Notas iniciais
Lembrem-se, embora na imagem original um dos personagens represente a vida eu quis fazer algo diferente.

Novamente o mesmo sonho. Já perdi a conta de quantas vezes eu o tive. Embora eu não consiga descrevê-lo em detalhes posso saber que já o tive pois ela estava nele. É quase um déjà vu, um do tipo que você não quer que acabe, embora saiba que isso não está em suas mãos.

Ainda com um pouco de sono esfreguei meus olhos e estiquei meus braços dando um alto bocejo enquanto me espreguiçava. Eu sento em minha cama e ao olhar ao meu redor percebi que meu quarto estava muito escuro. Como eu não queria tropeçar no meio do caminho em busca do interruptor resolvi por meus óculos que ficavam ao lado da minha cama. Mas para minha surpresa ao esticar meu braço não havia nada ao meu lado e eu acabei caindo da cama. “Ai.” pensei. Notei mais uma coisa estranha: no meu quarto havia um pequeno tapete áspero vermelho ao lado de minha cama, mas onde eu caí só pude sentir o gélido e duro piso de azulejo.

De repente uma luz se acendeu. Eu não estava em meu quarto, na verdade nem sei onde eu estava. O lugar era uma sala de piso branco com apenas uma porta e uma janela, ambas fechadas. No lugar das paredes apenas um branco infinito.

— Que diabos está acontecendo?

Só aí que notei que mesmo sem óculos eu conseguia enxergar ao meu redor.

Com medo do que poderia estar acontecendo comecei a chamar ajuda. Ninguém veio. Então com um pouco de receio me levantei e fui em direção a porta vermelha. Suspirei duas vezes e encostei na maçaneta. Sem tempo para sequer rodá-la um brilho forte ofuscou meus olhos. Quando os abri eu estava parado no meio da minha da rua. Ao olhar para trás vi que a porta ainda estava lá, mas fechada. Ao abri-la só pude ver o outro sentido da rua. Rua esta, deserta. Nem um suspiro, nem um riso, nem um pio, nenhuma alma.

— Olá? — dei um passo para frente e ouvi um estalo. Embaixo de meus pés havia uma poça d’água que refletia minha. Eu não usava mais meu pijama. Eu estava vestindo uma calça de moletom e uma jaqueta marrom. Em meu antebraço esquerdo havia o símbolo de Yin Yang tatuado. Nunca havia feito uma tatuagem sequer na vida. E o mais estranho: sobre mim havia uma estranha aura preta, que deixava todo meu corpo parecendo uma sombra.

Belisquei meu braço. A sensação de dor me mostrava estar acordado. Joguei a água da poça várias vezes em meu rosto. Mas nada.

De repente ouço uma risada ao longe.

— Alguém aí? Preciso de ajuda! — outra risada. Ela vinha de uns metros mais a frente na mesma rua.

Comecei a correr em sua direção. Correr muito. Eu tropeçava nas poças e caía sobre o áspero asfalto, mas isso por algum motivo não me machucava. Conforme caminhava percebia que o tempo não passava. Havia várias folhas de árvores simplesmente flutuando no ar. As gotas d’água que espirravam conforme eu pisava sobre as poças permaneciam paradas como pequenas estalagmites de gelo — no caso no seu estado líquido. Alguma gotas de chuva permaneciam paradas no céu alaranjado de fim de tarde. Qual era o motivo para tudo isso?

De repente percebi um forte brilho vindo da minha frente. Conforme me aproximava uma fragrância de flores recém-colhidas entrava pelas minhas narinas me acalmando e me fazendo ir mais devagar. Então um obstáculo surge em meu caminho: um caminhão parado na frente de uma imensa pilha de flores coloridas. A fragrância vinha delas.

— Olá de novo! — uma voz feminina soou no ar vindo de minhas costas. Ao me virar não vi nada — Na sua frente, bobinho. — deu a mesma risada de antes. Sobre o capô do automóvel havia uma garota ruiva da minha idade sentada para o lado do motorista enquanto balançava as pernas. Seu vestido sem mangas era verde-água, assim como suas sapatilhas e seus olhos, estes um pouco mais claros.

— Como você fez isso?

— Isso não importa. Aquela é sua casa certo? — ela aponta para uma casa de madeira azul com uma pequena varanda na entrada, assim como as outras do bairro.

— Na verdade sim… espera por que você está me perguntando isso?

— Desculpa, eu sempre te pergunto isso e sempre esqueço não é? — riu enquanto colocava uma das flores no cabelo.

— Mas… eu nem te conheço…

Seu rosto mostrou uma expressão triste. Me arrependi de ter comentado aquilo.

— De qualquer forma, qual seu nome?

— Meu nome? Eu não tenho nome.

— Como assim? Ninguém te deu um nome quando nasceu? — outra expressão triste — Ah desculpe…

— Oh não! Não é isso que você está pensan… — de repente ele começa escorregar do capô e cai para o meu lado. Sem pensar duas vezes fui em sua direção para segurá-la. Mas ao me abaixar ela tinha sumido — Não me toque! Por favor! — a voz assustada vinha novamente atrás de mim. Ao me virar pude vê-la flutuando de cabeça para baixo a um palmo de meu rosto. Eu ia gritar, porém o perfume das flores me deixava tão tranquilo que nenhum som ou expressão saiu do meu rosto.

— Desculpe, mas fiz algo errado?

— Não! Apenas não me toque, ok?

A garota era realmente estranha.

— Oh ainda não me apresentei. Meu nome é…

— Eu sei quem você é. A gente já se conhece. — me interrompeu.

— Desculpe mas eu não consigo me lembrar.

— E nem deve! Se você se lembrar você vai se esquecer!

— Não entendi.

— Não precisa entender. — ela se abaixou e pegou outra flor. Colocando os dois pés no chão e enrolando suas mãos nos próprios cabelos ela colocou a flor em minha orelha. — O meu cabelo você pode encostar.

Quanto a flor tocou minha pele senti algo estranho em minha orelha esquerda. Ao olhar para uma poça sob meus pés percebi que na região onde a flor estava a aura havia sumido e as cores da minha orelha tinham voltado ao normal. Peguei outras flores do chão e minhas mãos voltaram ao normal. Ao soltar a aura lentamente voltou a envolver minha mão e suas cores começaram a desbotar.

— O que são elas?

— Elas representam a alegria e todos os sentimentos bons de sua vida. A aura negra que lhe envolve são a tristeza e os sentimentos ruins como o medo. As flores fazem a aura ir embora de sua vida, mas sem elas a sua vida se torna obscura e triste.

— Nossa… — lembranças de meu passado passaram pela minha mente. Nunca me considerei feliz. Tive depressão durante a maior parte da minha adolescência e nesse ano tive outra decaída. Quando eu toquei as flores pude sentir uma sensação tão boa e ao mesmo tempo tão nova sendo absorvida pelo meu corpo. Queria poder ter sentido isso pelo menos uma vez antes.

— Ei. — ela tocou minhas orelhas com as mãos enroladas no cabelo — Não vale a pena recordar lembranças ruins do passado. — ela sorriu para mim.

— Onde que eu te conheci?

— Aqui mesmo.

— Mas quando?

— Agora.

— Mas você disse que já me conhecia?!

— Sim.

— Então… como?! — comecei a ficar nervoso. A flor que estava em minha orelha murchou e caiu sem cor no chão.

— Já te falei que você não pode lembrar! — ela soltou minha cabeça e se teleportou para cima das flores e tentou por outras em mim, mas, sem encostar em sua pele, eu segurei o seu braço envolvido pelos seus fios ruivos e a impedi. A flor em sua mão também murchou.

— Por quê?!

— Se você lembrar vou ser obrigada a apagar! — disse brava e com algumas lágrimas no rosto.

— APAGAR O QUÊ?!!

— Sua memória, tolo! — ela se ajoelhou no chão e começou a chorar sobre as outras flores agora sem cor. As suas lágrimas eram avermelhadas como sangue, e elas pintavam as mesmas flores no chão.

Me sentei ao seu lado e puis a mão sobre seu ombro com cuidado para não tocar além do cabelo.

— Por que todos querem me deixar? — ela dizia tapando o rosto.

Mantei-me em silêncio.

— Todos querem me evitar, todos sempre me odiaram, sempre falaram mal de mim. Nunca me quiseram por perto. — as suas lágrimas já haviam deixado quase todas as flores vermelho sangue — Sempre que eu tentava me aproximar de alguém e tocar nela, ela desaparecia. As pessoas ao redor sempre que me viam começavam a chorar e gritar com desespero em ódio. O que eu fiz para essas pessoas? Por que elas me odeiam? — ela enxuga seu rosto, deixando o borrado de vermelho — Eu só queria ser feliz como vocês! — ela levantou seu rosto e olhou para mim. Ela estava diferente: seus olhos antes verdes agora eram vermelhos como tinta, sua esclerótica estava negra, assim com seu vestido.

Dei um leve sorriso:

— Você também é solitária como eu, certo? — ela concordou com a cabeça. Todo chão estava borrado de sangue, inclusive o caminhão. Parecia que alguém foi atropelado ali — Você é um fantasma, não é?

— Um fantasma?! Não! Eu não estou morta, você é que está!

Eu paralisei por alguns segundos.

— E...eu?

— Quer dizer, não! Você ainda está vivo! Não se preocupe com isso, esqueça o que eu disse!

Eu peguei algumas flores do chão e segurei seus punhos.

— Me diga a verdade: o que está acontecendo e quem é você?!

Ela suspirou:

— Não será dessa vez que ficaremos juntos para sempre, certo? — disse com a voz trêmula dando um leve sorriso — Uma pessoa como eu não pode se apaixonar, sabe? Vida e morte não conseguem se unir sem que uma afete a outra. Aqui é muito solitário sabe, sem ninguém para conversar, compartilhar as tristezas e as alegrias. Então sempre que eu encontrava alguém que também se sentia assim eu tentava dar um jeito de nos unirmos, mesmo sabendo que se eu a tocasse ela poderia sumir. — ela fez uma pausa de alguns segundos enquanto o vento que só agora ventava balançava seus cabelos — Então eu as trazia para cá. Onde eu e a vida poderíamos interagir, pois quem vem até aqui está a poucos passos de me tocar, mas sem soltá-la. — outra pausa — Mas uma hora ou outra elas se vão. Ou para o meu lado, ou para o dela. E eu volto a ficar só. Esquecida.

— Foi por isso que você me trouxe aqui?

Ela deu uma fungada enquanto esfregava o pulso “ensanguentado” no nariz.

— Sim.

— Esse sangue no chão, o caminhão, as flores representando minha alegria, fui eu que fui atropelado não é?

— Sim, e por isso eu não posso te deixar encostar em mim. Se isso acontecer…

— Eu morro.

Silêncio domina novamente.

— Foi muito bom o tempo que passamos juntos sabe? — ela chorava enquanto sorria. Ela passou novamente a mão envolta de cabelos sobre minha orelha esquerda. Com a outra mão pegava uma flor e punha em meus lábios. Ao encostar em mim as lágrimas evaporaram de sua superfície mostrando uma flor transparente e brilhante, como lágrimas humanas — Quando tomar sua decisão lembre-se de mim? Ok?

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto caindo sobre a mão dela. Ela se aproximou de mim e me beijou por cima das pétalas, que de tão finas pareciam que nem estavam ali. Nessa hora toda a aura preta desapareceu de meu corpo e as minhas cores voltaram ao normal, assim como ela, a não ser pelos seus olhos. Meu coração começou a bater mais forte. Estiquei minha mão e massageie cabelos. Depois de alguns segundos senti algo frio em meu coração. Eu soltei seus fios sedosos e me distanciei de seu rosto deixando a flor cair e se partir como vidro.

— Espere eu lembrei de você. — ela me olhou assustada, pude ver suas pupilas encolhendo enquanto soltava sua mão de minha cabeça — Você é a garota do meu sonho! Agora me lembro, meu sonho, não foi um sonho, foi a última vez que te vi antes de você… — ela inclinava sua cabeça enquanto apertava o asfalto com tanta força que o quebrava como areia. Seu corpo tremia e eu conseguia ouvir ironicamente seus batimentos cardíacos — apagar minha memória.

Ela levantou a cabeça dando um enorme grito estridente para o céu, que se tornou negro na mesma hora. Trovoadas começaram a se espalhar por todos os lados. O asfalto se tornou areia movediça e meu pijama voltou para meu corpo. Tentei me segurar na calçada, onde via meu óculos quebrado, mas meu braço não alcançava.

A garota sem nome que eu “acabava” de conhecer se teleportou para cima do caminhão. De lá ela me encarou com seus olhos sem vida, porém cheios de tristeza.

— Me desculpe… — uma trovoada impediu de eu ouvir ela pronunciar meu nome — … mas ainda não posso te deixar ir.

O asfalto já cobria meu tórax.

— Não se esqueça de mim, ok? — sua voz foi abafada pelo choro.

— Não se preocupe, não irei… — em seguida o asfalto cobriu todo o meu corpo eu pude ouvir sirenes, seguidas de choros e vozes familiares. Depois disso adormeci.

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Novamente o mesmo sonho. Já perdi a conta de quantas vezes eu o tive. Embora eu não consiga descrevê-lo em detalhes posso saber que já o tive pois ela estava nele. É quase um déjà vu, um do tipo que você não quer que acabe, embora saiba que isso não está em suas mãos.

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O som do medidor de frequência cardíaca soava pelo ar, aterrorizando os familiares do rapaz com a possibilidade dele mudar para um som único e estridente, o som que poderia significar o fim de tudo, o som que indicaria que o jovem havia encontrado a tão temida morte…

Notas finais
Eu admito, quase chorei escrevendo isso ;-;Agora tenho que parar de escrever one-shots e atualizar minhas fanfictions kkkkkkkkGostaram? Comentem. Bem, até a fanfiction que vem, com mais um de onde vem!Byeke!~ Bill Cipher
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!