Entre a Véspera e a Virada
5 TOUR PELAS LUZES

Seul, 31 de dezembro de 2025
Seul parecia ter decidido competir com o próprio céu naquela noite.
Luzes penduradas de forma estratégica em árvores nuas, fachadas piscando em vermelho e dourado, letreiros dizendo “Feliz Ano Novo” em inglês, coreano, chinês, até em uma língua que Ahn Bohyun juraria ser um espanhol meia-boca. Tudo brilhava, piscava ou tocava alguma música de Natal atrasada e enjoativa.
Dentro do carro, no entanto, a luz vinha só do painel.
Bohyun bocejou tão fundo que a mandíbula estalou e uma lágrima escorreu. Fungou e balançou a cabeça para tentar despertar. Olhou para o relógio digital do carro: 22h04.
— Feliz véspera de Ano Novo, carteira vazia — murmurou, esticando os dedos no volante.
O aplicativo mostrava a contagem da noite: quatro corridas, duas pessoas simpáticas, um bêbado emocionado e uma senhora que tinha passado o trajeto inteiro reclamando do governo, das nuvens, do frio e da juventude que não sabia mais apreciar o “verdadeiro espírito do Natal”, mesmo faltando algumas poucas horas para se tornar um novo ano.
Aumentou um pouco o volume da música. Um louvor suave de uma banda chamada AGAPAO Worship, qual ele gostava muito, preenchia o interior do carro, o tipo de música que tocaria na igreja naquele exato momento. Ele imaginou como estariam os preparativos para o culto de virada; ele adorava participar, adorava ver a animação de quem caprichava para virar o ano “na presença de Deus”.
E ele ali, virando o ano na presença do taxímetro digital.
— É só hoje — disse para si mesmo. — Só hoje, aí mês que vem, o aluguel não me mata.
A consciência rebateu com a rapidez de sempre: se confiasse mais, talvez não precisasse se matar de trabalhar. Ele suspirou e girou um pouco o corpo, tentando alongar as costas.
O aplicativo vibrou.
Nova corrida. Graças a Deus.
Ele endireitou o boné, conferiu se o painel estava minimamente limpo e tocou na tela. O ponto de partida era ali perto, em uma rua transversal da Jongno. Mas o que prendeu o olhar dele foi outra coisa.
Mensagem do passageiro.
Passageiro: Olá! Você faz tour pelas luzes de Natal da cidade ou só corrida normal? :)
Bohyun franziu a testa.
— Ah, claro — resmungou. — Começou a hora da zoeira.
Abriu o chat para responder, os dedos pairando sobre o teclado.
Motorista: Boa noite. Faço corrida normal, não sou guia turístico.
Não enviou, apagou.
Ele encarou o valor estimado da corrida: não havia. O passageiro tinha deixado em aberto. Arriscado. Mas era véspera de Ano Novo, ele estava cansado, e a única opção menos atraente que dirigir até tarde era voltar para o apartamento minúsculo, esquentar lamén instantâneo e assistir a um programa de retrospectiva repetindo desastres do ano com trilha dramática.
Talvez um “tour pelas luzes” não fosse a pior ideia do mundo.
Digitou:
Motorista: Boa noite! Depende do que você tem em mente. :)
A resposta veio quase instantaneamente.
Passageira: Quero rodar pela cidade vendo as luzes, sem destino específico. Bairros diferentes, ruas bonitas. Você escolhe o trajeto. Eu pago o suficiente para você não sentir que perdeu a noite. Pode ser?
Ele leu a mensagem duas vezes.
— Ou é golpe, ou é alguém muito rico, ou muito triste — murmurou.
Sentiu um pequeno incômodo familiar no peito. Ele conhecia o tipo de solidão que fazia alguém gastar dinheiro só para não ficar em casa.
Respirou fundo, como se pudesse decidir sua vida naquele suspiro.
Motorista: Pode ser, sim. Estou a 4 minutos do ponto. Pode me aguardar na porta do café?
Enviou e aceitou a corrida.
O café era um desses lugares que tentavam parecer europeus: portas de madeira clara, guirlandas com laços vermelhos na moldura, uma escrita cursiva no vidro e um Papai Noel magro demais para convencer qualquer criança.
Uma mulher estava encostada no corrimão da escada de entrada, segurando um copo de papel com as duas mãos, como se o calor fosse a única coisa que a mantinha de pé no frio da noite.
Bohyun reduziu a velocidade e encostou o carro, conferindo a placa do aplicativo no celular.
Nome da passageira: Nam Jihyun.
Ela ergueu o olhar quando o farol banhou o rosto dela. Os cabelos estavam presos em um coque bagunçado, alguns fios soltos ao redor do rosto, e o gorro de lã preta dava a impressão de que a cabeça dela tinha se encolhido uma meia idade. O sobretudo bege caía até os joelhos, e as botas pretas pareciam mais estilosas do que quentes.
Jihyun se aproximou, inclinando-se para o banco do passageiro.
— Ahn Bohyun? — a voz dela tinha um ar de rouquidão leve, como quem tinha rido demais ou discutido demais nos últimos dias.
Ele assentiu.
— Isso. Jihyun?
— Sim — ela abriu a porta e entrou, enchendo o carro com o cheiro de café e algum perfume delicado, nada doce demais. — Pronta para o meu tour emocional pela iluminação natalina da cidade.
Ele riu, um pouco surpreso com a frase.
— Você avisou que era só um tour pelas luzes. Em nenhum momento mencionou terapia.
— Eu pago bem, lembra? — ela respondeu, prendendo o cinto. — Inclui taxa de escutar desabafos.
Bohyun lançou um olhar rápido para o aplicativo, confirmando o nome dela, e começou a dirigir devagar.
— Então… qual o plano, exatamente? — perguntou, enquanto manobrava para entrar na avenida principal.
— O plano é simples — ela levou o copo aos lábios. — Você me leva para ver as luzes mais bonitas da cidade. Myeongdong, Gangnam, o rio com aquelas lanternas de papel, não lembro o nome…
— Cheonggyecheon.
— Esse mesmo — ela apontou com o dedo, como se o nome estivesse na frente deles. — E, enquanto isso, a gente finge que não está virando o ano sozinho.
Ele abriu um meio sorriso.
— Isso é parte do pacote turístico?
— É a parte principal — disse, encarando pela janela o letreiro de um mercado cheio de luzes coloridas. — Topa?
Bohyun sentiu a pergunta bater em um lugar mais fundo do que pretendia.
Topava?
Ele deveria estar na igreja, tecnicamente. Ou com a mãe, comendo tteokguk e ouvindo pela milionésima vez como era importante começar o ano com a tigela vazia, símbolo de longevidade e essas coisas todas. Em vez disso, tinha inventado que ia trabalhar “só um pouco”, e agora estava ali, oferecendo um banco de carona para uma desconhecida que não queria estar sozinha.
— Topo — respondeu, por fim. — Mas aviso que meu conhecimento turístico é limitado. Sou mais especializado em desviar de trânsito e evitar bêbados.
— Tá ótimo — ela riu, e o som foi leve, mas com uma pontinha de cansaço no fundo. — Eu já desisti de gente que “sabe demais” sobre qualquer coisa.
Ele não entendeu completamente, mas deixou passar.
O carro se lançou pela avenida, em direção a Myeongdong. O movimento aumentava, carros buzinando, pedestres atravessando ruas com tiaras de orelhinha de coelho brilhantes e faixas “2026” na cabeça.
— Parece que metade da cidade decidiu se aglomerar no mesmo cruzamento — comentou Bohyun, reduzindo para não atropelar um grupo de adolescentes que atravessavam distraídos.
— É a beleza do comportamento de manada — disse Jihyun, apoiando o queixo na mão, perto do vidro. — Se todo mundo estiver indo, deve ser bom, né?
— Você não gosta de aglomeração?
— Eu não gosto da sensação de que estou fazendo as coisas porque é “assim que tem que ser” ou porque todo mundo está fazendo — ela virou o rosto de leve, encarando-o. — Ano Novo, Natal, casamento, carreira, filhos… a sociedade tem uma agenda muito cheia pra minha vida.
Ele riu.
— E o seu “tour pelas luzes” é o quê? Um ato de rebeldia?
— É um ato de sobrevivência — ela respondeu, sem hesitar. — Se eu ficasse em casa, ia acabar comendo pizza fria, stalkeando gente feliz no Instagram e fazendo a lista de tudo o que deu errado neste ano. Preferi terceirizar a minha crise existencial para um motorista de aplicativo.
Bohyun levantou uma sobrancelha.
— Eu devia começar a cobrar taxa extra por isso.
— Eu já disse que vou pagar bem — ela deu um gole no café, que parecia mais um consolo do que uma bebida. — E você? Prefere ganhar dinheiro ou virar o ano em um lugar barulhento com gente gritando “feliz ano novo” para estranhos que nem sabem seu nome?
Bohyun hesitou por um segundo.
— Depende. O lugar barulhento poderia ser a igreja. Pelo menos lá, as pessoas sabem meu nome.
— Igreja? — Jihyun virou-se um pouco mais, curiosa. — Você é do tipo que vai na vigília, ajoelha, chora, agradece e tal?
Ele deu de ombros, tentando parecer casual.
— Eu sou do tipo que cresceu em banco de igreja. Não sei fazer réveillon de outro jeito. Mas esse ano… — deixou a frase morrer no ar. — Esse ano eu precisava do dinheiro.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos e voltou à posição normal, observando um grupo de turistas tirando fotos com um boneco inflável de rena.
— E Deus concordou com essa troca? — perguntou, sem ironia agressiva, só uma curiosidade meio ácida.
Ele pensou na resposta antes de falar.
— Acho que Ele não é um gerente de RH, marcando presença em planilha. — Respirou fundo. — Mas eu mesmo, pessoalmente, não tô muito convencido da minha decisão.
— Sinceridade, gostei — ela sorriu de lado. — Então você acredita mesmo?
— No quê, exatamente? — ele entrou em uma rua que levava a Myeongdong, onde as vitrines pareciam competições de luzes e enfeites.
— Em Deus. Em alguma coisa lá em cima organizando o caos cá embaixo — Jihyun fez um gesto amplo, que incluía tanto o trânsito quanto a decoração natalina exagerada.
Bohyun pensou em todas as vezes em que tinha orado no vazio do quarto, pedindo coisas que não vieram na hora que ele queria. Pensou na mãe, com a fé simples e constante. Pensou nas noites em que só conseguiu dormir depois de repetir “Deus tá no controle” até acreditar um pouco.
— Sim — respondeu, enfim. — Acredito.
— Que bonito — ela comentou, olhando para frente. — Deve ser reconfortante.
Havia algo na entonação dela que não era exatamente deboche, mas também não era admiração.
— E você? — ele devolveu. — Acredita em quê?
— Eu acredito em café forte, boletos, e na lei de Murphy — enumerou nos dedos, sem hesitar. — Se algo pode dar errado, vai dar. E, se algo pode piorar, pode apostar que melhora o desempenho.
Ele riu, apesar do teor.
— Isso é uma filosofia de vida bem… otimista.
— Eu fui otimista por muito tempo — disse, brincando com a tampa do copo. — Aí a vida foi realista comigo. Estamos tentando achar um meio-termo agora.
Eles entraram no coração de Myeongdong. As ruas estreitas estavam tomadas por gente, as lojas de cosméticos jogando música alta para disputar atenção, e luzes penduradas cruzando de um lado a outro das ruas como constelações organizadas.
Jihyun encostou a testa no vidro por um segundo, como se quisesse aproximar o rosto da luz.
— Uau… — murmurou. — Eu esqueço que essa cidade pode ser bonita assim.
— Você mora aqui? — Bohyun perguntou, seguindo devagar, quase na velocidade dos pedestres.
— Morei, saí, voltei. Seul é tipo aquelas relações tóxicas — ela respondeu, sorrindo amarelo. — A gente reclama, diz que vai embora, fala mal para os amigos e daqui a pouco volta como se nada tivesse acontecido.
— Entendi — ele riu e assentiu. — E por que você voltou dessa vez?
— Trabalho — ela deu de ombros. — E porque não tinha mais para onde fugir.
Ele percebeu a sombra na voz dela e decidiu mudar levemente de assunto.
— No meu caso, eu nunca saí — comentou. — Sempre morei mais ou menos por aqui. A única diferença é que antes eu via Seul da janela do ônibus, agora vejo do volante.
— É muito diferente? — ela inclinou a cabeça. — A vista, quero dizer.
— Do volante? — ele pensou por um instante. — Sim. Quando você dirige, tem a impressão que está decidindo o caminho, mesmo que seja só o GPS mandando. No ônibus, você só aceita que alguém já escolheu tudo por você.
Ela assentiu lentamente.
— Caramba! Isso tem muito potencial para metáfora de vida — comentou, humorada. — Você devia tomar cuidado. Pode acabar virando guru motivacional.
— Deus me livre — Bohyun riu, sincero. — Mal dou conta da minha própria vida. Imagina a dos outros.
O trânsito começou a travar mais à frente. Uma multidão se aglomerava na praça, onde haviam montado um palco improvisado com luzes coloridas e um telão exibindo uma contagem regressiva ainda distante da meia-noite.
— Quer descer para tirar alguma foto? — ele sugeriu. — Ainda dá tempo de estacionar ali atrás, se você quiser andar um pouco.
Jihyun observou o movimento, avaliando os grupos de amigos, casais abraçados, crianças correndo com balões brilhantes.
— Não — respondeu, com uma firmeza surpreendente. — Se eu descer, vou me arrepender em dez minutos. Vamos só… passar devagar e fingir que a gente está participando de longe.
— Tá bom.
Eles cruzaram a rua lentamente, o reflexo das luzes coloridas dançando no vidro do carro. Um grupo de garotos levantou latinhas de cerveja e gritou algo ininteligível em direção ao veículo. Uma menina com uma tiara de unicórnio piscou para a câmera do próprio celular, fazendo um vídeo para alguém que provavelmente veria aquilo deitado em casa.
Jihyun soltou um riso breve.
— Sabe o que é mais irônico? — perguntou, sem tirar os olhos do cenário.
— Hm?
— Que todo mundo aqui parece acreditar em alguma coisa — ela fez um gesto com a mão, abrangendo a praça. — Nem que seja o ano novo como botão de reset. “Ano que vem vai ser diferente”, “dessa vez vai dar certo”. Eu não consigo mais.
— Mais o quê? — ele perguntou, curiosamente cuidadoso.
— Mais me prometer coisas — havia uma ponta dolorida em sua voz. — Já prometi demais. Já acreditei demais. Cansei de fazer acordo com o futuro.
Bohyun pensou em todas as resoluções de Ano Novo que tinha deixado pelo caminho. Ler mais a Bíblia. Economizar dinheiro. Comer melhor. Ser mais paciente. Talvez se apaixonar também.
— Talvez o problema seja a lista — insinuou. — A gente faz uma lista de “novo eu” como se fossemos um aplicativo atualizado.
Ela deu uma risada curta.
— E você? Vai prometer o quê para Deus esse ano? Que vai trabalhar menos na véspera de Ano Novo?
— Ele provavelmente colocaria isso no topo da lista — Sorriu pequeno. — Mas, sinceramente? Eu só queria passar um ano sem ter a sensação de que estou sempre “correndo atrás”.
— Atrás do quê? — ela inclinou o rosto, interessada.
Ele hesitou. O carro virou em uma rua menos apertada, com prédios mais altos e letreiros mais sóbrios.
— De tudo — admitiu. — Dinheiro, aprovação, tempo, paz. Parece que eu estou sempre atrasado para uma vida que eu deveria estar vivendo.
Jihyun ficou em silêncio, mexendo no próprio anel por alguns segundos.
— Isso é engraçado — disse, crispando os lábios. — Porque, do meu lado, parece que todo mundo ao meu redor está correndo atrás de alguma coisa, menos eu.
— E isso é bom ou ruim?
— Depende do dia — ela respondeu. — Hoje… é só um vazio.
Ele sentiu vontade de dizer algo que consertasse aquilo, algo que ela pudesse pegar e segurar como se fosse uma manta quente. Em vez disso, só murmurou:
— O vazio pesa bastante, né?
Ela assentiu, sem olhar para ele.
— Até mais que tristeza, às vezes.
O aplicativo vibrou com uma notificação qualquer, quebrando o silêncio.
— Próxima parada? — ele perguntou, tentando dar um tom mais leve à voz. — Cheonggyecheon?
— Rio com lanternas, por favor — Jihyun respondeu, como se tivesse acabado de pousar de algum lugar distante. — Preciso ver água correndo para lembrar que o tempo empaca só na minha cabeça.
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