Entre goles e balaços
1 Porta aberta
Porta Aberta
Talvez por aquela ser uma profissão que seu pai jamais aceitaria, foi aquela profissão que Draco decidiu seguir. Sua atuação como apanhador fora péssima, como os anuais de Hogwarts poderiam comprovar, por isso resolveu destilar sua raiva em bastões e balaços.
Tornou-se batedor.
O corpo frágil, magricela, branco em excesso e esguio foi ganhando outras formas ao mudar sua posição no principal esporte bruxo.
Após sair do banho, enrolou a toalha na cintura, ignorando a conversa dos outros jogadores. Um som abrupto de porta fez com que todos olhassem para um único ponto.
Ela estava parada de forma altiva, com uma prancheta em frente ao corpo. Alguns homens correram para pegar suas toalhas, enquanto outros apenas sorriam de forma maliciosa.
Hermione Granger estava parada, seu olhar impassível. Aquele era o último lugar que queria estar, porém não podia negar um pedido do ministro. A copa mundial de quadribol estava se aproximando e foi escalada para cuidar dos jogadores.
- Tirem esses sorrisos ridículos do rosto. Estou aqui a trabalho e deverei ser tratada como profissional. A Inglaterra não ganha a copa há muitos anos e o Ministério acredita que ter uma medibruxa especializada em curas rápidas poderá ajudá-los. Qualquer piadinha machista resultará em advertência. Se chegar em três advertências, vão para o banco de reserva.
- Como se dará esse tratamento? – um deles perguntou.
- Será instalada uma pequena enfermaria e prestarei os cuidados necessários em caso de ferimento. Quando estiverem prontos, revisarei a ficha médica de cada um. Espero por vocês no escritório de Angelina Johnson.
Draco ficou observando a porta fechada, por onde ela rapidamente tinha entrado e saído. Continuou sem dar atenção às conversas dos outros jogadores e sorriu de lado. Demorou exageradamente para terminar de se vestir por dois motivos.
Enquanto isso, Hermione complementava a ficha de avaliação dos outros jogadores. A equipe contava com três jogadoras mulheres (duas artilheiras e uma apanhadora): Gina Potter, Cátia Bell e Alice Green. Os outros jogadores eram Rogerio Davies (que também foi artilheiro pela Corvinal), Miles Bletchley (como goleiro) e os batedores eram Thomas “Tim” Relish e Draco Malfoy. Foi atendendo um a um, completando a ficha com informações que considerava importante e não estavam na ficha médica anterior.
Pegou a ficha de Draco Malfoy. Ultimamente só sabia dele pelas notícias que seus amigos compartilhavam sobre quadribol ou pelas páginas de fofoca e comentários sobre a secreta vida amorosa do ex apoiador de Voldemort e novo batedor da Inglaterra.
Idiota.
- Granger – ele disse, entrando.
- Sente-se – o batedor fez o que ela pediu – Confira os dados nessa ficha, Malfoy.
Ele leu rapidamente e assentiu em silêncio, devolvendo o pergaminho.
- Hábitos alimentares?
- Acredito que notou que estou em forma assim que entrou no vestiário – Hermione olhou-o nos olhos.
- O que eu disse sobre gracinhas?
- Você é medibruxa e seu olhar é um olhar clínico, não?
A mulher estreitou os olhos, buscando algum vestígio de piada. De ironia. Claro que encontrou tudo lá, na postura dele, nas palavras, no olhar. O sorriso levemente enviesado, o corpo inclinado para frente.
- Sim. É um olhar clínico, Malfoy. Responda à minha pergunta: hábitos alimentares — ele respondeu, enquanto a pena de repetição rápida ia registrando a resposta no pergaminho. Hermione acompanhava as palavras, perdendo o olhar do jogador repousado sobre si.
- Você consome bebidas alcoólicas?
- É um convite?
- É uma simples pergunta médica – não passara nem cinco minutos e Malfoy já estava conseguindo fazer com que sua paciência fosse embora.
- Não tenho dia fixo para consumo – deu de ombros – Depende dos treinos, dias de jogos e... – Interrompeu-se. Hermione, que estava olhando para seu pergaminho, encarou-o – da companhia.
- Claro, Malfoy. Se houver complicações em ferimentos durante o jogo, autoriza a transferência para o hospital mais próximo?
- Você continua como medibruxa responsável? O que foi? – emendou ao ver a expressão à sua frente – É uma pergunta válida. Estritamente de cunho médico. Não quero ser tratado por alguém que não seja capacitado.
- Afinal, é Draco Malfoy.
- Exatamente – consultou o relógio. Pegou o pergaminho que foi entregue novamente e assinou.
- Tenha um ótimo final de semana. Até o próximo treino – Hermione começou juntar suas coisas e deixar em um canto do escritório de Angelina. Seria assim até ter seu próprio espaço – Pode ir – o homem continuou sentado – O que foi?
- Quer sair para jantar?
- Jantar?
- Sim, jantar. Manter hábitos alimentares saudáveis.
- Médico e paciente. Vamos manter assim.
Saiu pela porta, puxando sua capa. Rapidamente ele foi atrás, a passos largos.
- Granger, acho que já passamos disso, não?
Draco parou, sorrindo e sem temer pela varinha agora em seu peito.
- Quer levar a primeira advertência?
- Não, medibruxa Granger.
- Tenha um ótimo final de semana – dizendo isso, ela deu mais alguns passos antes de sumir no ar.
Draco olhou o relógio, aliviado. Depois, ele mesmo aparatou, chegando em sua casa. Pegou uma maçã, tirou os sapatos e sentou-se no sofá. Deu a primeira mordida e esticou seu braço para o lado, pegando um pequeno porta-retrato: ele e Hermione abraçados, sorrindo para foto.
Amigos.
Após a guerra, onde tudo e todos precisavam ser reconstruídos, Draco e Hermione tornaram-se um o porto-seguro do outro. Sentiam algo além da amizade? Sem dúvida. Conversavam sobre isso aos sussurros de si mesmos, no entanto, era a hora?
Concordaram que não.
Narcisa estava tentando reconstruir a vida fora da Inglaterra e Draco sair dos holofotes sobre ser filho de Comensais e espião de guerra. Com essa mudança aproximou-se do lado Black de sua família, consequentemente de Tonks.
Foi como batedor que conseguiu aliviar um pouco da raiva que sentia. Partiu para os Estados Unidos.
Já Hermione, que pensava em seguir a vida no ministério, começou estudar para ser medibruxa. Sua agilidade em feitiços, em ter a cabeça fria para pensar no que fazer quando a situação estava tensa, a levaram a cursar essa profissão.
Draco voltou ao presente, onde terminou de comer sua fruta e sorriu diante do destino de ter Hermione perto novamente.
Hermione não sorria como ele, andava nervosamente de um lado para o outro. Desde a última vez em que conversaram pessoalmente, nada em seus sentimentos havia mudado.
Talvez tenha sido um erro o que combinaram anos atrás: a gente começa quando tudo estiver em ordem.
Mas a ordem não chegara e quando os dois sentaram-se para jantar, as palavras sumiram e o incômodo pesou mais que a saudade. Agora, no entanto, Draco estava de volta à sua vida.
Uma batida na porta fez com que desligasse o fogão, limpasse as mãos no avental e fosse até lá.
— Você chegou cedo.
Hermione Granger disse isso com a mão ainda apoiada na maçaneta, o avental preso sobre a roupa e uma mecha de cabelo escapando do coque improvisado que tentara fazer enquanto a água fervia no fogão.
Gina Weasley ergueu uma sobrancelha, segurando uma garrafa de vinho em uma mão e uma sacola de papel na outra.
— Considerando que você me chamou dizendo “venha agora ou eu cometo uma decisão ruim”, achei melhor não testar sua paciência. Aqui estou eu.
Hermione piscou, como se apenas naquele momento se lembrasse de ter mandado aquela mensagem pelo espelho comunicador. Afastou-se para dar passagem à amiga, tentando ignorar o calor que lhe subia pelo pescoço.
— Já que está aqui, melhor abrir esse vinho e me servir uma taça. Uma taça de verdade e não aquelas de degustação. De qualquer forma, acho que eu estava sendo dramática ao te chamar.
— Você? — Gina entrou, deixando a sacola sobre a bancada. — Hermione Granger? Dramática? Jamais. Você é praticamente uma estátua da racionalidade. Uma estátua que manda mensagens desesperadas quando reencontra um antigo amor no vestiário da seleção.
— Ele não é um antigo amor, Gina.
A ruiva parou no meio da cozinha. Hermione fechou a porta devagar demais.
— Não comece.
— Eu ainda nem comecei — Gina disse, abrindo a garrafa e servindo o vinho. Andava pelo pequeno cômodo como se fosse sua própria casa — Você está certa. Malfoy não é um amor antigo. Ele é atual já que ainda gosta dele — entregou a taça para Hermione — Agora eu comecei — e piscou para a amiga.
Hermione respirou fundo e voltou ao fogão. A sopa borbulhava com uma calma ofensiva, como se o universo não tivesse acabado de empurrar Draco Malfoy de volta para dentro da sua vida usando uma vassoura profissional, uma ficha médica e uma toalha perigosamente mal posicionada.
— É trabalho — ela disse, mexendo a panela com força desnecessária fazendo com o que o caldo respingasse perigosamente — Fui designada pelo Ministério. Angelina pediu uma medibruxa rápida, confiável e com experiência em ferimentos de campo. Eu aceitei porque é importante. A copa mundial se aproxima, a Inglaterra tem chance real de competir bem, e o departamento de saúde esportiva precisa de alguém capaz de atuar sob pressão. — parou de mexer a sopa, andando pela cozinha.
Gina encostou-se à bancada e cruzou os braços.
— Tudo isso é verdade. E nenhuma dessas coisas explica porque você estava andando em círculos pela cozinha como uma coruja presa em uma lareira.
— Ele me chamou para jantar.
Gina abriu um sorriso lento, quase predatório.
— Ah.
— Não faça esse som — bebeu um gole do vinho. Um grande gole que fez o líquido descer levemente torto.
— Que som? — Gina perguntou, com uma inocência fingida.
— Esse “ah” de quem descobriu uma fofoca valiosa e pretende guardá-la para chantagem futura.
— Eu jamais faria isso! — Hermione apenas olhou para ela — Está bem. Eu faria. Mas só em ocasiões especiais.
Hermione pegou duas tigelas no armário e as colocou sobre a mesa. Tentava ocupar as mãos. Era sempre mais fácil organizar objetos do que organizar sentimentos. Objetos obedeciam. Sentimentos tinham uma irritante tendência a sentar de pernas cruzadas no meio da sala e esperar que ela os encarasse.
— Eu disse que deveríamos manter a relação médica e paciente.
— Claro — Gina respondeu. — Porque todo paciente pergunta à medibruxa se ela continuará responsável pelo atendimento dele antes de autorizar a transferência hospitalar.
Hermione estreitou os olhos.
— Como você sabe disso?
Gina desviou o olhar com uma naturalidade péssima.
— Harry estava perto da sala de Angelina.
— Harry estava escutando? — Hermione voltou a beber seu vinho, sentindo um misto de irritação e afeto pelo cuidado do seu amigo.
— Harry estava “garantindo a segurança do corredor”. Palavras dele. — Gina estendeu ambas as mãos em rendição — Juro! Ele sabe que você é perfeitamente capaz de se cuidar, mas não deixa de ser quem é.
— Gina.
— Hermione.
As duas se encararam por alguns segundos. Então Gina sorriu, e Hermione, apesar de tanta confusão sentimental dentro de si nas últimas horas, soltou uma risada curta. Aquilo quebrou a tensão por um instante.
— Eu não sei o que fazer com ele — Hermione admitiu, mais baixo. Gina aproximou-se e tocou de leve o braço da amiga.
— Talvez você não precise fazer nada agora.
Hermione engoliu em seco.
— Esse foi o problema da última vez. Não fizemos nada. Esperamos. Conversamos sobre esperar. Transformamos covardia em prudência, medo em maturidade, e chamamos aquilo de amizade porque parecia mais seguro. — Hermione voltou a beber um gole do vinho.
— Vocês eram jovens..
— Éramos adultos o bastante para saber que estávamos mentindo.
Gina não respondeu de imediato. Conhecia Hermione o suficiente para saber quando o silêncio era mais útil do que um conselho.
Hermione sentou-se à mesa, puxando a tigela para perto sem realmente comer.
— Depois da guerra, nós nos aproximamos de um jeito estranho. Não foi planejado, mas simplesmente aconteceu. Ele aparecia na biblioteca do Ministério porque dizia que precisava pesquisar arquivos da família Black. Eu dizia que ele estava bagunçando a organização da biblioteca. Ele dizia que até no Ministério meu jeito era autoritário.
Gina sorriu.
— Parece insuportável.
— Era — Hermione respondeu, mas havia ternura na voz. — Ele era. Eu também, provavelmente. E, por algum motivo, isso funcionava.
Lembrou-se de tardes inteiras em que os dois ficavam sentados em mesas opostas, fingindo ler pergaminhos. Draco fazia comentários secos sobre funcionários do Ministério. Hermione fingia não rir. Às vezes, ela corrigia algo que ele dizia sobre leis de reparação pós-guerra, e ele a chamava de “a mais irritante das consciências morais”. Ela respondia que era um alívio ele ter uma. Ele lia sobre tudo, como se ainda estivesse escolhendo qual carreira seguir. Hermione foi, aos poucos, lendo cada vez mais sobre magia e poções de cura.
Então vieram os cafés, os jantares, as caminhadas pela Londres bruxa quando ambos não queriam ir para casa. Depois, a noite em que ele quase a beijou dentro seu apartamento e, em vez disso, tocou sua bochecha com o polegar e disse:
“Você merece alguém que não esteja tentando descobrir se ainda tem conserto.”
Hermione fechou os olhos. O gosto daquela frase ainda a irritava. Não pela beleza, mas pela covardia.
— Ele decidiu por mim — disse, voltando ao presente. Gina suspirou.
— Homens têm uma mania horrível de confundir autopiedade com nobreza — a ruiva afirmou, dando uma colherada na sopa fumegante. Hermione fez o mesmo.
— Principalmente loiros arrogantes?
— Principalmente.
—
Enquanto isso, em um bairro elegante e silencioso demais para combinar com qualquer coisa viva, Draco Malfoy encarava uma lareira apagada como se ela fosse culpada por todas as escolhas ruins que ele já fizera.
Blaise Zabini estava sentado na poltrona ao lado, impecável como sempre, segurando um copo de uísque de fogo e usando uma expressão de quem havia sido convidado para um espetáculo divertido.
— Então — Blaise disse —, você a reencontrou — falou de forma exageradamente pomposa.
Draco trocara a opção saudável de antes pelo uísque que o amigo trouxera.
— Blaise, não seja teatral.
— Eu? Nunca. Apenas vim verificar se você ainda estava vivo depois de encontrar Hermione Granger em um vestiário cheio de jogadores sem camisa.
Draco lançou a ele um olhar mortal.
— Ela entrou sem bater — disse depois de beber um gole que auxiliou no controle de suas palavras.
— Uma falha administrativa fascinante — Blaise argumentou sem disfarçar a ironia e provocação em cada palavra.
— Eu estava decentemente coberto.
Blaise olhou para o amigo e levantou uma sobrancelha, duvidando daquela breve afirmação.
— Claro que eu não acredito nisso.
Draco afundou no sofá, soltando o ar pelo nariz. O porta-retrato ainda estava sobre a mesa. Ele o havia virado para baixo quando Blaise chegou, gesto que o amigo obviamente percebeu e, por alguma misericórdia incomum, ainda não comentara.
Ainda.
— Você a chamou para jantar? — Blaise perguntou.
Draco fechou os olhos.
— Quem contou?
— Ninguém. Você tem a sutileza emocional de um balaço. Além de te conhecer desde que nascemos, Draco.
— Eu fiz uma pergunta educada para ela. Apenas isso, Blaise — bebeu outro gole, enquanto seu amigo ria de forma exagerada. Draco apenas o encarou, em silêncio.
— Você tentou transformar uma consulta médica em flerte. Como isso poderia dar certo com a Granger?
— Técnica avançada.
— Técnica desesperada — Blaise o corrigiu, sorrindo. Draco bebeu outro gole de uísque e levantou-se.
— Eu não estou desesperado — sabia que suas palavras soaram desesperadamente defensivas.
Blaise apenas ergueu as sobrancelhas e calou-se. Draco odiava aquele silêncio. Era um silêncio caro, bem vestido, cheio de julgamento.
— Está bem — disse, irritado. — Talvez eu esteja levemente desconfortável.
— Ah, sim. Levemente. Como um trasgo dentro de uma loja de cristais.
Draco caminhou até a janela. Do lado de fora, a noite cobria Londres com um brilho cinzento. Por um instante, ele se viu mais jovem, parado diante de uma porta, em outro apartamento, com Hermione a poucos centímetros dele.
A boca dela estava perto. Perto demais para qualquer pessoa razoável pensar com clareza.
Ele se lembrava da respiração dela falhando quando ele tocou seu rosto. Lembrava-se da própria mão tremendo. Lembrava-se do medo, sobretudo do medo. Não de Hermione. Nunca dela. Mas do que aconteceria se ele a tocasse e ela se arrependesse. Do que aconteceria se o mundo olhasse para ela e dissesse que Hermione Granger merecia alguém melhor.
Então ele fizera a pior escolha possível: dera à sua covardia o nome de cuidado.
— Eu a machuquei — disse, sem olhar para Blaise.
O amigo não respondeu com piada. Isso, em Blaise, era quase uma oração.
— Sim — disse por fim. — Mas talvez esteja em tempo de consertar isso. É o que esperava quando convidou-a para jantar?
Draco apertou a mandíbula ainda encarando o lado de fora. Bebeu outro gole, maior dessa vez.
— Ela disse médico e paciente — as palavras ainda o incomodavam.
— Hermione Granger usa regras quando está sem saber como agir.
— E você virou especialista nela agora? — voltou-se para o amigo.
— Não. Em você. E você sempre foi péssimo em perceber quando alguém estava lhe dando uma última chance disfarçada de ameaça profissional.
Draco virou-se, pronto para responder, mas uma pequena chama verde surgiu na lareira. Angelina Johnson apareceu, a expressão séria.
— Malfoy, Zabini.
Blaise ergueu o copo.
— Angelina.
— Draco, avisei todos os jogadores. Amanhã teremos treino fechado às oito. A comissão internacional antecipou o primeiro amistoso oficial da campanha. Inglaterra contra França, daqui a três dias.
Draco endireitou a postura.
— Três dias? — foi até a mesa central e depositou ali seu copo inacabado. Levava seus treinos a sério e se teria jogo em três dias não era o momento de beber.
— Problemas no calendário da Bulgária. Krum exigiu alteração no cronograma — Angelina disse rapidamente. Pegou um pequeno bloco nas vestes — Treino intensivo até lá. A França ganhou o último jogo contra a Austrália e nós empatamos com a Itália. Precisamos ganhar esse jogo.
Ao ouvir o nome, Draco sentiu algo desagradável apertar seu estômago. Mal ouviu as últimas orientações de sua técnica.
— Krum — repetiu em voz baixa.
Angelina não pareceu notar, ou preferiu fingir que não notara.
— A equipe médica viaja conosco. Granger inclusive. Quero todos descansados e sem confusão, Malfoy.
— Eu sou a própria imagem da disciplina — Draco disse, cruzando os braços.
Angelina olhou para Blaise, que tomou o último gole do seu uísque. Pegou o copo de Draco. — Ele mente com alguma elegância, pelo menos.
Angelina lançou um olhar de alerta para o atleta, depois desapareceu nas chamas.
Draco ficou parado por alguns segundos. Blaise sorriu.
— França em três dias. Hermione viajando com vocês. Krum no horizonte. Parece que o universo decidiu acelerar o espetáculo.
— O universo deveria procurar outro passatempo — Draco disse, sentindo vontade de beber um grande gole de uísque.
— Talvez. Mas, enquanto isso, tente não ser um idiota.
Draco pegou o porta-retrato da mesa. Dessa vez, não o escondeu.
Na imagem, uma Hermione mais jovem ria enquanto tentava empurrá-lo para longe da câmera. Draco, também mais jovem, a abraçava por trás, sorrindo de um jeito que ele já não reconhecia completamente. Havia ali uma leveza que os dois haviam perdido em algum lugar entre prudência, medo e frases não ditas.
— Eu fui amigo dela porque achei que era o único jeito de não perdê-la — Draco murmurou.
Blaise se levantou e colocou uma mão em seu ombro.
— E funcionou?
Draco olhou para a fotografia por tempo demais.
— Não.
—
Na manhã seguinte, Hermione chegou ao centro de treinamento antes de todos. Pelo menos, era o que esperava.
Encontrou Draco Malfoy no campo, sozinho, arremessando balaços encantados contra alvos móveis. O céu ainda estava pálido. A névoa baixa fazia o gramado parecer coberto por um lençol fino. Ele se movia com precisão, os músculos dos braços tensionando a cada golpe, o cabelo claro úmido de suor e frio.
Hermione parou perto da entrada, segurando sua maleta médica. Por um instante, permitiu-se olhar sem se censurar.
Draco em Hogwarts era feito de ângulos afiados e orgulho mal colocado. O Draco adulto ainda tinha ângulos, ainda tinha orgulho, mas havia algo diferente na forma como ocupava o espaço. Menos necessidade de provar a si mesmo. Mais peso no olhar. O corpo, antes magro demais, agora trazia marcas de esforço e escolha. Ele não parecia apenas bonito. Parecia construído a partir de sobrevivências.
Então ele virou a cabeça e a viu.
O sorriso veio devagar.
— Granger.
— Malfoy.
— Veio me observar treinar?
— Vim verificar se algum jogador imprudente resolveu se machucar antes das oito.
— Que sorte a minha ser prudente.
Um balaço passou por ele com violência. Draco girou o bastão e o acertou sem olhar, mandando-o contra um alvo distante. O impacto ecoou pelo campo.
Hermione tentou não demonstrar surpresa, mas falhou. Obviamente Draco percebeu.
— Olhar clínico?
— Avaliação técnica, Malfoy.
— E? — ele apoiou o bastão no chão.
— Você bate forte e com precisão.
O sorriso dele mudou. Ficou menos brincalhão, mais perigoso. Hermione percebeu tarde demais como a frase soara.
— No balaço — acrescentou, rápido, mas sem deixar de corar.
— Claro, Granger — o sorriso de lado, sem esconder a ironia.
— Não comece, Malfoy — ela mexeu-se nervosamente no lugar.
— Eu não disse nada.
Hermione cruzou os braços, tentando recuperar o controle da situação. Era difícil quando ele estava com o uniforme de treino, segurando um bastão e sorrindo como se soubesse exatamente o efeito que provocava.
— Angelina avisou sobre a França — Hermione disse.
— Avisou.
— Quero revisar os protocolos de atendimento antes da viagem. Sem heroísmo idiota. Se você se ferir, pousa. Se sangrar, chama. Se quebrar alguma coisa, não tente terminar a partida fingindo que ossos são detalhes decorativos — ela falou, o tom voltando a ser profissional. Draco lembrou das palavras do amigo.
— Você acha que eu faria isso?
— Acho.
— Fico lisonjeado com sua confiança.
— Não é confiança. É histórico.
Ele se aproximou alguns passos. A névoa se moveu ao redor dele. Hermione se obrigou a ficar parada lembrando que estava ali como medibruxa e que tinha um trabalho a desempenhar.
— Você ainda se lembra do meu histórico, Granger?
— Sou medibruxa. Lembro de informações relevantes.
— Só relevantes? — a pergunta veio em um tom mais baixo.
A pergunta ficou entre eles, baixa demais para ser apenas provocação. Hermione apertou os dedos na alça da maleta.
— Treino às oito, Malfoy.
Ele sustentou o olhar dela por mais um segundo. Depois assentiu, recuando com uma obediência que pareceu quase gentil.
— Sim, medibruxa Granger.
Hermione virou-se de costas antes que ele percebesse seu sorriso, mas Draco percebeu.
E, pela primeira vez em anos, a possibilidade de não ter perdido tudo pareceu menos absurda que de costume.
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