Entre goles e balaços
2 Quase agora
Quase Agora
O estádio de Marselha parecia ter sido construído para expandir vozes.
Quando Hermione entrou pela lateral reservada à equipe médica, o som da torcida atravessou seu peito como uma onda. Bandeiras inglesas e francesas se misturavam nas arquibancadas encantadas, dobrando-se no ar em movimentos impossíveis. Pequenos dragões de fumaça azul e vermelha cruzavam o céu acima dos torcedores, perseguidos por leões dourados que rugiam sem som.
— Eu odeio quando o público faz fumaça perto da área médica — Hermione comentou, ajeitando os frascos dentro da maleta.
Harry, ao lado dela, carregava um conjunto de comunicadores mágicos.
— Você odeia fumaça ou odeia não conseguir controlar a fumaça? — ele perguntou, provocando a amiga.
— As duas coisas podem ser verdade.
Gina apareceu já uniformizada, batendo luvas contra luvas. Parecia elétrica. Os olhos brilhavam com aquela fome que ela sempre tinha antes de um jogo importante.
— Como estou? — perguntou, girando a vassoura na mão.
— Como alguém prestes a levar uma cotovelada de uma artilheira francesa e fingir que não doeu — Hermione respondeu.
— Perfeito. Era exatamente a descrição que eu esperava, Mione.
Harry beijou rapidamente a testa de Gina.
— Tente não provocar uma crise diplomática.
— Prometo que tentarei não começar uma.
Hermione olhou para ela.
— Gina.
— Está bem. Prometo tentar não começar nenhuma.
Do outro lado do vestiário, Draco ajustava as proteções dos antebraços. Não conversava muito antes dos jogos. Hermione percebeu isso nos últimos dias. Ele podia ser insuportável em treinos, irônico nos corredores, elegante em insultos, mas antes de uma partida ficava quieto. Não era medo. Era concentração. Uma espécie de silêncio afiado.
Thomas Relish, o outro batedor, ria alto com Roger Davies. Miles Bletchley resmungava sobre as condições do vento. Cátia Bell alongava os ombros com tranquilidade experiente. Tim Murphy murmurava a escalação adversária como se decorasse uma oração.
Angelina Johnson entrou no centro da sala.
— Atenção.
O vestiário silenciou.
Hermione ficou ao lado da porta, prancheta contra o peito. Tinha assistido a discursos antes, mas havia algo diferente ali. Talvez porque, naquele momento, ela não estava cuidando de pacientes comuns. Eram atletas prestes a voar a alturas absurdas enquanto objetos de ferro enfeitiçado tentavam derrubá-los.
Uma profissão ridícula, pensou.
E, ainda assim, quando olhou para Draco, sentiu orgulho.
— França joga rápido nas laterais — Angelina disse. — Eles vão tentar abrir vantagem nos primeiros quinze minutos. Tim e Gina, fechem os espaços. Roger, sem firulas. Miles, olhos do lado esquerdo do gol. Thomas e Draco, prioridade absoluta: manter a apanhadora viva e impedir que os batedores franceses dominem o campo. Reservas — ela olhou para os outros jogadores -, fiquem à postos para entrar a qualquer momento que seja necessário.
— Que frase reconfortante — Draco murmurou.
Hermione ouviu. Naturalmente.
— Você prefere “volte inteiro”? — ela perguntou.
Ele virou a cabeça, e o canto da boca subiu.
— Se for um pedido seu, talvez eu considere.
Gina tossiu. Harry olhou para o teto, desconfortável pelo comentário do antigo inimigo de escola.
Angelina fechou os olhos por meio segundo.
— Malfoy.
— Treinadora.
— Foque, Malfoy.
— Estou focado. Sabe disso.
— Foque no jogo de quadribol.
Draco não respondeu. Hermione desviou os olhos para a prancheta, mas sua boca traiu um sorriso pequeno.
Pouco depois, os jogadores saíram para o campo.
O jogo começou como uma tempestade, com alto da arquibancada, vassouras voando em alta velocidade, xingamentos trocados como raios.
Hermione acompanhava tudo da enfermaria lateral, uma estrutura encantada que se abria diretamente para o gramado. Havia macas dobradas, poções de reposição sanguínea, compressas quentes, feitiços de contenção e uma área isolada para ferimentos graves. Ela revisou tudo três vezes antes do apito inicial e, mesmo assim, sentiu vontade de revisar de novo.
A França marcou primeiro.
Depois a Inglaterra empatou com um arremesso de Gina tão limpo que até parte da torcida francesa reagiu com admiração antes de se lembrar de vaiar. Roger fez o segundo. Uma artilheira francesa respondeu com dois gols em sequência. O placar subia rápido demais.
Hermione tentou não prestar atenção nele mais do que nos outros. Era uma tentativa patética. Ele se movia em linhas agressivas, cortando o ar, surgindo entre um balaço e uma jogadora inglesa no último segundo. Em determinado momento, rebateu um ataque que vinha direto na direção de Cátia e, sem perder velocidade, lançou o balaço contra o batedor adversário, que precisou mergulhar para não ser atingido.
— Convencido — Hermione murmurou.
Harry, ao lado dela, sorriu.
O primeiro ferido chegou aos vinte minutos.
Thomas Relish pousou cambaleando, com um corte aberto na testa e expressão indignada.
— Foi o cotovelo dele!
Hermione já estava com a varinha em mãos.
— Sente-se agora.
— Mas foi falta! — o jogador murmurou, indignado, com o sangue escorrendo sem parar.
— Sente antes que eu transforme isso em falta médica.
Ele obedeceu.
Hermione limpou o sangue com um feitiço rápido, avaliou a pupila, aplicou uma pasta cicatrizante e segurou o queixo dele quando tentou olhar para o campo.
— Sente alguma tontura?
— O que sinto se chama raiva. Me libera logo, Granger.
— Raiva não é sintoma clínico — Hermione disse enfaticamente.
— Em batedor é.
Ela quase sorriu.
— Volte em alguns minutos. E tente não virar a cabeça rápido demais.
— O jogo está pegando fogo! Não vou esperar.
— Ou espera ou peço sua substituição.
Thomas piscou, processando a frase. Depois riu e ficou quieto, dizendo que esperaria. O segundo atendimento foi Tim, com dois dedos deslocados.
— Não grite — Hermione avisou.
— Não vou gritar.
Hermione recolocou os dedos no lugar com um movimento preciso e brusco. Claro que Tim gritou.
Quando Draco finalmente caiu, Hermione sentiu algo dentro de si cair junto.
Não foi uma queda feia para os padrões do quadribol, mas ainda sim teria matado qualquer pessoa sensata. Um batedor francês acertou um balaço que desviou em uma das traves e voltou em um ângulo impossível de ser rebatido. Draco conseguiu defender a apanhadora inglesa, mas recebeu o impacto no ombro esquerdo. O corpo dele girou no ar, a vassoura perdeu estabilidade e ele desceu em uma curva irregular até pousar de joelhos perto da enfermaria.
Hermione já estava correndo antes de Angelina gritar seu nome. Ela autorizou a entrada do substituto de Draco assim que o árbitro da partida deu permissão.
— Malfoy!
Ele tentou se levantar.
— Afaste-se daqui, Granger. Estou bem.
— Naturalmente. Por isso decidiu cumprimentar o gramado com o joelho.
— Sempre fui educado. Estou bem -mas cambaleou ao tentar se levantar.
— Cale a boca — Hermione ajudou-o e foram até a enfermaria.
— Essa é sua linguagem de cuidado?
— Essa é minha linguagem de “não me faça estuporar você na frente de quinze mil pessoas”.
Ele sentou na maca e o rosto estava pálido. Hermione percebeu a rigidez no maxilar, a respiração curta, o modo como ele mantinha o braço esquerdo próximo ao corpo.
— Ombro? — perguntou, em voz baixa, tentando disfarçar sua preocupação.
Draco assentiu uma vez, em silêncio. Ela cortou a manga do uniforme com um feitiço.
— Ei, eu gostava dessa camisa.
— Faça uma reclamação formal para o balaço — Draco sorriu de lado.
Os dedos dela tocaram a pele perto da clavícula. Draco inspirou com força. Hermione levantou os olhos para ele.
— Dor?
— Cócegas.
— Malfoy. Quanto mais demorar aqui, mais demora para voltar ao jogo.
— Dor — ele respondeu.
— Intensidade?
— Suportável.
— Isso não é número. Dor de 0 a 10?
— Sete.
Hermione aproximou-se, avaliando a articulação. Havia uma luxação parcial e um hematoma se espalhando rápido. Nada que ela não pudesse resolver. Tudo que seu coração não queria ver.
— Vou recolocar — disse. — Vai doer.
— Você sempre soube me dar boas notícias.
— Olhe para mim.
Draco obedeceu.
Por um instante, o estádio desapareceu. O barulho ficou distante. Hermione segurou o ombro dele com firmeza e apoiou a outra mão em seu braço. Os olhos cinzentos dele estavam presos aos dela, menos irônicos agora.
— Respire — ela pediu.
— Granger...
— Confie em mim.
A palavra pareceu atingi-lo de um jeito mais profundo que o ferimento. Ele fechou os olhos por um segundo e respirou.
Hermione fez o movimento.
Draco soltou um palavrão baixo, em francês, provavelmente aprendido apenas para ocasiões elegantes de dor.
Ela passou uma faixa encantada ao redor do ombro dele, os dedos cuidadosos demais para serem apenas profissionais.
— Dez minutos fora.
— Cinco.
— Quinze.
— Isso não é negociação.
— Exato.
Ele a encarou.
— Hermione.
Ela congelou ao ouvir o primeiro nome. Não porque ele nunca o dissesse. Ele dizia, às vezes. Mas sempre em momentos nos quais a armadura dele rachava.
— O quê?
— Eles estão mirando nas artilehiras. Se eu ficar fora quinze minutos, ela vira alvo livre. Não é um bom momento para um reserva estar no meu lugar. Uma das artilheiras é sua amiga.
Hermione olhou para o campo. Ele tinha razão. A França havia mudado a estratégia.
— Cinco minutos — ela disse. — E volta para mim se o braço formigar.
O sorriso dele apareceu, fraco, mas presente.
— Volto para você? — a ironia, a provocação eram palpáveis.
Hermione apertou a faixa um pouco mais forte.
— Eu quis dizer para a enfermaria — ela nem pensava em olhar para Draco.
— Claro.
Ele voltou ao jogo e a Inglaterra venceu por uma pequena margem de vinte pontos.
A apanhadora inglesa capturou o pomo no exato momento em que Gina marcava outro gol, e o estádio explodiu em uma mistura de rugidos, vaias e fogos mágicos. Hermione terminou o último atendimento com mãos firmes e pernas cansadas. Tinha curado cortes, contusões, um nariz quebrado e uma crise de ansiedade de um reserva que não havia sequer entrado em campo.
Quando finalmente saiu para respirar, encontrou Draco encostado na parede externa da enfermaria.
— Você não deveria estar no vestiário? — perguntou.
— Estou evitando jornalistas no momento — Draco respondeu, encarando o campo vazio.
— Achei que gostasse de atenção — ela falou, em tom de brincadeira. O loiro sorriu, sem deixar de olhar para o céu.
— Gosto de atenção qualificada — ela também sorriu perante a resposta arrogante, mas com tom de gentileza.
Hermione apoiou a maleta no chão.
— Como está seu ombro?
— Melhorando.
— Preciso verificar, Malfoy.
— Aqui? — ele perguntou, encarando-a.
— A enfermaria está sendo desmontada. Se você está melhor e aguentou até o fim do jogo, meu exame será rápido. Ou pode ir até o hospital mais próximo — ele revirou os olhos e soltou a fivela da proteção, e Hermione examinou a faixa. Havia muita proximidade o ar frio da noite não ajudava. Ela podia sentir o calor do corpo dele, o cheiro de grama, suor e alguma colônia discreta que ele provavelmente fingia não escolher com cuidado.
— Está cicatrizando bem — disse.
— Você parece surpresa.
— Com sua capacidade de sobreviver à própria teimosia? Sempre. Eu liberei para voltar ao jogo, mas deveria ter ficado de repouso.
Ele a observou enquanto ela guardava a varinha.
— Você ficou assustada.
Hermione fechou a maleta com um clique.
— Sou responsável pela saúde do time. Ferimentos me preocupam, Malfoy — ela faltou, sem encará-lo, pois sabia muito bem do que ele estava falando e reconhecia as meias verdades em sua resposta.
— Hermione.
Ela levantou os olhos. Irritou-se com a suavidade dele mais do que com qualquer provocação.
— Claro que fiquei assustada — disse. — Você caiu de uma altura absurda depois de receber um balaço no ombro. O que esperava? Aplausos?
— Um pouco.
Ela riu sem querer rir. Draco sorriu também, mas o sorriso se desfez lentamente.
— Eu me lembrei de uma coisa quando você pediu para eu confiar em você.
Hermione soube antes que ele dissesse.
A noite do quase beijo.
Anos antes, chuva batendo contra a janela do apartamento dela, dois copos de vinho sobre a mesa e um silêncio que já havia deixado de ser confortável para se tornar inevitável.
Hermione estava ferida, mas não no corpo. Tinha voltado de uma audiência pública em que bruxos influentes questionaram, de forma elegante e cruel, se ela deveria mesmo liderar projetos de reparação sendo nascida trouxa. Draco a encontrara tentando abrir a porta de casa com as mãos tremendo.
Não fizera piada.
Apenas entrara, tirara a capa dos ombros dela, preparara chá e sentara ao seu lado no chão da sala porque ela não queria o sofá.
— Eles estavam errados — ele dissera.
— Você nem sabe o que disseram.
— Conheço o tipo.
Ela rira, mas havia lágrimas no rosto.
Mais tarde, quando a chuva diminuiu, ele tocou sua bochecha para secá-la. Hermione segurou o punho dele, não para afastá-lo, mas para mantê-lo ali.
Ele se inclinou.
Ela também.
E então ele parou.
“Você merece alguém que não esteja tentando descobrir se ainda tem conserto.”
Hermione, ferida e cansada, acreditara por algumas semanas que aquilo era cuidado. Depois entendeu que era medo. Talvez dos dois lados. Mas ele falara primeiro. Ele transformara o desejo em espera. E a espera, com o tempo, virara distância.
No presente, Hermione respirou fundo.
— Não fale disso aqui.
— Então quando?
— Não sei.
— Você nunca não sabe. É Hermione Granger.
— Pois aproveite a raridade.
Draco deu um passo para mais perto. Não a tocou.
— Eu errei, Hermione. Disso você sabe tão bem quanto eu.
— Sim, eu sei disso — ela deu um passo para trás. Draco assentiu, aceitando o golpe do afastamento.
— Achei que estava protegendo você.
— Eu sei disso também — a voz dela saiu baixa, ferida.
O silêncio entre eles não era vazio. Draco olhou para o chão e soltou uma risada sem humor.
— Eu era covarde.
Hermione sentiu o peito apertar.
— Era?
Ele levantou os olhos, e havia ali uma honestidade que a desarmou mais do que qualquer charme.
— Estou tentando conjugar no passado.
Ela deveria ter respondido algo inteligente. Algo seguro. Algo que recolocasse distância.
Mas tudo que conseguiu fazer foi olhar para ele tempo demais.
Então a porta do vestiário se abriu, e Thomas colocou a cabeça para fora.
— Malfoy! Angelina quer você para entrevista!
Draco fechou os olhos.
— Diga que morri, Thomas.
— Hermione acabou de curar você! Venha logo — entrou novamente,
Draco pegou a proteção do ombro e se afastou, mas antes de entrar, virou-se.
— O convite para jantar ainda está de pé.
— Médico e paciente, Malfoy — Hermione respondeu apontando para ambos.
— Por enquanto, Hermione, por enquanto — ele piscou marotamente e entrou no vestiário.
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