Entre a honra, o desejo e a traição - Os Vanne Ros
3 Capítulo 2: No Fio da Navalha
A tempestade lá fora era um reflexo exato do que acontecia dentro da sala de jantar. O som do granizo batendo contra as janelas altas era a única trilha sonora. Julian estava sentado à cabeceira, a postura rígida, os olhos fixos em um relatório que ele não estava lendo de verdade. Do outro lado da mesa, Isadora brincava com o vinho na taça, observando-o por cima da borda do cristal.
— O silêncio combina com você, Julian — disse ela, com a voz suave como veludo. — Mas me faz pensar o que você está tentando calar aí dentro.
Julian nem sequer levantou o olhar.
— Coma seu jantar, Isadora. Já passa das dez.
— E o que você vai fazer se eu não comer? Vai me colocar de castigo? Vai ligar para o meu pai na Sicília e dizer que a "menininha" dele está sendo desobediente? — Ela se levantou, contornando a mesa devagar até parar logo atrás da cadeira dele.
Julian sentiu o calor do corpo dela antes mesmo que ela encostasse em seus ombros. O perfume de jasmim agora era uma arma de guerra.
— Isadora, volta para o seu lugar — ordenou ele, com a voz baixa, carregada de um aviso que ela simplesmente ignorou.
— Você está tremendo, Julian — sussurrou ela, inclinando-se até que seus lábios estivessem a milímetros da orelha dele. — O grande Julian Vane, o homem que não teme nada, está com medo de uma garota de dezoito anos. Ou será que tem medo do que sente quando eu te toco assim?
Os dedos dela deslizaram pelo pescoço dele, roçando a cicatriz na têmpora. Num movimento tão rápido que fez o vinho dela entornar na toalha branca, Julian se levantou e segurou os pulsos dela com força, prendendo-a contra a mesa.
O olhar de Julian era puro fogo. A distância entre eles desapareceu. Ele conseguia sentir o coração dela batendo contra o seu peito, e a respiração dele, pesada e errática, se misturava à dela. Por um segundo eterno, o desejo venceu a honra. Ele fixou os olhos nos lábios vermelhos dela com uma fome que o assustou.
— Você não tem noção do que está provocando — ele rosnou, com o rosto a centímetros do dela. — Acha que isso é um jogo? Acha que eu sou um daqueles garotos da sua faculdade que você manipula com um olhar? Se eu te deixasse ver o que eu realmente estou pensando agora, você fugiria desta casa gritando de medo.
Os olhos de Isadora brilharam — não de medo, mas de triunfo.
— Então me mostra, Julian. Deixa eu ver.
A percepção do que ele estava prestes a fazer atingiu Julian como um soco. Ele a soltou bruscamente, como se ela fosse ferro em brasa. O nojo de si mesmo o inundou instantaneamente. A máscara de gelo voltou, mas desta vez tingida por uma fúria cruel.
— Sai daqui — disse ele, dando as costas.
— Julian...
— SAI! — Ele se virou, e a expressão em seu rosto era de puro desprezo. — Olha para você, Isadora. Está tão desesperada por atenção que está tentando seduzir o melhor amigo do seu pai? É esse o seu nível?
As palavras atingiram Isadora como uma chicotada. O sorriso dela sumiu na hora.
— Você não passa de uma criança fútil brincando com coisas que não entende — ele continuou, avançando sobre ela com uma frieza cortante. — Acha que é mulher? Uma mulher sabe o valor da lealdade. Você é só um capricho, um erro que eu estou sendo pago para vigiar. Nada mais.
— Você está mentindo! — gritou ela, as lágrimas de raiva começando a queimar nos olhos. — Eu vi como você olhou para mim! Você me quer tanto quanto eu te quero!
Julian soltou uma risada seca e sem alma.
— Te querer? Eu sinto pena de você, Isadora. Sinto pena do Marco por ter uma filha que se oferece ao primeiro homem que impõe limites a ela. A partir de amanhã, você não sai do seu quarto sem autorização. Vou te tratar como a criança mimada que você provou ser.
— Eu te odeio! — ela gritou, pegando a taça de vinho e atirando-a contra a parede, onde o vidro estourou em mil pedaços. — Eu preferia que meu pai tivesse deixado um estranho qualquer aqui do que um hipócrita como você!
— Ótimo. O ódio é muito mais seguro para você do que qualquer outra coisa que possa imaginar — respondeu Julian, com a voz gélida, embora seu interior estivesse em cinzas. — Agora, vá para o seu quarto. E não se atreva a cruzar o meu caminho de novo esta noite.
Isadora saiu correndo do salão, o som de seus soluços abafados se perdendo no trovão lá fora. Julian ficou sozinho entre os restos de vidro e vinho espalhados pelo chão. Ele olhou para as próprias mãos — elas ainda tremiam.
Ele tinha vencido a batalha, tinha afastado a garota com o seu veneno. Mas, ao olhar para a porta por onde ela tinha saído, Julian soube que a traição já estava consumada. Ele já a desejava mais do que a própria vida, e a raiva era a única coisa que o impedia de cair de joelhos e implorar pelo perdão dela.
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