Entre a honra, o desejo e a traição - Os Vanne Ros
7 Capítulo 6: O Chamado do Abismo
O rosto de Julian estava a centímetros do de Isadora. Ele podia sentir o calor da pele dela, o tremor dos seus lábios e a rendição nos olhos azuis que o encaravam. O mundo lá fora tinha deixado de existir; a honra era uma palavra vazia e o juramento a Marco Rossi era apenas um eco distante.
Até que o silêncio do quarto foi estraçalhado.
O toque estridente do celular de Julian, configurado com um toque específico para emergências, ecoou no ambiente como um alarme de incêndio. O aparelho, jogado no tapete ao lado da cama, vibrava freneticamente.
Julian travou. O desejo em seus olhos foi substituído instantaneamente por um pavor gelado. Ele se afastou de Isadora como se tivesse levado um tiro, levantando-se da cama num solavanco que a deixou desorientada e ofegante nos lençóis.
Ele pegou o celular. A tela brilhava com o nome que ele mais temia naquele momento: MARCO — VÍDEO.
— Meu Deus... — Julian sussurrou, passando a mão pelo rosto, tentando desesperadamente recompor a máscara de gelo que Isadora acabara de derreter.
— Não atende — Isadora disse, sentando-se na cama, o cabelo loiro bagunçado e o olhar suplicante. — Julian, não faz isso. Olha para mim.
Julian a ignorou. Ele ajeitou a camisa amassada, limpou o suor da testa e se afastou para um canto escuro do quarto, onde o fundo parecia apenas uma parede neutra. Ele respirou fundo três vezes, forçando os batimentos cardíacos a desacelerarem.
Ele atendeu.
A imagem de Marco Rossi surgiu na tela. Ele estava em um escritório luxuoso na Sicília, segurando um charuto, com uma expressão cansada, mas visivelmente aliviada ao ver o amigo.
— Julian! — Marco exclamou, com sua voz grave e potente. — Desculpe ligar a essa hora, mas a negociação aqui foi um inferno e eu precisava falar com alguém em quem confio. Como estão as coisas por aí?
Julian sentiu o estômago revirar. A traição não era mais apenas um pensamento; ela estava impregnada no ar que ele respirava.
— Está tudo sob controle, Marco. A mansão está segura.
— E a Isadora? — O olhar de Marco suavizou-se, mas havia aquela intensidade de pai protetor que sempre fazia Julian se sentir pequeno. — Ela deu algum trabalho? Eu liguei para o quarto dela, mas ela não atendeu.
Julian olhou de soslaio para Isadora. Ela estava parada no meio da cama, observando-o com um misto de mágoa e desprezo. Ela poderia gritar. Ela poderia aparecer na câmera e destruir a vida de Julian com uma única frase.
— Ela está dormindo, Marco — mentiu Julian, a voz firme apesar do peso da culpa. — Teve um dia longo. Sabe como ela é... impulsiva, mas nada que eu não consiga contornar.
— Obrigado, meu irmão — Marco disse, e a palavra "irmão" cortou Julian como uma navalha. — Você é o único homem na terra em quem eu colocaria minha mão no fogo. Durma bem, Julian. Cuida do meu tesouro.
A ligação caiu. O silêncio que se seguiu foi pior do que o toque do telefone. Julian continuou olhando para a tela preta do celular, sentindo-se a pessoa mais desprezível do mundo.
Isadora soltou uma risada seca e sem vida, levantando-se da cama e caminhando até ele.
— "O único homem em quem colocaria a mão no fogo"... — ela repetiu as palavras do pai, parando na frente de Julian. — Coitado do meu pai. Ele não sabe que o fogo já começou e que você é quem está segurando o fósforo.
Julian guardou o celular e olhou para ela, mas desta vez não havia desejo. Havia uma barreira de concreto.
— Acabou, Isadora. De verdade. Eu quase cometi o maior erro da minha vida.
— Erro? — Ela gritou, a voz embargada. — Você chama o que a gente sente de erro?
— Eu chamo de suicídio — ele rebateu, caminhando em direção à porta. — Eu vou colocar dois seguranças na sua porta. Você não sai daqui até eu decidir que você é capaz de se comportar. E se você tentar algo como o que fez hoje com aquele moleque de novo, eu te mando para um colégio interno na Suíça amanhã mesmo.
— Você não teria coragem! — ela desafiou.
Julian parou na porta e olhou sobre o ombro, o olhar gélido de volta ao lugar.
— Não me testa, Isadora. Eu acabei de mentir para o único homem que me deu tudo nesta vida. Eu já perdi minha honra. Não me faça perder a minha paciência também.
Ele saiu e trancou a porta. Desta vez, ele não ficou no corredor ouvindo-a chorar. Ele foi para o jardim, sob a chuva que voltava a cair, e deixou a água fria lavar o cheiro de jasmim da sua pele, sabendo que, embora tivesse fechado a porta, a guerra dentro dele estava apenas começando.
A tensão atingiu um nível crítico e agora há uma mentira entre Julian e Marco.
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