Entre as estrelas
1 Entre as estrelas - Capítulo único
Notas iniciais
Eu queria dar mais números para a curta vida de Augustus Waters. Eu também queria ter mais números, mas o mundo não é uma fábrica de realização de desejos.
A vida humana não é infinita, isso já é muito óbvio. Podemos morrer a qualquer momento e nunca se sabe quando e como. Eu lembro de quando conheci o Gus, ele havia dito que estava em uma montanha-russa que só subia. Naquela época ele pensava que estava bem, que seus problemas com o câncer haviam acabado. Imagino que ele quis dizer que a vida é como uma montanha-russa que só vai para cima, mas quando faz uma curva e desce, é porque falta pouco para a sua diversão acabar. Meu carrinho deu a curva a partir do momento em que fui diagnosticada. Aos poucos foi descendo, fazendo curvas, me dando a diversão que eu queria. Mas infelizmente chegou a estação.
Como assim? O que aconteceu?
O lado bom é que não preciso mais de tubos para respirar. O lado ruim é que tive que deixar os meus amigos, os meus pais, tudo que eu amava. Você já deve saber o que aconteceu, não é?
Consegui viver por mais três anos. Foi uma vida boa e curta. Já estava fraca, todos sabiam que já havia chegado a minha hora. Meus pais, meus amigos e até mesmo os pais do Gus estava reunidos à minha volta em meu quarto. Queria partir em um lugar familiar. Não tinha mais como adiar a morte.
Todos se despediram em lágrimas, como se eu fosse partir para longe. Escreveram cartas e fizeram elogios fúnebres. Estava triste por ter que abandonar aqueles que amava, mas não poderia fazer mais nada. Disseram que eu vivi por mais tempo do que o esperado, mas estava satisfeita por ter aproveitado o máximo que pude.
A morte foi tranquila. É como cair num sono profundo. A partir daí eu tive um sonho. Mas não era exatamente um sonho, eram lembranças de tudo o que vivi. Mas o meu foco era principalmente em Augustus Waters, o garoto que me ensinou a aproveitar a vida.
Quando abri os olhos, estava em meu quarto, sem os tubos, e podia respirar com tranquilidade. Todos ainda estavam ali chorando ao redor de minha cama. Aproximei-me e vi a mim mesma deitada na cama. Parecia estar dormindo em um sono eterno.
Quanto a mim, era apenas um espírito. Estava surpresa, pois pensei que iria para a luz ou algo do tipo. Mas lembrei de ter lido uma vez que espíritos que não seguem para a luz tem algo pendente na terra.
O problema é que eu não sabia o que era.
Observei meus pais por um longo período. Vi eles seguirem em frente, aos poucos superando o luto. Vi minha mãe chorar durante a noite nos primeiros meses. Foi triste, pois queria estar lá para consolá-la. Aproximei-me de sua cama e toquei em seu rosto mesmo sabendo que ela não poderia me ver ou sentir, pois minha alma atravessava seu corpo. Mas aquele singelo gesto conseguia trazer-lhe a tranquilidade de que ela precisava. Talvez a presença de meu espírito trouxesse conforto para ela.
Como estava farta de minha vida monótona como fantasma, fui procurar por algo que me ajudasse a encontrar a paz. Mas o que seria? Comecei a andar pelas ruas em busca de algo. Um sinal, talvez? Eu podia voar, mas queria aproveitar que também podia andar sem uma máquina de oxigênio colada em mim.
Decidi ir para algum lugar que me trouxesse lembranças maravilhosas. Fui para a clareira com a escultura de esqueletos onde eu e Gus costumávamos ir para passar o tempo juntos. Perguntava-me se ele já havia encontrado a paz, pois nunca o encontrei em nenhum momento desde que morri. Sentia a falta dele. Esperava que depois que eu morresse, o encontraria esperando por mim. Mas não foi como imaginei.
"- Tem duas coisas que eu adoro nessa escultura — o Augustus disse. Ele segurava o cigarro apagado entre os dedos, dando batidinhas nele como se descartasse as cinzas. E o colocou de novo na boca. — Em primeiro lugar, a distância entre os ossos é tal que, se você é criança, não consegue resistir a tentação de pular entre eles. Tipo, você simplesmente tem que pular da caixa toráxica até o crânio. O que significa que, em segundo lugar, essa escultura essencialmente força as crianças a brincar nos ossos. As ressonâncias simbólicas são infinitas, Hazel Grace.
— Você gosta mesmo de símbolos — falei, na esperança de conduzir a conversa de volta na direção dos muitos símbolos da Holanda presentes em nosso piquenique."
Essa lembrança foi... incrível. Foi o dia em que Augustus decidiu dividir seu desejo comigo para que pudéssemos viajar para o Amsterdã, conhecer o Peter Van Houten e saber como terminaria o livro Uma Aflição Imperial. Eu estava tão feliz, não só por viajar para um outro país e conhecer o meu escritor favorito — que na verdade descobri ser um idiota justificável -, mas por tê-lo ao meu lado.
Eu gastei o meu desejo para ir à Disney, o que na opinião dele foi um absurdo. Eu fui precipitada, tinha apenas 13 anos. Naquela época eu nem pensava em ler Uma Aflição Imperial. Em nenhum momento me arrependi de meu desejo, pois aquela foi a melhor viagem de minha vida; ou talvez a segunda melhor, já que a viagem com o Gus também foi uma das melhores.
"- Ai meu Deus! — o Augustus disse. — Não acredito que eu esteja a fim de uma garota com desejos tão clichês."
"-Na verdade, eu me diverti muito naquela viajem."
Sorri ao me lembrar disso.
"- Eu não poupei o meu desejo — falei.
— Ah — ele disse. E, então, após o que me pareceu uma pausa calculada, acrescentou: — Mas eu poupei o meu.
(...)
— Augustus, isso é sério?
Ele estendeu o braço, tocou minha bochecha e, por um instante, pensei que iria me beijar. Meu corpo todo ficou tenso, e acho que ele percebeu, porque afastou a mão.
— Augustus — falei. — Sério. Você não precisa fazer isso.
— Claro que preciso — ele disse. — Eu encontrei o meu Desejo.
— Cara, você é demais — falei para ele."
Fantasmas choram? Parece que sim, pois não conseguia conter aquelas lágrimas fantasmagóricas. Sentia falta de seus beijos, de seu toque, de seu amor, do nosso pequeno infinito. O que eu poderia fazer para encontra-lo novamente?
— Eu sinto sua falta, Gus. Onde você está? — Disse olhando para o céu, esperando algum sinal milagroso. Já estava impaciente. Não queria acreditar na possibilidade de ele ter partido sem mim...
Uma sensação estranha me preencheu. Toquei onde deveria estar meu coração. Ele pedia para que eu seguisse um único caminho. Aquele que me levaria para a felicidade. Arfei, sentindo minha alma iluminar-se em esperança. Será que é possível? Aquele era o meu tão esperado sinal? Comecei a correr em busca do meu destino. Senti a liberdade que nem me lembrava de ter aproveitado. Então eu voei.
Voei para um lugar distante e bem familiar. Um lugar que não havia procurado ainda, mas eu sabia. Passei pelos mesmos caminhos que seguíamos quando nossas almas ainda eram unidas aos nossos corpos. Éramos realmente um casal apaixonado e isso ficaria sempre registrado naqueles monumentos.
Parei em frente a casa de Anne Frank. Respirei fundo e entrei. Mais uma onda de lembranças me inundaram. O nosso primeiro beijo foi sem dúvidas a lembrança mais marcante naquele lugar. Eu era apaixonada por ele. Eu sou apaixonada por ele. Como poderia aceitar a morte se não o teria ao meu lado? Onde ele estaria? Não queria passar a eternidade sozinha e invisível.
Eu queria encontrar o meu paraíso, queria vê-lo. Ele era o meu paraíso. Precisava dele.
"- Estou apaixonado por você — ele disse, baixinho.
— Augustus — falei.
— Eu estou — ele disse, me encarando, e pude ver os cantos dos seus olhos se enrugando. — Estou apaixonado por você e não quero me negar o simples prazer de compartilhar algo verdadeiro. Estou apaixonado por você, e sei que o amor é apenas um grito no vácuo, e que o esquecimento é inevitável, e que estamos todos condenados ao fim, e que haverá um dia em que tudo o que fizemos voltará ao pó, e sei que o sol vai engolir a única Terra que podemos chamar de nossa, e eu estou apaixonado por você."
Enxugava as lágrimas teimosas. Eram muitas memórias que eu sempre guardaria para mim, mesmo sendo em minha alma, meu coração simbólico. Mesmo que eu não estivesse mais viva, essas lembranças seriam sempre eternizadas por mim.
"Gus, meu amor, você não imagina o tamanho da minha gratidão pelo nosso pequeno infinito. Eu não o trocaria por nada nesse mundo. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados, e sou muito grata por isso."
— Hazel Grace?
Aquela voz era real? Ou mais uma memória? Virei-me lentamente para olhá-lo. Seu espírito era puro e reluzente. Os olhos penetrantes assim como na primeira vez que nos vimos me encaravam tão gentilmente, que eu queria correr para abraçá-lo e enchê-lo de beijos, mas meu "corpo" estava estático no mesmo lugar. O sorriso torto e as mãos nos bolsos da calça jeans escura fizeram-me ter um déjà-vu. Ele estava da mesma forma de quando o conheci.
— É você mesmo? — perguntei. Tinha que ter certeza de que era real.
Ele deu uma risada baixa. Dava passos na minha direção lentamente. Seu modo de andar me fez perceber que ele estava inteiro. Era como se ele nunca tivesse perdido a perna.
— Augustus? Você... está aqui.
— Estava te esperando. Seu espírito é mais brilhante do que eu poderia imaginar.
— Você estava aqui esse tempo todo? — Perguntei, colocando a mão na cintura.
— Passei os últimos meses no Amsterdã, guardando em minha memória cada momento de minha vida. Também esperava você me encontrar. Queria que você seguisse seu coração. Queria saber se estávamos ligados, mesmo depois da morte. E cá estamos nós. — ele disse, levantando os braços e alargando o sorriso.
Balancei a cabeça com descrença, não conseguindo conter um sorriso no rosto. Estava realmente feliz por vê-lo de novo.
— E você escolheu a Casa de Anne Frank para que pudéssemos nos encontrar?
— Aqui está uma das nossas memórias mais marcantes, não é mesmo? — Ele me olhou. Aqueles olhos... brilhando com a lembrança, compartilhando daquele momento nostálgico.
Gus chegou mais perto de mim. Tão perto a ponto de nossos rostos estarem muito próximos. Segurou meu rosto, para aproximar meus lábios dos seus. Um beijo que conseguiu preencher o meu vazio. O meu espirito cintilava de alegria. Tudo ao nosso redor brilhava.
Sentia nossas almas serem puxadas para um outro lugar. De repente não estávamos mais na Casa de Anne Frank.
Por que estávamos ali?
— Eu queria estar aqui pela última vez, ao seu lado — respondeu como se pudesse ler meus pensamentos. Voltamos para a clareira com a escultura de esqueleto. Ele se deitou na grama verde e olhou para o céu. Deitei ao seu lado aproveitando o máximo que podia daquele momento, já que tínhamos a eternidade juntos. Nós éramos dois espíritos agindo como humanos.
— O que esteve fazendo durante esses três anos? — Comecei a minha sessão de perguntas.
— Bom... eu consegui ver o meu velório. Seu elogio fúnebre foi bem diferente de quando estávamos na igreja. — Falou olhando-me de forma acusadora. Depois deu um sorriso lindo e brilhante.
— Mas é claro que não. Eu ainda estava muito afetada. — falei cruzando os braços. — Citei um monte de encorajamentos... Achei que aquele elogio poderia ser só nosso. Mais ninguém poderia saber, só você... e o Isaac — rimos e ele beijou minha bochecha. Se eu fosse humana, teria ficado corada. Ao invés disso, minha alma cintilou.
— Eu lhe observei todas as noites, Hazel Grace. Você dormia tão lindamente, que eu muitas vezes gostaria de invadir seus sonhos para falar com você. Deitava ao seu lado, como quando ainda éramos humanos. Lhe trazia a paz que precisava. — O que ele disse fazia sentido. Lembro de vez ou outra sentir-me tranquila, como se sentisse uma paz sobrenatural. Era bom saber que nunca estava sozinha.
— Agora estamos juntos, para sempre. — Falei confiante.
— Sempre. — Ele me olhou carinhosamente.
Um minuto de silêncio entre nós. Um silêncio pacífico. A palavra sempre ecoava, fixando a nossa promessa. A eternidade.
— Por que você ficou? Por que não seguiu para a Luz? — Essa era uma pergunta que não queria calar.
— Não consegui. Não poderia seguir sem você. Você era algo pendente na Terra. Te esperei por todo esse tempo para que pudéssemos seguir em frente juntos.
Fiquei satisfeita em ouvir isso. Acredito que o destino queria que nós partíssemos juntos. Augustus Waters também era meu algo pendente. Agora que nós nos encontramos, poderíamos seguir para o nosso infinito.
O sol desapareceu no horizonte, dando lugar á escuridão da noite. As únicas luzes que iluminavam o céu eram as estrelas.
—Está quase na hora de partirmos. Está pronta?
Era definitivo. Teria que deixar tudo para trás, amigos, família. Não tinha mais volta. Mas eu poderia encontrar a paz junto com Gus. Ele estendeu sua mão para mim para que pudéssemos ir juntos.
—Estou pronta. — Segurei sua mão, e sorri.
Algo muito forte se iluminou dentro de mim assim que disse tais palavras. E me vi voar para as estrelas de mãos dadas ao amor de minha eterna vida.
Podia tocar as estrelas, seguindo para um lugar que poderia chamar de paraíso. Não conseguia parar de sorrir.
— Agora é pra valer, a eternidade, o infinito. Okay? — Perguntou.
— Okay.
E assim, nos misturamos às estrelas. Finalmente encontrando a paz.
*
*
*
“Me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra.”
"Eu te amo no presente do indicativo."
"-Estou numa montanha-russa que só vai para cima — falou.
—E é meu privilégio e minha responsabilidade seguir nessa montanha-russa até o topo com você — retruquei.”
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