Entre dois mundos - Hogwarts
9 A verdade
Janeiro de 2008
- Anne, o café da manhã está pronto! — A voz firme de Grace soou do andar de baixo, carregada pelo cheiro doce e familiar de waffles que inundava a casa.
Anne já estava acordada, ajeitando a bagunça em sua escrivaninha. Ao ouvir o chamado, deu uma última olhada no quarto e decidiu descer. A casa era pequena, mas acolhedora, decorada com toques pessoais que refletiam o esforço de sua mãe para torná-la um lar, apesar das dificuldades.
Na cozinha, Grace estava de costas para Anne, colocando pratos na bancada. Seu cabelo escuro estava preso em um coque apressado, e ela usava o uniforme de trabalho que nunca parecia descansar no cabide.
- Até que enfim resolveu aparecer — brincou Grace, lançando um olhar rápido por cima do ombro enquanto servia o café. — Hoje não precisa se preocupar com o ônibus. Vou te levar na escola. Fiz algumas horas extras e consegui começar mais tarde hoje.
Anne sentou-se à mesa, puxando o prato de waffles para mais perto. — Isso é raro — comentou, com um sorriso discreto.
Grace deu de ombros enquanto se sentava ao lado dela com uma xícara de café. — Aproveite. Não acontece sempre.
O café da manhã foi breve, mas confortável. Anne sempre gostou desses momentos, por mais curtos que fossem. Grace estava sempre dividindo seu tempo entre dois empregos, esforçando-se para dar à filha o necessário.
Assim que terminaram, as duas seguiram para o carro. Grace dirigia um hatchback velho que fazia barulhos suspeitos, mas nunca falhava. No rádio, uma música suave tocava baixinho, a favorita de Grace, algo que Anne ouviu tantas vezes que já conhecia cada nota.
- Vou chegar tarde hoje... — começou Grace, quebrando o silêncio. — A comida está pronta na geladeira, e deixei um pouco de dinheiro em cima da geladeira caso precise de alguma coisa. Se precisar de ajuda, ligue para sua tia, tá bem?
Anne olhava para a janela, o cenário da vizinhança passando devagar.
- Para onde você vai? — perguntou, a voz saindo mais curiosa do que preocupada.
Grace sorriu, mas manteve os olhos no trânsito.
- Tenho que resolver algumas coisas no trabalho. Mas não se preocupe... Eu volto. Prometo.
A palavra "prometo" ficou no ar por mais tempo do que Anne gostaria. Ela não sabia por quê, mas havia algo no tom da mãe que a fez apertar os dedos contra o tecido de sua calça.
Quando finalmente chegaram à escola, Anne suspirou, segurando a mochila antes de abrir a porta do carro.
- Hey!- chamou Grace, com a voz um pouco mais alta do que o normal. Anne parou e olhou para trás. — Eu te amo, tá legal? Até a noite!
Anne deu um pequeno sorriso, meio envergonhado pelo jeito espontâneo da mãe.
- Eu também te amo, mãe.
Fechou a porta e caminhou em direção à entrada da escola, sem saber que aquela seria a última vez que veria Grace.
Os dias seguintes foram cheios de expectativa. Anne esperava todos os dias que sua mãe entrasse pela porta da frente, com um sorriso e uma explicação qualquer para o atraso. Mas a casa continuava vazia, e as palavras de Grace ecoavam na mente de Anne como um fantasma:
"Eu volto. Prometo."
Só que ela nunca voltou.
(...)
Os dias em Hogwarts pareciam se arrastar, cada um mais lento e pesado do que o anterior. Anne sentia como se estivesse presa em uma névoa espessa, incapaz de enxergar claramente o caminho à sua frente. Os últimos acontecimentos haviam deixado sua mente em completo caos, cada pensamento se atropelando em uma tentativa frustrada de encontrar sentido em tudo o que vivia.
Depois de dias tentando lidar com a pressão sozinha, Anne finalmente pediu à Madame Pomfrey alguns dias de 'licença', alegando estar doente. Ela precisava de uma pausa das aulas, do burburinho constante nos corredores e das perguntas que não sabia como responder. No fundo, Anne se perguntava se tudo aquilo era real ou apenas uma criação da sua mente exausta. Talvez estivesse alucinando, vivendo um delírio criado por sua própria imaginação.
Mas havia questões que não a deixavam descansar. E se sua mãe ainda estivesse viva? As teorias que Anne desenvolvia em sua mente apontavam para algo extraordinário: se sua mãe era uma bruxa, então, talvez, ela também tivesse viajado para essa realidade e ficado presa, sem saber como voltar. A ideia a assombrava e, ao mesmo tempo, a confortava. Era doloroso pensar que sua mãe poderia estar tão perto, mas inalcançável.
E não era apenas isso. A descoberta de seu dom, um poder que parecia correr em sua linhagem, só aumentava o peso sobre seus ombros. Anne sabia que precisava dominá-lo, mas como? Não havia respostas nos livros, apenas fragmentos de informações que pareciam incompletos, como um quebra-cabeça que faltava peças.
O salão comunal da Sonserina estava envolto em um silêncio reconfortante. A luz trêmula da lareira lançava sombras suaves nas paredes de pedra, e o ar tinha um leve aroma de madeira queimando. O fogo era o único som que preenchia o espaço, além das vozes baixas de Daphne e Theodore, que conversavam sentados próximos à janela. Quando Anne entrou, o som de seus passos ecoou levemente, chamando a atenção dos amigos.
Daphne levantou os olhos primeiro, com preocupação evidente no olhar. Ela cutucou Theodore discretamente, que virou o rosto em direção a Anne, sua expressão passando rapidamente de casual para séria. Ambos se levantaram com pressa, aproximando-se dela.
- Você melhorou?"- perguntou Daphne, cruzando os braços e inclinando a cabeça para observar o rosto cansado de Anne. Sua voz era calma, mas carregava um tom de preocupação.
Anne assentiu levemente, os olhos baixos enquanto se aproximava. — Estou... melhor — disse, sua voz pouco mais que um sussurro.
Theodore estreitou os olhos, cruzando os braços enquanto observava a amiga com atenção. — Melhor? Anne, você tem estado estranha desde o começo do ano. O que está acontecendo de verdade?
Anne parou, sentindo um nó se formar em sua garganta. Tentou desviar o olhar, mas a intensidade nos olhos de Daphne e Theodore a prendeu no lugar. Ela sentiu seus olhos começarem a arder, e, antes que pudesse impedir, lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. O peso dos últimos dias, das revelações, do medo e das dúvidas parecia finalmente ser demais.
- Anne... — murmurou Daphne, aproximando-se mais.
Theodore reagiu rápido, colocando as mãos nos ombros dela e guiando-a gentilmente até o sofá mais próximo. — Hey, tá tudo bem. Nós estamos aqui — disse ele, com a voz baixa e tranquilizadora.
Anne deixou o corpo cair no sofá, enquanto Daphne se ajoelhava à sua frente, segurando uma de suas mãos. Por um momento, o único som era o choro de Anne, ecoando suavemente pelo salão comunal. Os dois amigos trocaram olhares preocupados, mas nenhum deles tentou apressá-la. Eles sabiam que Anne falaria quando estivesse pronta.
Após alguns minutos, Daphne decidiu quebrar o silêncio. — Anne... seja o que for, estamos aqui. Mas precisamos saber o que está acontecendo. Fala com a gente — disse, apertando levemente a mão dela.
Anne respirou fundo, os olhos ainda fixos na lareira. As palavras pareciam presas em sua garganta, mas ela sabia que não podia mais guardar tudo para si.
- Vocês lembram... — começou, a voz hesitante. — De quando eu disse que minha mãe desapareceu? E que foi por isso que precisei sair de Londres e viver no mundo trouxa por um tempo?
Daphne assentiu lentamente, enquanto Theodore inclinava a cabeça, claramente atento.
- Bem... não era exatamente verdade. Ou melhor, era uma meia verdade," continuou Anne, abaixando o olhar para suas mãos entrelaçadas. — "Eu não sou... daqui. Eu não sou dessa realidade. Eu vim de um lugar onde o mundo bruxo não existe, ou pelo menos eu nunca soube que existia.
O silêncio que seguiu foi pesado. Daphne franziu o cenho, tentando processar o que ouvira, enquanto Theodore piscava, surpreso.
- Você... quer dizer que é de outra realidade? — perguntou Daphne, a confusão misturada com um toque de descrença.
Theodore, por sua vez, soltou uma risada curta, mas nervosa. — E isso existe? Não é... impossível?
Anne engoliu em seco, com os dedos tremendo levemente. — Eu descobri que faço parte de uma linhagem de bruxos que têm um dom raro: a habilidade de viajar entre realidades. Não sei como funciona exatamente, e as informações que consegui encontrar nos livros são quase nulas. Mas... minha mãe tinha esse dom também. E acho que foi isso que a trouxe aqui. Ela desapareceu do meu mundo... e eu descobri que ela esteve em Hogwarts, muito antes de mim. — Daphne arregalou os olhos, surpresa, enquanto Theodore cruzava os braços, sua expressão agora mais séria.
- E você acha que ela ainda está aqui? Digo, nessa realidade? — perguntou Daphne, sua voz baixa.
Anne balançou a cabeça, os olhos cheios de dúvidas. — Eu não sei....
- Como você descobriu sobre esse dom ? Mais alguém sabe? — perguntou a loira, sua voz carregada de curiosidade e preocupação.
Anne balançou a cabeça negando, as mãos inquietas mexendo na barra de sua capa. Seus olhos se fixaram na lareira, como se buscassem coragem no brilho das chamas.
- Quando não consegui voltar da primeira vez — começou ela, a voz baixa, mas firme. — Eu sabia que algo estava errado. Comecei a pesquisar, a procurar respostas... e então encontrei um pergaminho. Ele falava sobre uma linhagem, a 'Família Relish'. Descobri que eles tinham um dom... um dom que foi se perdendo com o tempo.
Theodore franziu a testa, com os dedos tamborilando no braço do sofá enquanto tentava processar tudo o que Anne havia acabado de revelar. Seu olhar era fixo, como se buscasse compreender os detalhes não ditos. Ele finalmente quebrou o silêncio, a voz saindo hesitante:
– Isso é... muita coisa para processar, Relish. Você tem certeza de que essas viagens entre realidades não têm consequências? E se... o que você está fazendo aqui acabar mudando algo na sua realidade? Ou até mesmo na nossa?
Anne levantou os olhos, encontrando os dele com intensidade. Sua expressão oscilava entre frustração e cansaço, mas havia uma firmeza subjacente em sua voz.
– Eu não sei, Theo. Não tenho todas as respostas. Às vezes, me pergunto se o simples fato de eu estar aqui já está mudando alguma coisa. Mas o que eu sei é que... não posso simplesmente ignorar o que está acontecendo.
Theodore inclinou-se levemente para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, seu rosto suavizando um pouco. – Então vamos te ajudar com isso. Não importa o quão complicado pareça, é o que amigos fazem, não é?
Anne deu um sorriso tímido, seus olhos se enchendo de um brilho que havia desaparecido nos últimos dias. Antes que ela pudesse responder Daphne, que estava sentada na mesa de centro próxima ao sofá, ergueu o queixo em um gesto de determinação.
– Na minha casa, temos uma biblioteca bem antiga. É o orgulho da família Greengrass — começou ela, o tom carregado de um orgulho contido. Aposto que há algo lá que pode nos ajudar a entender mais sobre o que você está passando.
Anne olhou para Daphne, seus lábios tremendo em um pequeno sorriso antes de ela assentir. – Você acha mesmo que pode ter algo lá?
– Se não tiver, pelo menos vamos tentar — respondeu Daphne, a voz suave mas determinada. – E, enquanto isso, podemos continuar as buscas na biblioteca daqui depois das férias. Sei que você já deve ter vasculhado tudo, mas... três cabeças pensam melhor do que uma, certo?
Anne sentiu o peito aquecer com a oferta sincera de ajuda. Era reconfortante não estar sozinha nisso, mesmo que as dúvidas ainda a consumissem.
– Obrigada. De verdade — disse ela, a voz carregada de gratidão. – Eu não sei o que faria sem vocês dois.
Theodore soltou um pequeno riso enquanto se recostava no sofá. – "om, enquanto isso, eu vou começar a praticar minha paciência. Porque tenho certeza de que Daphne vai transformar isso em uma operação militar. Ela vai nos fazer catalogar tudo até as últimas páginas.
– Muito engraçado, Nott retrucou Daphne, revirando os olhos, mas com um sorriso brincando em seus lábios. – Mas, sim, se for isso que for necessário, é exatamente o que vamos fazer.
Enquanto seus amigos se acomodavam no sofá, conversando sobre planos para as férias e como poderiam ajudá-la, Anne permitiu-se acreditar que talvez, apenas talvez, ela não estivesse tão perdida quanto pensava. E, acima de tudo, que não precisaria enfrentar tudo isso sozinha.
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