Entre a luz e os cadáveres

2 Capítulo 2: palavras no escuro


Já era tarde, seus pais ja haviam saído, Vanessa estava encolhida na cama abraçada na cachorra, chorava baixinho, mesmo que apenas vira sua avó por menos de uma hora e a conversa não tivesse sido uma das mais agradáveis, era uma perda muito grande. Podia sinti-la em todo canto daquela casa, principalmente seu quarto, antes o quarto dela. Sentia, só não mais viva.

A palida luz do luar preenchia o mesmo espaço que o sol em seu quarto, mas dessa vez muito mais sombrio e quieto. Ela se levantou devagar, enxugando as lágrimas com as mangas da camisa. Vai de encontro a janela, tentando fecha-la, está emperrada, "casa idiota" ela reclama enquanto faz força pra puxar. E de alguma forma uma voz seca vai rasgando o silêncio e ecoando por todo o quarto "Então é verdade que ninguém saí dessa casa vivo", Vanessa vira em súbito procurando quem falou aquilo, mas a porta continua fechada. A voz de de repete, agora mais grave e distante "Está assustada pequenina? Não precisa nos temer", a garota se joga na cama e abraça Tsura que está rosnando para lugar nenhum.

—Quem está aí? –Vanessa grita em afronta.

—Aqui em baixo.–A voz sussurra causando-lhe arrepio.

Ela levanta da cama em um pulo, procurando loucamente por algo pra se defender, revira o guarda-roupa e não acha nada, no bidê nada além de dezenas de apanhadores de sonhos, ela joga uns sobre a cama para procurar no fundo da gaveta, também não tem nada. É então que uma luz branca começa a vazar pelos vãos entre as tábuas do soalho, o chão começa a tremer em seguida, parece que a casa vai desenhar, Tsura começa latir e dar rodeios no chão, Vanessa está estática, trêmula e sem noção de como agir. A voz ecoa novamente "aqui em baixo" grita em todos os timbres de voz possível, a garota então se agacha no chão e encara o buraco no meio do quarto, vai sendo cegada pela luz, ouve os latidos de sua cachorra parar, os tremores se acalmando e, quando pisca denovo, não está mais no quarto.

Se encontra num completo vazio, um buraco imenso e escuro, exceto pelo raio de luz acima da cabeça, vindo de algum buraco no topo inimaginável do lugar onde estava, um cheiro pútrido infesta o ar, milhares de vozes baixas podem ser ouvidas, eram muitas conversas em movimento em uma língua estranha, no meio dessas, a mesma voz grave se repete, fazendo todas as outras ficarem em silêncio.

—Vejo que chegou aqui.–Vanessea arma uma pose de defesa, mas sem saber de onde a voz vêm.

—Quem tá aí?–Ela grita se virando em todas as direções, mas não vê nada além de um breu.

—Sua vó não lhe contou nada Vanessa? –as vozes grunhem no que parecia uma risada desajustada.– Seu trabalho é nós ajustar. –a voz solta cada palavra bem lentamente, como se dessa voltas ao redor do feixe de luz, nunca vinha de uma direção exata.

—Quem é você? Como sabe meu nome? –Ela bradou, assustada, mas sem transparecer isso, encolhia-se no centro da luz, conforme ela se fechava lentamente.

—Eu sou apenas um velho amigo da família.–Ele da uma breve pausa.– E como uma portadora, você, sua vó, e todas as outras descendentes daquela maldita, dedicam suas vidas pra nos ajudar.

—O que? Não.–Ela soa receosa.–Por que eu faria isso? Que tipo de coisa é você? Onde eu estou? Como eu...–Fuzilou uma série de perguntas, não convencida do que estava acontecendo era real.

—Sim, apenas isso importa, apenas essa palavra importa, sim.

—Não!–Sua visão embaçou, começou a entender então respondeu.–Sim... espera, o que eu disse?

—A sua família, minha pequenina, lutava por um mundo mais justo, o resto do mundo jamais lutou para isso.–Ele parecia estar falando a verdade, em instantes Vanessa começou a ouvi-lo, como se nada mais importa-se.–Não somos modelos adequados a espécie humana, somos por vezes diferentes, e o ser humano teme o que é diferente. Por isso é que estamos aqui, presos no selo da maldita. E você, não vai querer impedir todo o progresso das que vieram antes de você, bem no ciclo final, ou vai?

—Acho que não vou.–Ela não tinha controle de todas as suas palavras, mas algo a fazia concordar.– Mas a maldita? Quem é ela?

A maldita. –todas as vozes diziam repetidas vezes essa palavra, gritavam, sussurravam, com a agitação dos seres ao redor, pareciam odiosos e descontrolados, batiam no chão e davam berros de agonia, que demoraram a seçar, a voz grave finalmente voltou a falar em seus ecos.– A maldita, é a pessoa que nos colocou aqui.

Vanessa queria ter dito algo, mas não sabia o que, tudo estava tão desconfortável, não sabia o porquê, mas apenas dizia sim. Seus pés desgrudaram do chão, e ela começou a subir em direção ao buraco enquanto a luz enfraquecia, deixando a em um vasto escuro, cercada dos grunhidos medonhos. Ela levitou, ouvindo um adeus da voz principal, quase em transição, sentiu um leve puxão em uma das pernas.

Ela estava em casa, no seu quarto, num chão que não tremia, que não iluminava o quarto com uma luz fantasma, não sentia mais a presença escura de uma voz ecoante, não havia mais a influência de palavras em sua cabeça, agora num estado de visão verdadeira, parecia melhor depois da visita ao desconhecido. Tudo estranhamente bem, exceto por um calafrio que percorria todo o corpo. Ela levantou, indo até o interruptor ao lado da porta, com Tsura atrás dela. Ao ligar a luz, a cachorra avançou violentamente contra o seu tornozelo, latindo e rosnando, não estava doendo, Vanessa olhou pra baixo gritando em desespero, uma mão azul-everdeada estava fixada em seu tornozelo, as unhas podres estavam grudadas na sua perna, a mão decepada estava relutando contra as mordidas do cachorro, fazia Vanessa sangrar.

A garota deu um chute no ar, arremessando a mão contra o teto, que quando caiu se arrastou como um incentivo para baixo da cama. Vanessa subiu no bidê gritando e a cadela se enfiou em baixo da cama, puxando a mão pelo osso do pulso, que também puxava algo, o livro que Vanessa segurava anteriormente. Vanessa parou de gritar e viu a mão ser extraçalhada por sua cadela. Nunca vira tal coisa assim, parecia um monstro de filmes de zumbis. Era uma mão em estado de decomposição, sangue seco e músculos saindo por buracos na pele. Por mais que mordesse incessantemente, a mão não parava de se mexer, algo lhe dizia que o mundo de onde a mão vinha desafiava as leis do seu. E como se não fosse a primeira vez, ela soube o que fazer, pegou um dos apanhadores no chão e apontou para coisa, e observou-a ser sugada para dentro do apanhador.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.