Entre as Cortinas Dramione
4 Você Sabe Quem
Notas iniciais
— Você está mais corada, suas bochechas finalmente estão com cor. Parece até mais viva. — Gina disse sem pensar, enquanto Hermione automaticamente sorria com a ironia daquela última frase. — Oh meu Deus! Me desculpa, Mione!
Finalmente estava lá e era palpável: o constrangimento com o assunto proibido. Ela estava internada no hospital bruxo há uma semana. Gina e Harry a visitaram todos os dias, em ambos os horários de visita, tarde e noite, religiosamente. Nenhum dos amigos falava a respeito de sua tentativa de suicídio, e quando tinham que se referir ao mesmo, utilizavam pronomes e adjetivos, como por exemplo, “aquilo que aconteceu” ou “o ocorrido”. Ela e seu desejo por desaparecer haviam se tornado uma espécie de subnome, como aquele usado para designar Voldmort, outrora chamado de você sabe quem. Seu suicido havia se tornado uma espécie de você sabe quem. Se chamá-lo pelo nome talvez subitamente ele voltasse a aparecer.
Hermione observou Gina de soslaio: profundos vincos de preocupação marcavam seu rosto, enquanto ela andava de um lado para o outro, ao longo do quarto, arrumando uma mala, abrindo janelas, verificando gavetas e sabe-se lá Deus o que mais, afim de não pensar sobre o que acabará de dizer. Naquela manhã havia recebido a notícia de que poderia voltar para casa, já estava fora de risco e o simpático médico que a acompanhou ao longo dos dias acreditava que o ambiente hospitalar era tudo, menos saudável. Gina e Harry vieram buscá-la naquela tarde, o amigo estava do lado de fora do quarto, conversando com uma enfermeira sorridente. Quando Gina ameaçou abrir pela terceira vez o criado mudo ao lado de Hermione, afim de ocupar mente e mãos com algo que já sabia estar vazio, Hermione freou seu movimento, segurando os dedos finos e brancos de sua amiga.
— Gina, para com isso. — Hermione tentou sorrir. — Senta aqui comigo.
A outra titubeou por alguns segundos, franzindo ainda mais a testa como se estranhasse a capacidade de Hermione de ainda sorrir ou falar. De fato, desde que tudo ocorreu, Hermione havia falado ou sorrido tão pouco, que ponderou se o susto de Gina não era exatamente esse. No entanto, em um suspiro de rendição, a ruiva se sentou ao seu lado, na cama ainda desarrumada.
— Está vendo a enfermeira lá fora conversando com Harry? — Hermione perguntou, direcionando seus olhos para a fresta da porta que permitia acompanhar com dificuldade o que ocorria do lado de fora. Gina balançou a cabeça positivamente. — Enquanto você conferia a mala pela milésima vez, eu tentei ler os lábios dela para saber o que tanto dizia. Consegui entender algumas frases soltas... Ela está dizendo ao Harry o que deve ser escondido de mim. Facas, comprimidos, qualquer coisa que me ofereça oportunidade... — As palavras morreram na boca. Gina arregalou os olhos e suas mãos, que ainda estavam juntas as de Hermione, seguraram mais firme as da amiga. — Aquela senhora está fazendo uma lista de coisas que meu melhor amigo terá de esconder de mim, Gina. Desde o dia em que acordei após tomar os remédios e vi que não tinha conseguido me matar, eu só consigo pensar na dor que causei e estou causando em vocês. Isso quer dizer que eu nunca mais farei isso, porque percebi que se vocês são capazes de me causar tanto pesar e vergonha, talvez também sejam capazes de me curar um pouquinho.
Gina abriu a boca e a fechou duas ou três vezes, tanto havia para saber ser dito que eleger quais eram as prioridades parecia impossível. Hermione prosseguiu:
— Isso quer dizer que você pode falar comigo sobre o que aconteceu da forma que quiser, tá tudo tão difícil já, essa vergonha e tato de vocês só vai tornar tudo ainda mais difícil. Por favor, eu sei que não tenho direito de pedir nada, mas não torne isso mais difícil.
Gina sorriu e entendeu: sua amiga jamais estaria de volta. Uma parte de Hermione havia morrido. Não no momento em que ela tentou se suicidar, mas sim antes, quando voltou para casa vitoriosa da guerra e descobriu que seus pais estavam mortos há mais de dois meses. O que restava a ela, Harry e Rony era se habituarem e germinar igual carinho e cuidado por essa nova Hermione, cheia de cicatrizes profundas que, Gina poderia jurar, eram quase visíveis.
— Para alguém que encheu a cara de remédio e sangrou como uma porca, no processo quase matando seus amigos de susto e manchando irremediavelmente a blusa preferida da amiga, você até que tá bem Granger. — disse por fim, rindo largo quando ouviu a tímida risada de Hermione em resposta a provocação.
Não houve tempo para uma tréplica, Harry adentrou o quarto com um sorriso de satisfação, internamente orgulhoso por ser oficialmente o responsável por Hermione. A mesma havia pedido para que ele cuidasse de toda a papelada do hospital, assinando sua alta e buscando as fórmulas para as poções antidepressivas que Hermione deveria voltar a tomar, com doses ajustadas. Era o que desejava mais do que qualquer outra coisa: cuidar de Hermione e garantir que ela, para o resto de sua vida, estivesse segura. No entanto, e essa era a pergunta que se fazia todos os dias ao acordar e antes de dormir, como defender Hermione dela mesma? Sacrificaria qualquer espécie de paz para este fim.
— Está tudo certo Mi, podemos ir. — Disse, ajeitando os óculos que teimavam em descer até a ponta do nariz. Depois, sem esperar resposta, recolheu a mala de Hermione e uma outra bolsa, que recordava vagamente pertencer à Gina.
— Vocês podem me deixar em casa antes de irem embora? — Hermione perguntou, reunindo forças para retornar para casa e, desta vez, com a ambição de uma real melhora de sua saúde física e mental.
— Você está louca? — A voz de Harry saiu mais séria e irritada do que ele imaginou, não queria ser rude mas não soube ser gentil. O sorriso que carregava morreu em seus lábios finos e, agora contraídos.
— O que quer dizer?
— Hermione você vai para minha casa. Não há a mínima possibilidade de que eu te deixe sozinha ou que você fique na casa de seus pais. — Dois passos a frente e ele estava mais próximo de sua amiga, demonstrando toda sua insatisfação na possibilidade de que ela voltasse para casa. Gradativamente, uma espécie de pânico se apoderava de sua mente, ao imaginar que tudo poderia acontecer novamente. Um novo descuido seu, uma falta de visita ou telefone e Hermione desacordada no piso escuro do banheiro novamente.
— Harry, eu... — Suspirou fundo. Prometeu para si mesma durante todos esses dias. Acabará de prometer para a Gina: iria tentar. Pensou mais um pouco e concluiu que não haveria tentativa alguma se retornasse para a casa onde absolutamente tudo lhe lembrava motivos para desistir. — Está certo, você está certo.
Harry sorriu e se surpreendeu, iniciada a conversa acreditou que a resistência seria maior e, no entanto, ainda que escondida, lá estava a Hermione sempre capaz de surpreender. Gina sorriu mas resolveu não se pronunciar, ao contrário, segurou firme um dos braços de Hermione, garantindo que ela estivesse segura caso suas pernas falhassem, metaforicamente ou não. Não aconteceu. Hermione caminhou firme, inclusive parando para agradecer todas as funcionárias que a ajudaram ao longo de sua estadia no velho hospital.
E de repente, como se estivesse aparatado naquele exato momento no fim do corredor mal iluminado, lá estava ele. Automaticamente, apertou mais firme um dos braços de Gina que a apoiavam, cravando os olhos na figura pálida e sombria que Malfoy gradativamente se tornou. Quase se esqueceu da possibilidade de presença do rapaz naquele ambiente. Hermione pediu para que Harry conversasse com a diretoria do hospital, a fim de que trocassem seu acompanhante. E então, ao longo de todos os dias e noites em que esteve internada não havia voltado a vê-lo. Mas agora ele estava lá, anotando algo na ridícula caderneta que carregava consigo. Draco ergueu a visão, provavelmente notando a movimentação no corredor, e então os olhos de Hermione se chocaram com seus.
A troca de olhares durou segundos, Hermione desviou o mais depressa que pode pois decididamente qualquer contato com Malfoy lhe fazia mal. De fato, suas pernas bambearam pela primeira vez naquele dia, como se numa espécie de feitiço o rapaz lhe tivesse tirado as forças reunidas com tanto custo. Draco entrou na primeira porta que encontrou aberta, se escondendo dos olhares de Harry e Gina, incapaz de lidar com o misto de sentimentos que aquelas pessoas lhe causavam e transmitiam. O incomodo era físico, ele quase podia sentir o ar entrar e sair com menor facilidade. Se escondeu em uma enfermaria vazia, até se assegurar de que eles haviam partido. Através das cortinas, viu quando a sangue ruim e seus ridículos amigos aparataram, no pátio vazio e repleto de folhas secas do hospital. “Que saiam no inferno.”
A nova casa de Harry, que ficava estrategicamente perto da casa da família Weasley, era aconchegante e tranquila. Um jardim de grama baixa estendia-se por alguns metros e uma frondosa árvore fazia sombra larga próxima a entrada da casa. A casa de dois andares era branca, com janelas contornadas de azul. Harry não havia comprado muitos móveis e a casa estava relativamente vazia. Não havia sofás, toalhas ou artigos de decoração. O coração de Hermione se encheu de um sentimento quente quando, ainda assim, o quarto de hospedes abrigava uma cama e armário, comprados às pressas para a chegada de Hermione, segundo Gina.
Ao chegar, Hermione se despediu dos amigos e trancafiou-se no quarto mobiliado para ela. Quando se viu sozinha chorou grossas lágrimas, como acontecia todos os dias, com tantas saudades de tudo que remetia ao passado, não seria capaz de exprimir. Naquele dia, em especial, chorava a falta de Rony, que não a visitou um único dia sequer no hospital. Adormeceu entre as lágrimas, vendo através da janela o sol se pôr, lentamente.
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Ouviu distante a porta se abrir e passos cuidadosos se aproximarem, abriu os olhos e notou certo incomodo, provavelmente estavam inchados pelo choro. Ela já se habituara com eles assim, no entanto, deveria se atentar agora que conviveria com outros seres humanos.
— Você andou chorando? — Harry se sentou na beirada da cama, descansando uma mão nos ombros de sua amiga. Não necessitava resposta, ele a ouviu chorar e não soube o que fazer, se sentiu um pedaço de porcaria nas horas que se seguiram, principalmente por dificilmente saber o que fazer com aquilo tudo que sua vida e de seus amigos havia se tornado.
— Me desculpa Harry... É só que... A vida é tão injusta entende? — novas lágrimas rolaram e ela nem ao menos se esforçou para segurá-las agora. Necessitava dizer pelo menos um terço do que se passava em seu interior. – Eu só... Meus pais se foram e eu não fiz mal a ninguém, perdi meus amigos... É tudo tão injusto! — Agora suas palavras não despejavam apenas mágoa, havia raiva, desgosto e amargura misturados. As frases não se conectavam entre si, se fragmentavam como a própria mulher que as pronunciava. – Os pais daquele maldito do Malfoy estão vivos e apoiaram toda essa merda! E eles estão bem! Os meus... Os meus pais...
— Mione...
— Eu sei! Eu sei que não deveria pensar isso, eu não quero me tornar isso Harry. — Esfregou com força os olhos e o rosto todo. Novamente aqueles pensamentos a invadiam. Vez ou outra eles retornavam, se sentia retaliada de tantas formas possíveis que não conseguia se desvencilhar do pensamento mesquinho e daquele exemplo da injustiça do mundo, em especial.
— Hermione, os pais de Malfoy estão mortos. Foram assassinados duas semanas após o fim da guerra, provavelmente como uma retaliação. Estavam saindo de uma loja no beco diagonal, ninguém sabe ao certo, se souberem também ninguém quer se envolver. Uma investigação está sendo feita, muita gente tem certeza que foi o Dino Thomas. Achei que você sabia.
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