Notas iniciais
Boa leitura!

— Como eu te chamo? — afago o vira-lata que desde que cheguei não me larga, tão triste como esses bichinhos estão sempre prontos para receber carinho. Ele é macho e tem um ano, seus pelos são cor de caramelo e está tão empolgado quanto eu. Olho para o lado e vejo Dante carregando um cachorrinho preto e conversando com a atendente. Quem é essa querida? Ele sente meu olhar e se vira para mim, sorri e eu volto meu olhar ao meu mais novo companheiro — Acho que vou te chamar de Fred. É, Fred Júnior! — o cão abana o rabo e acho que ele gostou.

— Sério? Vai chamar ele de Fred Júnior? — o moreno está parado diante de mim com um sorriso leve nos lábios — Janine te falou que o nome do pai dele é Fred?

— Janine?

— É, a atendente — ele olha ao redor e acena para a moça que estava nos olhando, sorrindo de volta. Reviro meus olhos.

— Não, a Janine não me disse nada — respondo voltando meu olhar para o Fred e fazendo um carinho nas suas orelhinhas fofinhas.

— Deveria perguntar, ela é bem simpática — o que ele acha que está fazendo com essa conversinha? Levanto em um rompante e ele se assusta, dou-lhe um sorriso sem graça e vou em direção a amiguinha dele, ele vem atrás de mim. Me mantenho plena e confirmo a adoção com a mulher, quando acaba eu recomeço a andar, mas paro na porta e me viro para Dante.

— Obrigada pela companhia, agora tenho que ir. — recomeço a andar.

— O... Fred — aponta para meu cão na coleira — é filho do cão da namorada de Janine. — ele comenta e eu rio — O que foi?

— Nada, só lembrei de algo que o Jorge me disse. — mentira, ele falou da atendente de propósito.

— Ah, okay. Pra onde está indo? — ele pergunta quando me viro em direção a saída enquanto ele está indo em direção ao estacionamento.

— Estou sem carro, depois daquele acidente, sabe? Vou pegar um táxi.

— Nem todos os carros aceitam cães dentro de seus veículos. Eu posso te dar uma carona — ficar dentro de um carro fechado com esse homem não fazia parte dos meus planos. Olho um tanto indecisa pra ele — Fica tranquila, você me diz o destino e eu te deixo lá. Não vou roubar seus orgãos. — ele diz sorrindo e eu o acompanho. — Mesmo sendo médico — ele diz baixo e eu o olho. Rimos.

— Qual a sua especialidade? — pergunto a um Dante concentrado enquanto dirige. Fred late nos distraindo.

— Parece que eles estão se divertindo lá atrás — olho pra trás e os dois estão dividindo um pedaço de pano.

— Aquilo era seu? Acho que já está destruído — ele olha pelo retrovisor e dá de ombros — Qual o nome dele? Não me disse.

— Trovão — dou risada e ele me olha de lado — O que foi?

— Falou do nome do meu Fred, mas o seu não é muito criativo — ele dá de ombros e ri. O observo um momento e não há nada mais sexy que alguém na direção, essa concentração é instigante. Não deixo de notar em como ele foi legal e me divertiu até agora, além de ter um cheiro maravilhoso e esses olhos que poderiam me petrificar.

— Qual o caminho? — para qualquer lugar, se você for junto comigo.

— Vira á esquerda, verá um prédio grafite com o nome de..

— Império. — ele me corta e me sorri de lado.

— Conhece a área, então?

— Conhecia uma pessoa que morava aqui. — ele conta estacionando.

— Uma namorada? — ele me olha e nesse momento quero saltar do carro. Não sei bem o que ser olhar quer dizer mas já me deixou constrangida — Desculpa, não tenho nada com isso — me preparo para sair do carro e ele me segura o braço pela terceira vez, só hoje.

— Na verdade era um tio mesmo — ele me conta sorrindo quando eu me viro — Escuta, quer jantar comigo? — arregalo os olhos e isso não passa despercebido por ele — Te chamaria para um almoço, mas é mais improvável de conseguir uma folga. — eu assinto e olho para a frente do meu prédio, pensando em como isso está acontecendo.

— Aceito. — digo e seu sorriso se alarga e eu acho que teria dito não se soubesse o que isso causaria no meu corpo, na minha mente, não sei. É como se apenas com esse sorriso ele conseguisse me transmitir uma paz que há tempos eu não sentia, uma calma que não faz mais parte do meu cotidiano.

— Pode ser amanhã? — assinto — Te pego ás 8h, tudo bem? — confirmo com a cabeça e ele sorri leve, passando a mão pela nuca — Pode.. me dar o seu número de celular? Pra nos comunicarmos, é... — deixa a fala no ar e eu entendo. Passo meu número para ele, que agradece.

— É isso, então... até amanhã? — ele confirma e eu não sei como me despedir, mas ele logo me dá a resposta se aproximando de mim e me entregando um beijo na bochecha.

— Vou esperar ansioso. — conta e eu desço do carro. Entro no meu apartamento com o Fred e enquanto ele vai reconhecendo o local eu me jogo no sofá, pego meu celular e ligo para o Jorge, contando do ocorrido. Claro que ele me diz que já esperava isso e me deseja boa sorte.

O dia termina rápido e descubro que uma das melhores escolhas foi ter pego o Fred, ele é um cãozinho grande mas ainda é um filhote e é extremamente carinhoso e brincalhão. Ele dorme comigo e se assusta tanto quanto eu quando ouço o toque do celular pela manhã.

— Alô — pego com a voz sonolenta.

— Maya, terá que vir aqui. A Stª Marquês pediu uma reunião de emergência hoje. — ouço a voz forte de Ramírez e reviro os olhos.

— Qual o assunto?

— Ela não disse, apenas pediu uma reunião com a presidência. — droga!

— É bom ter um motivo que valha a pena, hoje eu não queria sair da cama por menos de 500 mil.

— Estou te esperando Rapunzel — desligamos e olho para Fred.

— É Fred, é difícil viu — afago seu pelo e desço da cama com ele ao meu redor. Faço o que tenho que fazer e sigo em direção a empresa, antes, checando se deixei tudo para o cão saltitante. — Já volto, tá bom? — sigo meu caminho e chego na empresa, encontrando Ramírez a minha espera.

— Ela já esta na sala de reunião. — arqueio a sobrancelha.

— Quanta pressa! Deve ser urgente mesmo — ele assente — Pegou o que preciso? — ele assente novamente e caminhamos para a sala. A Stª Marquês é uma mulher de 47 anos que herdou tudo do ex marido, e ainda assim prefere ser chamada de senhorita e pelo seu sobrenome de solteira. Ela sabe o que faz e o que quer, já tentou dar uma de esperta em cima da empresa uma vez e depois desse dia, não fechei mais meus olhos com ela. Entro na sala, cumprimentando ela e dois homens que ela trouxe e não entendi o porque. — Então, o que a traz aqui com tamanha urgência nessa manhã de sábado?

— Isso. — ela me estende uma pasta e eu a pego. Folheio tudo e começamos uma discussão cínica e leve. De novo, ela querendo se dar bem em cima da empresa e de mim, claro, já que deixou claro que eu era apenas uma menina perdida. Em nenhum momento, outras pessoas falam a não ser nós, o que me deixa com controle de tudo. No meio disso, meu celular vibra e vejo uma mensagem de um número desconhecido, mas reconheço a foto. Resolvo não ver agora, a fim de não me desconcentrar. Em média, uma hora e meia depois, finalizamos e ela sai da minha sala, não sem antes me dá um ultimato.

— Essa empresa vai cair menina Maya, não pode decidir ser a dona de tudo de repente.

— Na verdade — levanto e dou a volta na mesa, ficando de frente pra ela mas em uma distância segura — Posso. E a senhora sabe bem disso, Stª Marquês. Tenha um bom dia — aponto a porta e ela se vai.

— Que mulher petulante — diz meu tio quando chegamos na minha sala.

— Foi assim que ela conseguiu manter aquele lugar? Intimidando os outros? — me jogo no sofá e pego meu celular com as mãos geladas.

" Bom dia, espero que tenha dormido bem e o FRED tenha se acostumado com a nova moradia. Esperando ansiosamente para me contar pessoalmente."

Meu sorriso é automático e isso não passa despercebido pelo meu tio. Meus dedos ficam tamborilando na tela do celular sem saber o que responder, faz tempo que não me sinto assim. Na verdade, acho que nunca me senti dessa forma, vamos lá Maya, cadê sua compostura? Reage! Decido se básica:

" Bom dia, prometo contar hoje á noite."

Levanto o olhar e vejo que estou sozinha na sala, melhor assim. Vou para casa, mas antes passo em um restaurante para pegar o meu almoço e ligar para meu amigo.

— Oi gatinha! — ele atende animado e já imagino o que esteja acontecendo.

— Tudo bem?

— Sim, vou sair com o Pedro hoje, estou mais que bem. Depois vou conhecer uma nova boate. Tá afim? — me pergunta.

— Na verdade, eu já tenho planos. Lembra?

— Verdade! Como pude esquecer disso?! Está tudo certo? Se arruma viu, quero você linda e quero detalhes amanhã — ele parece até mais animado que eu. Comentamos mais coisas aleatórias, como por exemplo, o nome do meu cachorro e desligo.

— Oi Fred, como passou o tempo sem mim? — digo a um cãozinho que não para de pular de animação. Vou almoçar e ele deita comigo no sofá assistindo algum desenho, enquanto eu só penso no encontro de hoje. — Acha que vai ser legal? — pergunto e ele me observa — Você conheceu ele, não dizem que cachorros sentem a energia das pessoas? Qual a dele? — ele entorta a cabeça numa tentativa de me entender. — Nada? Nem uma dica? Sério? Vou ter que arriscar mesmo?

Não sei como me preparar para isso, digo, já tive encontros antes mas agora é diferente. Ele já me viu derrotada e mesmo assim me chamou pra sair, é como se eu não precisasse me preparar por horas. Com esse pensamento, adormeço no sofá. Sinto algo molhado e quente no meu pescoço e sorrio quando a ideia do moreno vem a minha mente, mas abro os olhos quando me lembro do meu novo companheiro. Levanto num pulo e o olho, afago seu pelo e sigo para o banheiro, começando a me arrumar. Ponho um vestido preto simples e de alça que ressalta minhas curvas, um salto fino preto também, maquiagem clara nos olhos e batom vermelho, resolvo deixar meus cabelos soltos. Disse que não precisava me arrumar, mas não significa que eu não queira. Meu celular apita e vejo sua mensagem avisando que chegou. A noite promete.

Notas finais
Obrigada!