Entre meninos
1 único
Zoro percebeu enquanto comia na mesa da cozinha e observava as costas do cozinheiro, que entrava cada vez mais naquela parte do navio e que seus olhos não cansavam de observar Sanji.
Era certo que brigavam por motivos fúteis, mas por trás daqueles xingamentos e da mente pervertida, havia uma alma boa.
Como nas vezes durante a noite e ficava acompanhado somente por eles, os meninos. A maneira que ele sorria com uma história de Usopp ou com o jeito primitivo de Luffy, era encantador.
Embora só contassem com a luz da lanterna que Usopp segurava, Zoro observava seus trajetos como fazia na cozinha. A luz escassa acabava revelando outro Sanji, um menos bobão por estar entre garotos.
Mas também descobriu um Sanji solitário. Seja aquele que se afastava de todos para fumar ou aquele com o olhar perdido no horizonte enquanto ficava prostrado no parapeito do navio.
Zoro o achava sério e se perguntava se o cozinheiro tinha algo para dizer. De qualquer modo, ele não forçava e só se aproximava com um papo trivial como "Ainda bem que não encaramos uma tempestade hoje" e Sanji respondia depois de piscar os olhos, surpreendido com a chegada repentina do marimo "O dia ainda não acabou, o tempo na Grandline é imprevisível". Mas apesar da deixa, não falava de Nami e de como ela era uma ótima navegadora que os livraria de qualquer tempestade ou simplesmente de como era bonita.
Sanji ficava distante nessas horas.
Continuou a observá-lo e percebeu mais um Sanji, dessa vez um suave com um olhar tenro e que não encarava uma mulher. Ele só parecia gentil e preocupado. Zoro gostava de como sua voz soava suave quando conversava com Chopper e se perguntava se um dia ele falaria dessa maneira com ele.
Numa noite, Zoro o ajudava nos afazeres da cozinha. Havia tido uma festa no deck e todos dormiam de tanto beber. Como Zoro continuava sóbrio, Sanji pediu para que o ajudasse. Diferente dos outros, Sanji não bebeu muito e o espadachim achou isso esquisito.
Eles lavavam a louça, sendo o cozinheiro quem enxaguava e o espadachim quem enxugava.
— Sabe, marimo... há um motivo de não ter bebido até cair.
Zoro arqueou uma sobrancelha enquanto enxugava um prato. — Qual?
Sanji parou de lavar as louças e buscou um outro pano de prato para enxugar as mãos, ele atravessou a cozinha tateando os bolsos e entendendo que seu maço não estava por perto. Zoro notou que seu rosto estava vermelho.
— Bem... como posso dizer isso... — Começou e deu um pigarro. — Você tem vindo muito pra cá, né?
— Pra cá onde?
— Na cozinha, imbecil!!
Zoro já estava pronto para se agarrar no terno do cozinheiro tarado, mas Sanji esticou o braço e pediu por um tempo. — Você tá preocupado comigo?
Fazer tal pergunta exigiu muito de Sanji, mas ainda assim encarava os olhos castanhos do colega, embora pensasse o tempo todo correr pra longe dali.
Zoro notou como estava vermelho de vergonha e quando já ia respondê-lo, Sanji resolveu falar novamente.
— Não precisa, sério. Eu só penso demais, entende? E a gente tá na Grandline, não se sabe o que nos aguarda...
"Realmente, há algo que o importuna" — Pensou Zoro.
— Preocupado, sobrancelhas? Acha que me importo com você? Tá bêbado por acaso?
— Então, por que me observa tanto? — Esbravejou, Sanji. — Não acho normal uma pessoa ficar me vendo cozinhando se pode fazer outra coisa.
— Te vendo?! — Dessa vez era o rosto de Zoro que ficou vermelho. — Tá doido? Você tá achando que é o que?
Sanji suspirou, não estava nada convencido. — Não precisa ficar preocupado comigo.
Ele voltou a andar para pia, mas Zoro pegou no seu pulso quando passou ao lado dele.
— Não estou preocupado, só estava querendo te entender.
— Oi?
— Pra mim quem fica preocupado aqui, é você.
— Ham? Sim, eu me preocupo muito com a Nami-san e Robin-ch-
— Não, você se preocupa comigo também.
Sanji virou pedra com tal informação.
— Eu estava mesmo te observando, mas não preocupado. — Soltou o pulso de Sanji. — Se um dia quiser conversar...
Sanji continuou estático, raciocinando toda aquela informação que Zoro jogara nele. Ele respirou fundo, cerrando os pulsos a seguir. — Marimo, você é um idiota! É claro que você tava preocupado comigo, até vinha me importunar quando eu queria ficar sozinho!! Anta marinha!!
Zoro soltou um resmungo e quando iria rebatê-lo, Sanji se agarrou em seus ombros e o beijou naquele lugar que passava horas observando o cozinheiro.
Eram macios os seus lábios e pensou, caso respondesse, se Sanji passaria a ter aquele tom suave na sua voz e também teria o olhar tenro ao se dirigir a ele.
Na sua memória surgiu o Sanji do sorriso gentil dizendo "Não é nada" prostrado no parapeito do navio, os cabelos esvoaçando e revelando o outro olho. Tal memória lhe pareceu tão real que pensou que havia voltado no tempo. E sem querer, havia correspondido o toque úmido na sua boca.
Estava apaixonado e só soube naquele instante.
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