Notas iniciais
“Traga cigarros, um sorriso improvisado e um pano pra grama que caiba nada mais que nós dois.” (Campos de morango pra sempre, Gabito Nunes)

Roger se sentia como um adolescente – uma essência tênue e nostálgica subindo à sua cabeça e fazendo seu coração bater estupidamente mais rápido.

Victor subia os degraus de ferro de dois em dois à sua frente, confiante e despreocupado. Fatias de luz do sol sujas de poeira cortavam faixas em seu cabelo, roubando-lhe o tom verdadeiro. A corrente da chave da moto batia em sua coxa direita ritmadamente, convidando Roger a segui-lo prédio à cima.

– Assim você vai chegar lá fora amanhã – Victor olhou para ele por cima do ombro, apontando para o teto no final da escadaria.

Roger seguiu seu dedo com o olhar. Ainda havia um bom caminho até a portinhola que dava no telhado. Ele soltou um suspiro cansado, apoiando-se no corrimão carcomido pela ferrugem. Victor parou no próximo patamar, virando-se para lhe enfiar um grito de ânimo.

– Você quer ver o pôr do sol ou não?

– Acho que ainda dá tempo de ver o de amanhã – Roger brincou, respirando fundo para recuperar o fôlego.

Metade do prédio já tinha ido, mas a escada de caracol retangular parecia infinita. Ele tinha protestado desde o começo sobre haver maneiras mais seguras e menos cansativas de se assistir ao pôr-do-sol. No entanto, Victor o convencera com um sorriso torto, um pacote de suas cerejas favoritas e uma garrafa de vinho.

Era uma tarde daquelas nem quente nem fria, perdida na última semana de junho e no centro da cidade. Victor o arrancara de seu livro de estudos e do apartamento com toques insistentes na campainha, porém, curiosamente, ele não se sentia culpado de largar os estudos por algumas horas mesmo estando no meio das provas. A sugestão de passeio do dia era ridiculamente simples, mas com Victor até aquele prédio abandonado e sujo parecia mágico e convidativo – como se todas as células de seu corpo estivessem coçando para embarcar naquela invasão de propriedade.

Enquanto Roger forçava seu corpo sedentário a não desistir de galgar os degraus velhos, seus pulmões eram inundados por uma chama cálida de paixonite aguda e poeira – e mofo, muita poeira e mofo.

– Você é um fracote – Victor troçou, vários degraus à sua frente, enfiando uma mão no bolso traseiro do jeans.

Roger riu sarcástico, parando-se para um curto repouso na entrada de um apartamento depredado.

– O que aconteceu com a sua perna? – Àquela altura, ele julgou seguro perguntar.

– Como assim? – Victor tombou a cabeça de lado.

– Hm, sei lá. Você mancava na direita até uma semana atrás – Roger endireitou-se, continuando a subida.

– Ah – Victor remexeu-se, virando a perna em ângulos diferentes. Deu de ombros, como se não fosse nada. – Eu caí de moto um tempo atrás, nada sério. Ainda estava fazendo fisioterapia quando nos conhecemos.

– Ah – Roger assentiu, entendendo que aquela era a deixa para encerrar o assunto.

As paredes exibiam uma tinta amarela que descascava em grandes nacos, sujando o chão e viciando o ar. Pichações esporádicas brotavam entre as portas dos apartamentos velhos, ou no peitoril das janelas de ferro com seus vidros quebrados.

Quando finalmente alcançaram o telhado – após um bom pontapé na portinhola enferrujada –, o sol estava começando a descer entre os arranha-céus mais ao longe. Victor o puxou pelo pulso com urgência até a beirada do telhado.

– Olha só, dá para ver a Carmelita – ele apontou para a moto, que dali parecia um brinquedo, na rua paralela.

– Impressionante – Roger respondeu baixinho, evitando aproximar-se demais da mureta de concreto que o separava da queda de quinze andares até o beco sujo ao lado do prédio.

Eles estenderam um lençol velho sobre o chão irregular, sentando-se cada um de lado, e ajeitaram as cerejas e o vinho no meio.

– E as taças?

– Ah, Roger, por favor – Victor espalmou as mãos na coxa, fingindo-se profundamente indignado. – Eu já fui cavalheiro o suficiente para trazer cerejas. Você não podia realmente esperar que eu trouxesse taças.

Roger abafou o riso com as costas da mão.

– É, tem razão. Se tivesse trazido, não seria você.

– Fico feliz que chegamos a um consenso – Victor pescou um saca-rolhas do bolso da jaqueta, apanhando a garrafa de vinho pela garganta.

Roger o observou arregaçar as mangas, com os cabelos agitando-se contra as bochechas cobertas pela barba e as rugas na testa aparecendo pelo esforço. Reparou como os antebraços peludos eram acentuados pelas veias grossas e os dedos calejados pareciam já hábeis nessa tarefa.

Voilà — Victor estendeu a garrafa para frente e ergueu o saca-rolhas com uma expressão orgulhosa.

Roger bateu palmas com um sorriso de canto com o ploc da rolha ecoando em seus ouvidos.

– Meus parabéns.

Victor o reverenciou teatralmente, puxando o saco de cerejas para romper o lacre. Roger debruçou com toda a cautela do mundo sobre a mureta alguns centímetros às suas costas, observando os carros cortando a Avenida dos Bancos e a as calçadas pouco movimentadas de um domingo à tarde. Tudo parecia excepcionalmente fugaz, como se uma piscada de olhos pudesse o devolver para os gráficos complicados de seu livro de estudos.

– Você disse que gostava dessas, certo? Por favor, diga que são as certas – Victor chamou sua atenção, oferecendo-lhe uma cereja pelo cabo.

– Bem, se não for, você sempre pode descer aquele um milhão de degraus, montar na Carmelita e ir procurar as certas – Roger brincou, escolhendo o saco ao invés daquela única cereja.

– Você está ficando folgado.

– Tive um excelente professor – Roger devolveu, apanhando uma cereja pelo cabo entre o dedo indicador e o médio. – Diga “ah”.

Victor ergueu as sobrancelhas para ele, mas acabou cedendo sem nenhuma insistência a mais. Inclinou-se sobre o lençol com o peso do tronco apoiado em uma mão, abrindo a boca ao alcance da cereja.

– Bom garoto – Roger deixou que ele abocanhasse a fruta, puxando o cabo por entre seus lábios.

Eles assistiram o pôr do sol imersos em goladas no vinho doce e murmúrios contidos. Os dedos se entrelaçavam tímida e involuntariamente sobre o lençol, criando ondas no tecido. Os braços se roçavam – os pelos de Victor faziam cócegas na pele quase desnuda de Roger – naquele silêncio delgado compartilhado com uma serenidade pura.

Comichões dispararam do âmago de Roger até a ponta de seus dedos. E ali ele soube, verdadeiramente, o que era serendipidade.

Quando o sol estava dando seu derradeiro suspiro e o céu começava a escurecer, Victor voltou-se para ele com um sorriso suave. Naquele momento, contra todas as estatísticas e contra todo o seu histórico prático e cauteloso, Roger se deu ao luxo de rebelar-se contra si mesmo. Quase não percebeu quando suas voaram para o rosto de Victor e o puxaram para um beijo sôfrego.

Pela primeira vez desde o início dos beijos, era Roger quem dera a iniciativa. Mais tarde, quando ele revivesse o beijo em seu apartamento com as costas descendo pela porta de entrada, não saberia dizer se fora o vinho ou seus desejos ocultos lhe traindo a discrição.

– Uau – Victor suspirou quando as bocas se separaram. – Onde você estava guardando todo esse fogo?

Os cantos dos lábios de Roger se ergueram de modo encabulado e seu corpo estremeceu. Com todas as forças, ele queria jurar que era por conta do vento gélido do início da noite, mas sabia que o verdadeiro motivo era a parca essência de Victor que ele engolira no beijo.

– Está ficando meio frio – ele esfregou os braços exageradamente.

Victor apenas retirou a jaqueta de sarja bege e a colocou sobre seus ombros.

– Melhor?

Roger anuiu, ajeitando-se dentro da peça.

A garrafa de vinho acabou minutos depois, junto com as cerejas e os últimos raios de sol. Os dois deitaram-se de costas no lençol fino, remexendo-se desconfortáveis e tentando não ultrapassar os limites do tecido. Os ombros se roçavam, assim como os joelhos flexionados que cobriam parte da visam do céu.

– Acha que valeu a pena?

– Tenho certeza.

– Foi uma tarde boa.

– Foi uma tarde boa – Roger concordou com a voz baixa e rouca como a de Victor, como se estivessem trocando segredos, como se houvesse alguém para escutar.

– Por que você não me convida para dormirmos juntos?

Roger achou graça naquele convite indireto e indiscreto, mas surpreendeu a si mesmo quando entrou na onda.

– Você quer dormir comigo?

Victor ergueu o rosto acima do dele, apoiando-se nos cotovelos. Encarou-o pelo o que pareceu um oceano de segundos, depois voltou a deitar-se com os olhos para o céu arroxeado.

– Não.

– Ainda não é a hora? – Roger juntou as mãos sobre a barriga, esforçando para fingir indiferença.

– Ainda não é a hora – Victor respondeu solenemente, como se o assunto da conversa fosse uma dissertação filosófica morangos mofados, júpiter e saturno ou a conjunção da lua quase cheia. – Estou lutando contra meus vícios e desejos animalescos, praticando minhas virtudes.

– Aristóteles? – Talvez realmente fosse uma dissertação filosófica.

– Aristóteles.

O silêncio pairou sobre o piquenique torto por alguns minutos, então, sem motivo aparente, Roger e Victor explodiram em gargalhadas sinceras, virando-se um de frente para o outro. E se beijaram. E se aninharam um no abraço do outro sob a noite fria de junho.

Victor tinha um gosto agridoce como o deu um morango e suas roupas cheiravam à nicotina cara e fina.

Talvez, Roger pensou, o amor deles fosse sobre cigarros e morangos mofados.

Notas finais
“– O que é o amor pra você? — Não sei, talvez seja apenas dividir cigarros em uma noite, embriagados por vinho. E sentir que o mundo pode estar acabando, mas você continua fumando e rindo para o outro. Sim, talvez isso seja o amor.” (Ariela Venâncio)