Entre dois mundos - Hogwarts
7 Clube do Slugue
Notas iniciais
O castelo despertava para mais um dia cinzento, com o céu carregado de nuvens que pareciam refletir o humor pesado que pairava sobre Hogwarts. Anne havia chegado ao salão comunal da Sonserina mais cedo no dia anterior, o que despertou a curiosidade de Daphne e Theodore, mas ela desviara habilmente das perguntas com respostas vagas. As notícias sobre Katie Bell já haviam tomado os corredores como um incêndio descontrolado, alimentando teorias e especulações.
O vento assoviava lá fora, e o domingo parecia destinado a ser gasto entre as paredes do castelo. No salão comunal, a atmosfera era mais tranquila do que o habitual. Anne estava recostada em um dos sofás, com a cabeça apoiada no ombro de Daphne, que lia um livro grosso de capa escura. O ocasional virar de páginas e os comentários pontuais de Daphne eram os únicos sons que preenchiam o espaço.
A quietude foi interrompida por uma voz baixa e tensa que fez Anne levantar os olhos.
– Relish, podemos conversar?
Draco Malfoy estava parado a poucos metros. Ele parecia hesitante, como se não tivesse certeza de que deveria ter falado. Seu rosto estava ainda mais pálido do que o normal, os olhos cinzentos brilhando com algo entre determinação e vulnerabilidade.
Daphne ergueu o olhar do livro, arqueando uma sobrancelha enquanto alternava o olhar entre Anne e Draco. Sua expressão deixava claro que estava cheia de perguntas não verbalizadas.
Anne suspirou, afastando-se de Daphne. – Já volto.
Seguiu Draco em silêncio, atravessando os corredores quase desertos do castelo. O som dos passos ecoava, amplificando o silêncio desconfortável entre eles. Draco a guiou até a Torre de Astronomia, onde o vento soprava com força, fazendo o frio parecer mais cortante.
Anne encostou-se na grade da torre, cruzando os braços enquanto o observava. Draco parecia inquieto, andando de um lado para o outro antes de finalmente parar e olhá-la diretamente.
– Como você descobriu? – perguntou ele, finalmente. Sua voz estava mais baixa do que o habitual, quase um sussurro, mas carregada de tensão.
Anne passou a mão pelos cabelos, suspirando.
– Malfoy, já te disse... Não posso responder isso tão facilmente. Não é tão simples.
Draco franziu o cenho, claramente insatisfeito com a resposta. O silêncio entre eles ficou ainda mais denso, quebrado apenas pelo som da chuva batendo contra as paredes da torre.
– Não se preocupe — disse Anne, finalmente. – Eu não vou contar... Para ninguém.
Ele estreitou os olhos, confuso e incrédulo.
– Por que não? Você sabe o que estou fazendo, sabe o que tenho que fazer. Por que não me expõe? Não seria mais fácil para você?
Havia um tom de desafio em sua voz, mas também algo desesperado. Anne desviou o olhar para o horizonte nebuloso, observando a chuva que escorria pelas colinas.
– Porque sei como é carregar algo que parece maior do que você — respondeu ela, a voz calma, mas cheia de empatia. – Sei como é se sentir sozinho nisso tudo. E, honestamente, acho que já tem gente demais te empurrando para o abismo. Eu não preciso ser mais uma.
Draco desviou o olhar, seus ombros tensionados.
– Você fala como se me conhecesse — murmurou ele, com um toque de desconfiança.
Anne deu um sorriso fraco, quase triste.
– Talvez conheça. Ou talvez apenas veja que você está tentando fazer o impossível sozinho.
Draco soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
– E o que você sugere, então? Que eu simplesmente conte tudo a Dumbledore? Que ele me perdoe, me proteja e tudo fique bem? – Sua voz estava carregada de sarcasmo, mas havia algo quebrado em suas palavras.
Anne virou-se para ele, os olhos fixos nos dele.
– Talvez... Talvez ele já saiba mais do que você imagina. Talvez ele esteja esperando que você fale. Que peça ajuda.
Draco ficou em silêncio, seu olhar intenso fixo no dela.
– Você não entende. Não é tão simples assim. Minha família... Minha mãe... Tudo está em jogo. Eu não posso falhar.
Anne respirou fundo, sentindo o peso das palavras dele.
– Eu sei que parece impossível agora, mas você não precisa carregar isso sozinho, Malfoy.
Por um momento, ele parecia prestes a responder, mas apenas desviou o olhar, claramente lutando com seus próprios demônios.
– Você não deveria se envolver nisso, Relish," disse ele, finalmente, o tom mais suave.
Anne deu de ombros, oferecendo um sorriso melancólico.
– "Acho que já estou mais envolvida do que gostaria."
Os dois ficaram em silêncio, lado a lado, observando a chuva que caía sem parar. Não havia mais nada a ser dito naquele momento. O silêncio entre eles não era mais desconfortável; era um entendimento tácito de que, apesar das diferenças, ambos estavam tentando sobreviver em um mundo que parecia desabar a cada dia.
(...)
O sol já havia desaparecido quando a chuva finalmente deu uma trégua, deixando o castelo envolto em um ar fresco e úmido. No dormitório da Sonserina, Anne e Daphne se preparavam para o tão comentado jantar promovido pelo professor Slughorn. O quarto estava uma bagunça completa – roupas espalhadas pelas camas, frascos de poções para cabelo e maquiagem enfileirados sobre as mesas, e um leve cheiro de perfume floral no ar.
Daphne estava ocupada ajustando o penteado de Anne, sua expressão concentrada enquanto prendia os últimos fios no lugar.
– Então, você e o Malfoy... – começou Daphne, com um tom casual, mas que carregava um quê de provocação. – Não sabia que eram tão próximos.
Anne sorriu de canto, balançando a cabeça enquanto mexia distraidamente no colar ao redor do pescoço.
– Ele só veio me passar um recado do professor Snape — disse ela. – Você sabe... sobre o meu relatório.
Daphne ergueu uma sobrancelha, claramente não convencida. Virou-se para o espelho e analisou a expressão de Anne através do reflexo.
Ela colocou as mãos na cintura, assumindo uma pose ameaçadora que fez Anne soltar uma gargalhada. — Se ele estiver te incomodando, vai se ver comigo!
– Daphne, por favor. Não foi nada demais — disse Anne, ainda rindo. Ela se levantou, alisando o vestido azul-claro que havia escolhido.
Daphne a observou com aprovação, um sorriso satisfeito surgindo em seus lábios.
– Você está perfeita — comentou com entusiasmo, dando um passo para trás para admirar a amiga.
– Não tanto quanto você — respondeu Anne sinceramente. Daphne usava um vestido em tons de rosa claro, que parecia ter sido feito sob medida para ela. O tecido fluía suavemente enquanto ela se movia, e seus pequenos saltos complementavam o look com elegância.
– Vamos descer — disse Daphne, pegando sua bolsa. – Theo é capaz de nos estuporar se demorarmos mais.
Anne assentiu, rindo levemente.
O salão comunal da Sonserina estava aquecido pela luz verde que emanava das lâmpadas mágicas. As paredes de pedra refletiam o brilho das tochas, e o som da água do lago negro, que se movia acima deles, trazia um fundo sereno. Theodore Nott estava largado em uma das poltronas, girando a varinha entre os dedos, claramente entediado.
– Graças a Merlin! — exclamou ele ao ver as duas descerem as escadas. – Mais alguns minutos e eu teria invadido o quarto de vocês.
Ele se levantou, ajeitando o smoking escuro que parecia muito bem alinhado. Seu cabelo estava mais arrumado do que normalmente, o que arrancou um pequeno sorriso de Daphne.
– A propósito — continuou ele, estendendo os braços teatralmente. – Estão encantadoras, senhoritas.
Daphne revirou os olhos, mas sorriu.
– Você é tão dramático, Theo — respondeu Anne com um tom divertido.
Os três seguiram juntos pelos corredores de pedra, o clima ameno contrastando com a tensão do início do dia. A conversa fluía com naturalidade, cheia de comentários irônicos de Theo e observações detalhadas de Daphne sobre as últimas fofocas.
Quando chegaram ao local do jantar, um clima acolhedor os envolveu. A sala estava elegantemente decorada, com mesas redondas cobertas por toalhas de veludo verde-escuro e candelabros flutuantes que lançavam uma luz quente sobre os rostos dos convidados. Uma música suave preenchia o ar, misturando-se ao som de risadas e conversas. Daphne parou por um momento para ajeitar o cabelo antes de entrar, enquanto Theo olhava ao redor com um misto de curiosidade e tédio.
Eles entraram, chamando a atenção de alguns alunos que já haviam chegado. Enquanto Daphne analisava o ambiente com olhos críticos, Theo parecia mais interessado no bufê ao fundo da sala.
O ambiente elegante da sala parecia mais vivo conforme os convidados chegavam. O brilho suave das velas refletia nas paredes de pedra polida, enquanto uma música leve preenchia o espaço com uma sensação acolhedora. O professor Slughorn, com seu bigode característico e o colete repleto de botões dourados, estava um pouco afastado da entrada, mas assim que avistou Anne, Daphne e Theodore, um sorriso largo surgiu em seu rosto.
– Ah, aí estão vocês, um trio inseparável! – exclamou ele, caminhando animadamente até eles e apertando a mão de cada um. Quando chegou a Anne, seu entusiasmo parecia crescer ainda mais. – Senhorita Relish, fiquei sabendo de suas pesquisas com poções curativas. O professor Snape me mostrou seu relatório... formidável, realmente formidável! Caso precise de ajuda ou orientação, por favor, não hesite em me procurar.
Anne sentiu o calor subir rapidamente para o rosto, enquanto as palavras de Slughorn ecoavam em sua mente. Ela sabia que o relatório tinha ficado bom – bom até demais – mas lembrava-se de que a intenção original nem sequer era impressionar ninguém. Era apenas uma desculpa para ter acesso a mais informações que pudessem ajudá-la a desvendar seu próprio dom.
– Ah, professor, muito obrigada! Que bom que o senhor achou satisfatório. Vou continuar me dedicando às pesquisas – disse, a voz saindo mais calma do que ela se sentia.
Slughorn assentiu com entusiasmo, dando um leve tapinha no ombro de Anne antes de voltar sua atenção para os outros. A conversa continuou brevemente até que seus olhos captaram algo ao longe.
– Harry, meu rapaz! – chamou ele, com uma animação ainda maior, apressando-se para alcançar o recém-chegado. Sua careca refletia a luz das tochas enquanto sua figura quase brilhava. – Que bom vê-lo, que bom vê-lo! E o senhor deve ser o Sr. Longbottom!
Neville assentiu timidamente, parecendo ligeiramente desconfortável com a energia do professor.
Slughorn fez questão de apresentar Harry e Neville ao trio.
– Harry, este é o Sr. Nott, um jovem promissor. E aqui, a Srta. Relish, cujas pesquisas me impressionaram muito. E, claro, a sempre elegante Srta. Greengrass.
Anne trocou um olhar rápido com Harry, lembrando-se dos poucos momentos em que estiveram próximos durante os encontros da Armada de Dumbledore. Apesar disso, a interação foi breve, e logo Slughorn voltou sua atenção para outros convidados, deixando o grupo livre para explorar a sala.
Anne desviou para a mesa de bufê junto com Theodore. A mesa estava repleta de pratos luxuosos, com tortas douradas, ponches fumegantes e bandejas de sobremesas que pareciam ter saído de um livro de contos de fadas.
– Parece que Slughorn quer montar um pequeno zoológico de talentos — comentou Theodore enquanto enchia um prato com tortinhas de carne.
Anne soltou uma risada discreta. – Você é tão dramático. Ele só gosta de estar cercado por pessoas que podem ser úteis para ele.
Daphne logo se juntou a eles, claramente entediada.
– Sabe, isso está começando a parecer uma festa de família — suspirou, tirando da pequena bolsa que carregava um cantil prateado. Sem cerimônia, ela despejou o líquido contido nele em seu copo e depois nos de Anne e Theo.
Anne ergueu uma sobrancelha, surpresa.
– Daph, isso é... whisky de fogo?
Daphne deu um sorriso travesso, erguendo o copo.
– O único jeito de sobreviver a esses jantares intermináveis. Um brinde à paciência.
Theo gargalhou enquanto tomava um gole, fazendo uma careta breve antes de sorrir novamente.
– Por incrível que pareça, combina com o suco de abóbora — comentou ele, girando o copo em mãos.
Anne hesitou, mas acabou provando a mistura. O calor do whisky de fogo desceu por sua garganta, aquecendo-a instantaneamente.
– Não acredito que estou dizendo isso, mas você tem razão, Daph. Isso não é tão ruim.
Daphne riu, virando o conteúdo de seu copo de uma só vez.
– Esse é o segredo para sobreviver às reuniões da minha família. Deveríamos fazer isso mais vezes.
O trio passou boa parte da noite em um estado de leve embriaguez, rindo e trocando comentários ácidos sobre os outros convidados. Anne se pegou relaxando mais do que esperava, o peso que geralmente carregava nos ombros parecendo momentaneamente mais leve.
Quando a noite começou a chegar ao fim, os alunos foram lentamente se despedindo. Anne, Daphne e Theo saíram juntos, o ar frio da noite cortando levemente o calor que sentiam. Anne riu, sentindo o frio em suas bochechas enquanto caminhavam de volta ao castelo. O jantar, apesar de inesperado, acabou sendo mais memorável do que ela imaginava.
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