ou dirigir pra bem longe e apenas curtir o momento – mas não tinha nem perigo dele faltar amanhã. Três palavras que causaram um turbilhão na mente dele, seus pensamentos erráticos em completo caos ordenado, por mais estranho que isso soe.
Ele não conseguiu se conter e começou a gargalhar. “Deus, tu deve estar de sacanagem comigo e se divertindo muito com essa situação. Mas dessa vez eu vou deixar passar, seu safado.” Uma lágrima solitária correu silenciosamente do seu olho esquerdo e se escondeu no canto da boca dele, deixando um gosto salgado familiar nos seus lábios. “Se você soubesse… se você quisesse todo esse poder que você naturalmente tem sobre mim… eu estaria muito fudido.”
Tudo isso por causa de três palavras.
“Dirija com cuidado”
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