Prólogo: O Peso da Confiança

​O escritório de Marco Rossi cheirava a couro caro e segredos antigos. Na parede, uma fotografia emoldurada mostrava dois jovens abraçados após uma partida de polo: Marco, o herdeiro solar, e Julian Vane, o rapaz de olhar sombrio que Marco trouxera para dentro da família como um irmão.

​Vinte anos depois, a lealdade de Julian era a fundação sobre a qual o império Rossi se apoiava.

​— Só tu podes fazer isto, Julian — disse Marco, fechando a mala de couro sobre a secretária. — A situação na filial da Sicília é delicada. Vou precisar de pelo menos três meses. Não confio nos meus seguranças, nem nos meus primos. Confio em ti.

​Julian Vane, aos 39 anos, era uma coluna de mármore. O seu rosto, marcado por uma cicatriz discreta na têmpora e olhos que pareciam ter visto demasiado, não vacilou.

​— Sabes que a minha vida pertence a esta família, Marco. Farei o que for preciso.

​— Fica na mansão de campo. É mais seguro. E, Julian... — Marco fez uma pausa, o olhar suavizando-se. — Cuida da Isadora. Ela está numa fase... difícil. O luto pela mãe ainda a torna impulsiva. Garante que ela não cometa erros dos quais se arrependa.

​Julian assentiu. Para ele, Isadora era a criança de cabelos cacheados que ele carregara ao colo. A menina a quem ele ensinara a montar a cavalo e a quem dera o primeiro conjunto de tintas. Protegê-la era um instinto básico.

​Ou, pelo menos, era o que ele pensava.