​Julian não era um homem de aceitar correntes, nem mesmo as de ouro que Isadora tentava colocar nele. O medo de ser descoberto por Marco era real, mas a humilhação de ser controlado por uma garota de dezoito anos era pior.

​Naquela madrugada, ele não usava o terno preto que ela pediu. Ele usava roupas escuras e táticas, movendo-se pelas sombras da mansão como o fantasma de Nápoles que ele tentava esquecer. Ele conhecia cada tábua que rangia, cada ângulo das câmeras.

​Ele entrou no quarto dela sem fazer um único som.

​A luz da lua entrava pela janela, banhando Isadora, que dormia profundamente. Julian sentiu um aperto no peito ao vê-la tão pacífica, mas ele tinha uma missão. Ele começou a revistar o quarto. Ele não procurou em lugares óbvios; ele procurou onde uma Rossi esconderia algo: atrás de quadros, sob o fundo das gavetas.

​Finalmente, ele encontrou. O assoalho falso no fundo do closet.

​Quando Julian esticou o braço para pegar a caixa de metal, sentiu algo frio e metálico encostar na base do seu crânio.

​— Você realmente achou que eu estaria dormindo, Julian? — a voz de Isadora era um sussurro gélido logo atrás dele.

​Ele congelou. Ele não precisava se virar para saber que ela estava segurando a pequena pistola de defesa que Marco dera a ela no aniversário.

​— Isadora, abaixa isso — Julian disse, a voz calma e profissional, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Você não sabe usar essa arma.

​— Eu sei destravar e sei puxar o gatilho. Foi você quem me ensinou, lembra? No estande de tiro da fazenda — ela deu um passo à frente, forçando o cano da arma contra o cabelo dele. — Você veio roubar o seu passado, não foi?

​Julian se virou lentamente, com as mãos levantadas. Isadora estava de pé, usando apenas uma camisola de seda branca, o cabelo loiro bagunçado e os olhos brilhando com uma mistura de triunfo e mágoa profunda.

​— Eu não posso deixar você destruir tudo o que eu construí — Julian disse, dando um passo em direção a ela.

​— Para! — ela gritou, a mão tremendo levemente. — Mais um passo e eu atiro. Eu juro, Julian!

​— Então atira — ele desafiou, avançando mais um passo, até que o cano da arma estivesse pressionado contra o seu peito, exatamente sobre o coração. — Se você quer me destruir, faz logo. Acaba com isso. Me entrega pro seu pai ou puxa esse gatilho. Porque eu não vou ser o seu brinquedo.

​A tensão no quarto era sufocante. Isadora olhava para ele, as lágrimas começando a escorrer. Ela queria odiá-lo, queria ter o poder total, mas a verdade é que ela só queria que ele a amasse sem medo.

​— Por que você não pode simplesmente ficar do meu lado? — ela soluçou, a arma começando a baixar. — Por que o meu pai é mais importante do que eu?

​Julian viu a abertura e, num movimento rápido, desarmou-a, jogando a pistola longe e prendendo Isadora contra a parede do closet. A caixa de metal caiu no chão, espalhando os papéis.

​— Porque ele me deu uma vida! — Julian rugiu, o rosto a milímetros do dela. — E você... você me dá vontade de queimar o mundo inteiro só para ter você por uma noite. Você tem noção do que isso faz com um homem como eu?

​Ele a beijou. Não foi um beijo de filme, nem um beijo de amor. Foi um beijo de guerra, de posse, de desespero. Isadora respondeu com a mesma intensidade, enterrando as mãos no cabelo dele, puxando-o para mais perto enquanto eles caíam entre as roupas e os papéis espalhados no chão do closet.

​Ali, entre as provas do passado sombrio dele e o desejo proibido dela, a última linha de defesa de Julian Vane finalmente caiu.