Reparações

Viktor Krum não sorria com facilidade. Hermione se lembrava disso.

Ele era um homem de poucas palavras, e a idade não o tornara mais expansivo. Apenas mais sólido. Como técnico da seleção búlgara, Krum parecia ainda maior do que havia sido como jogador: ombros largos, barba curta, olhar pesado e uma presença que fazia atletas jovens endireitarem a postura sem perceber.

Quando Hermione o encontrou no corredor do estádio de Dublin, ele segurava uma pasta de escalações e franzia a testa para um assistente.

— Hermione — disse ele, e o rosto duro se abriu em algo raro. Um sorriso pequeno, mas sincero. O sotaque bem mais discreto agora e o nome dela pronunciado corretamente.

— Viktor.

Ele se aproximou e a abraçou. Foi um abraço breve. Afetuoso. Respeitoso.

Foi também o suficiente para Draco Malfoy, que vinha pelo corredor na direção contrária com Blaise Zabini, parar como se tivesse visto uma infração gravíssima. Aliás, na opinião do loiro aquele abraço era uma infração gravíssima.

Blaise, sempre atento ao sofrimento alheio quando esse sofrimento prometia entretenimento, seguiu o olhar dele.

— Ah.

— Não diga “ah” — Draco falou, irritado.

— Eu disse apenas uma vogal.

— Uma vogal irritante.

— É minha especialidade, meu amigo.

Do outro lado, Krum soltou Hermione e manteve as mãos nos ombros dela por um instante.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Estou. E você?

— Mais velho — ele sorriu.

— Todos estamos, Viktor.

— Você não parece — ele disse, a mão repousando teimosamente no ombro dela. Hermione riu, levemente constrangida.

Draco sentiu uma contração desagradável no maxilar.

— Ele ainda fala como se as palavras fossem cobradas por unidade — murmurou.

Blaise sorriu.

— E mesmo assim conseguiu elogiar melhor do que você em três dias.

— Isso não é verdade — Draco defendeu-se, constrangido.

— Você disse ontem que ela tinha “mãos surpreendentemente competentes para alguém tão mandona”.

— Foi um elogio — a resposta de Blaise foi apenas um levantar de sobrancelha.

Hermione percebeu Draco parado no corredor. O olhar dela encontrou o dele. E, por algum motivo, talvez porque estivesse cansada de fugir, talvez porque uma parte dela ainda estivesse irritada com anos de espera, ela não se afastou imediatamente.

Draco ergueu uma sobrancelha. Hermione ergueu a dela de volta. Krum acompanhou o olhar e virou-se, afastando-se brevemente da medibruxa.

— Malfoy — disse, a voz ficando mais fria.

— Krum — Draco respondeu, com elegância venenosa.

Os dois se cumprimentaram como homens adultos e civilizados, o que significava que pareciam a três segundos de transformar o corredor em um campo de batalha.

— Agora é um batedor.— Krum observou.

— E você é técnico — Draco devolveu.

— Sabe que a posição em que joga exige maturidade.

— Deve ser por isso que você parou de jogar — o tom frio e provocador.

Hermione fechou os olhos.

— Draco.

O uso do primeiro nome deveria acalmá-lo. Não acalmou. Na verdade, piorou. Porque Krum percebeu. E Krum, apesar de quieto, nunca fora burro.

— Vocês se conhecem bem — disse.

— Hogwarts não é tão grande quanto parece — Hermione respondeu rápido demais. Draco sorriu, notando o nervosismo dela.

— Ah sim. Minúscula — a ironia em cada sílaba. Blaise tossiu para esconder uma risada.

Krum olhou para Hermione. Havia algo saudoso em sua expressão, uma ternura antiga, mas sem exigência.

— Depois do jogo, podemos tomar um café. Para conversar e colocar os assuntos em dia — Krum falou, dirigindo-se para Hermione.

— Claro — Hermione concordou.

Draco olhou para ela.

— Claro?

Hermione voltou-se para ele.

— Algum problema médico, Malfoy?

— Vários, aparentemente — ele respondeu, a raiva voltando dentro de si.

— Então procure a enfermaria.

— Talvez eu procure mesmo, medibruxa Granger.

— Boa sorte no jogo, Viktor — disse.

— Para você também, Hermione.

— Ela não joga — Draco comentou. Krum olhou para ele.

— Ainda assim, mantém vocês de pé. Importante.

Aquilo calou Draco por um segundo. Apenas um.

— Somos muito gratos.

— Você parece mesmo, Malfoy. — o loiro deu um passo na direção do búlgaro. Krum apenas lançou um pequeno sorriso, sem se mover.

Hermione se colocou entre os dois com a autoridade de quem já interrompera discussões ministeriais, brigas de auror e uma vez um duelo entre dois curandeiros sobre a forma correta de enfaixar tornozelos.

— Chega. Os dois. O jogo será em duas horas. Guardem a energia para o campo.

Krum assentiu primeiro. Draco inclinou a cabeça, mas seu olhar continuava preso no técnico búlgaro. Quando Krum se afastou, Hermione virou-se para Draco.

— O que foi isso, Malfoy?

— Diplomacia esportiva — ele respondeu, dando de ombros. Tentava se acalmar, mas não conseguia — Você vai tomar café com ele?

— Talvez.

Blaise apenas observava mais afastado, com um sorriso divertido no rosto.

— Talvez?

— Draco, eu conheço Viktor há anos.

— Eu também conheço Potter há anos e nem por isso tomo café com ele — respondeu, desdenhoso, sem disfarçar seu incômodo.

— Porque vocês transformariam a cafeteria em ruínas.

— Depende da qualidade do café — ele deu de ombros novamente e Hermione apertou a prancheta contra o peito.

— Você está com ciúme — a medibruxa afirmou. Draco abriu a boca. Fechou em seguida e ouviu Blaise rindo. Virou-se.

— Você ainda está aqui?

— Eu não perderia isso por nada, meu amigo.

Hermione encarou Draco, esperando.

Ele passou a língua pelo lábio inferior, gesto rápido, nervoso, quase imperceptível.

— Estou incomodado — disse por fim.

— E por que está incomodado?

— Porque ele olha para você como se lembrasse de algo — Draco respondeu depois de alguns instantes. Hermione sentiu o rosto aquecer.

— Talvez lembre mesmo.

A expressão de Draco mudou. Por baixo da ironia, algo doeu. Hermione se arrependeu um pouco, mas não totalmente. Ele precisava entender que o mundo não ficara congelado esperando que ele tivesse coragem.

— Eu tenho uma vida, Draco — ela falou, olhando-o com firmeza.

— Eu sei.

— Algumas pessoas gostaram de mim e realmente escolheram estar ao meu lado — aquilo doeu mais que a queda do último jogo — E você não tem direito de agir como se tivesse chegado atrasado e ainda pudesse reclamar que a porta ficou aberta.

Aquilo acertou onde deveria. De novo. Draco baixou os olhos por um segundo.

— Tem razão.

Hermione não esperava que ele cedesse tão rápido e isso a desarmou.

— Eu tenho?

— Infelizmente. Um hábito seu, Hermione.

— Draco...

— Mas eu tenho direito de não gostar. São meus sentimentos, afinal.

A honestidade dele veio sem enfeite. Sem máscara. Sem piada.

Hermione segurou a respiração.

— Tem — admitiu.

O silêncio que se seguiu foi interrompido por Angelina gritando do vestiário:

— Malfoy! Se estiver flertando em vez de alongar, vou colocar Smith como titular no seu lugar!

— Isso seria uma violação dos direitos humanos! — Draco respondeu, sem deixar de encarar Hermione, que riu antes de conseguir evitar.

Ele olhou para ela, e a tensão diminuiu apenas o suficiente para que ambos respirassem.

Ele seguiu para o vestiário, cabisbaixo. Hermione seguiu-o com o olhar e depois virou-se para Blaise.

— Zabini, o que está olhando?

— Duas pessoas que se gostam escolherem seguir caminhos separados. Criem juízo!

—

O jogo contra a Bulgária foi brutal.

Não sujo. Krum não permitiria isso. Mas duro. Calculado. A Bulgária voava com uma disciplina feroz, fechando espaços, forçando choques, empurrando a Inglaterra para jogadas arriscadas. Gina sofreu marcação dupla desde o início. Tim levou uma pancada no quadril, mas continuou. Miles defendeu três goles quase impossíveis e depois gritou tanto com Roger que Hermione ouviu da enfermaria.

Draco jogava como se tivesse uma conversa inacabada com cada balaço.

E talvez tivesse.

Aos quarenta minutos, a Bulgária liderava por trinta pontos. A apanhadora inglesa mergulhava atrás de um brilho duvidoso perto das arquibancadas quando um balaço búlgaro veio em sua direção. Draco rebateu no último segundo. O impacto percorreu o braço dele, mas a defesa foi perfeita. O balaço desviou, atingiu a vassoura de um artilheiro búlgaro e o fez girar no ar, em queda grave.

A torcida rugiu. Hermione soltou o ar. Harry, ao lado dela, observou:

— Ele está jogando bem.

— Está.

— Você parece orgulhosa.

— Estou avaliando a eficácia defensiva.

— Claro, como se você entendesse sobre quadribol, Hermione — Harry falou, sorrindo e ajeitou os óculos.

Hermione bufou, enquanto o amigo sorria.

No final, a Inglaterra venceu por dez pontos. Foi uma vitória apertada, arrancada no cansaço, com Gina marcando o último gol depois de uma jogada que fez Hermione esquecer por um instante como respirar.

A apanhadora inglesa pegou o pomo logo depois.

O estádio virou caos.

Hermione trabalhou por quase uma hora. Curou cortes, tratou ombros, verificou costelas, aplicou poções. Draco apareceu por último, como sempre. Tinha um corte no supercílio e um hematoma escuro na lateral do tronco.

— Você estava escondendo isso — ela acusou, entre preocupada e irritada.

— Eu estava usando estratégia.

— Estratégia de quê? Hemorragia discreta? Morte lenta?

— Funcionou até agora — Draco respondeu, tentando ocultar a dor.

Hermione apontou para a maca.

— Sente-se logo, Malfoy.

— Você gosta de me dar ordens.

— E você gosta de precisar delas pelo visto.

Ele sentou, mas sorriu de um jeito que a fez se arrepender da frase novamente.

Ela limpou o corte no rosto dele. O toque era leve, mas sua irritação não.

— Você não pode esconder ferimentos de mim.

— Você estava ocupada com os outros jogadores.

— Não decida por mim — A frase saiu mais pesada do que o contexto pedia. Draco percebeu.

— Hermione...

— Não. Não faça isso. Não escolha o que eu posso aguentar. Não escolha quanto devo saber. Não escolha o que é melhor para mim porque você tem medo de ser um problema.

Ele ficou quieto.

A enfermaria, antes movimentada, estava vazia. Do lado de fora, a equipe comemorava. Vozes, risadas, passos. Ali dentro, só havia a respiração dos dois.

Draco segurou o punho dela antes que ela afastasse a mão. O toque era firme e delicado. O loiro podia sentir a pulsação dela: acelerada.

— Eu estou tentando parar.

Hermione olhou para a mão dele em sua pele. Depois para o rosto levemente corado pelo esforço físico.

— De quê?

— De fugir antes que você perceba que deveria me mandar embora.

A raiva dela se desfez. de um jeito inconveniente.

— Eu teria mandado se quisesse, se tivesse tido a oportunidade de uma escolha.

Draco levantou-se devagar. Estavam perto demais. Hermione deveria recuar. Não recuou.

— E quer me mandar embora agora? — o tom era baixo, o hálito dele sobre seu rosto. Tão dolorosamente perto.

Ela sentiu a garganta apertar.

— Não sei.

— Você sabe sim, Hermione. — a respiração de ambos parecia sincronizada — Desculpe.

— Pelo quê? Por isso ou por anos atrás?

— Por tudo, se você não me expulsar antes.

Hermione soltou uma risada fraca.

— Você é insuportável.

Draco levantou a mão, devagar o bastante para que ela pudesse impedir. Tocou uma mecha solta do cabelo dela, prendendo-a atrás da orelha. Hermione fechou os olhos por um segundo, odiando o quanto aquele gesto simples a atingia.

— Você vai tomar café com ele? — Draco perguntou. Ela abriu os olhos.

— Viktor?

— Não diga o nome dele tão perto da minha boca.

Hermione piscou.

— Sua boca?

Só então percebeu que estavam a centímetros.

Draco também pareceu perceber. O olhar dele desceu para os lábios dela e voltou. A ironia tentou aparecer, mas não teve força.

— Hermione.

Foi quase um pedido.

Dessa vez, ele não parou.

O beijo começou com cuidado demais para combinar com Draco Malfoy. Talvez porque ele soubesse exatamente o peso daquele atraso. Os lábios tocaram os dela primeiro como pergunta, depois como alívio. Hermione segurou a frente do uniforme dele, não para afastá-lo, mas para garantir que ele não teria a audácia de recuar de novo.

Draco soltou uma respiração contra sua boca, e ela sentiu o corpo inteiro responder com uma mistura de raiva antiga e saudade viva. O beijo ganhou firmeza. Não foi calmo. Foi contido por escolha, não por falta de vontade. Havia anos ali. Anos de quase, de talvez, de amizade usada como abrigo.

Quando se afastaram, Hermione ainda segurava o uniforme dele.

Draco encostou a testa na dela.

— Eu devia ter feito isso antes.

— Devia.

— Muito antes.

— Sim.

— Você vai me perdoar?

Hermione abriu os olhos.

— Não estrague o beijo pedindo avaliação imediata.

Ele riu baixo. O som tocou a pele dela.

— Certo.

A porta da enfermaria se abriu de repente.

Gina entrou com uma bolsa de gelo no ombro.

— Hermione, você tem alguma coisa para... Ah.

Hermione se afastou como se tivesse sido atingida por um feitiço. Draco, por outro lado, apenas ajeitou a postura e tentou parecer inocente, uma habilidade que ele não possuía.

Gina olhou para Hermione. Depois para Draco. Depois para a mão de Hermione ainda segurando o uniforme dele.

— Interessante método de atendimento.

— Gina — Hermione começou.

— Não, não. Eu apoio a medicina moderna.

Draco sorriu.

— Weasley, uma palavra e eu nego tudo.

Gina abriu um sorriso brilhante.

— Malfoy, eu vi sua cara. Você não conseguiria negar nem com veritaserum.

Hermione cobriu o rosto com as mãos.

Do corredor, Harry chamou:

— Está tudo bem aí?

Gina olhou para os dois e respondeu, radiante:

— Melhor impossível!

Draco olhou para Hermione.

Hermione, ainda vermelha, tentou parecer severa.

— Você está de repouso pelo hematoma.

— E você vai supervisionar?

— Não abuse.

— Tarde demais.

Ela deveria tê-lo repreendido, mas ao invés disso, sorriu.