Entre a Véspera e a Virada
8 O MAPA ACÚSTICO
O silêncio que se seguiu ao "Feliz Ano Novo" não foi vazio. Foi um silêncio habitado.
Minami podia ouvir o som da própria respiração rebatendo no bocal de plástico do telefone e, misturado a isso, a respiração de Kento, uma cadência mais lenta, acompanhada por um zumbido elétrico de baixa frequência que devia ser a geladeira de sorvetes da loja de conveniência.
Ela se levantou do chão frio da cozinha, segurando a base do telefone contra o peito como se fosse um gato assustado. O fio espiralado se esticou, tensionando-se enquanto ela caminhava de volta para a sala. O aparelho era velho, mas o cabo era surpreendentemente longo, permitindo que ela se arrastasse de volta para o calor do kotatsu.
— Você ainda está aí? — a voz de Kento surgiu, grave e granulada pela estática.
— Estou — respondeu Minami, acomodando-se sob o cobertor térmico e puxando o telefone para o colo. — Onde mais eu estaria? A neve lá fora está na altura do tornozelo e meu celular continua morto. Você é minha única prova de vida humana.
Ele riu. Não foi uma risada educada, mas um som anasalado, curto.
— "Prova de vida". Você fala como se estivesse em uma expedição no Ártico, e não no Japão.
— Para quem cresceu em Kyoto, Tóquio já é uma expedição estranha por si só. E você? — ela perguntou, tateando o terreno. A curiosidade de escritora começou a coçar. Quem era aquele rapaz que passava a virada do ano em um telefone público de konbini? — Você disse que trabalha com música, não é? Ou eu inventei isso na minha cabeça enquanto tentava não entrar em pânico?
— Eu não disse. Mas você acertou. Faço faculdade de Música, especialização em engenharia de som. — Houve um barulho de papel sendo amassado do lado dele. Talvez ele estivesse abrindo algo para comer. — É por isso que eu não desliguei ainda.
— Como assim? — Minami franziu a testa, enrolando o fio do telefone no dedo indicador.
— A acústica da sua linha — explicou ele, e o tom de voz mudou. Deixou de ser o rapaz cínico da loja de conveniência e virou algo mais técnico, apaixonado. — Tem um eco muito específico aí. Curto, seco. Você não tem muitos móveis, tem? O som bate nas paredes e volta rápido demais. E tem um zumbido... grave. 60 hertz. Ar-condicionado antigo?
Minami olhou ao redor de seu apartamento espartano. Estantes de livros abarrotadas, uma mesa, o kotatsu e nada mais. As paredes eram nuas. O ar-condicionado era, de fato, uma relíquia dos anos 90. Ela sentiu um arrepio estranho, como se ele a estivesse vendo através dos ouvidos.
— Isso é assustadoramente preciso — admitiu ela. — Você está fazendo um perfil psicológico do meu apartamento pelo som de fundo?
— É o que eu faço. O som não mente, Minami. As pessoas escolhem as palavras para disfarçar o que sentem, mas a voz? A voz entrega tudo. A tensão nas cordas vocais, a pausa para respirar, o tremor imperceptível... — Ele parou por um instante. — Por exemplo, você diz que está irritada com a neve, mas sua voz baixou meio tom nos últimos dois minutos. Você está relaxando. Ou está com sono.
Minami sentiu o rosto esquentar e agradeceu por ele não poder vê-la.
— Sou estudante de Literatura — retrucou ela, sentindo a necessidade de defender seu próprio território, o das palavras. — E discordo. As palavras não são disfarces, são pontes. Se eu não escolher a palavra exata para descrever a neve agora, ela é só água congelada. Mas se eu disser que a neve é um "lençol de silêncio que abafa a cidade", eu crio uma imagem. Eu crio uma sensação.
— "Lençol de silêncio" — repetiu Kento, testando o peso da frase. — É bonito. Um pouco dramático para uma quarta-feira, mas bonito.
— É Ano Novo, tenho licença poética para o drama.
O som de um sino badalou novamente. Mais longe dessa vez, talvez vindo de outro templo. A conversa fluiu para um ritmo menos defensivo.
— Então, Sr. Especialista em Som — começou Minami, sentindo uma coragem súbita. — Se você consegue "ver" meu apartamento pelo ouvido, o que eu deveria estar ouvindo do seu lado? Porque, para mim, soa apenas como estática e... fritura?
— Ah, a sinfonia do konbini — Kento suspirou, teatral. — O que você ouve é a melodia complexa da madrugada urbana. O zumbido agudo é a luz fluorescente acima da minha cabeça, que está piscando e, muito provavelmente, prestes a queimar. O som grave é o freezer de bebidas. E o chiado de fundo... bem, isso é o óleo da fritadeira de frango karaage que o funcionário do turno da noite esqueceu de desligar antes de ir para os fundos dormir.
— Você está sozinho na loja?
— Tecnicamente, tem um funcionário dormindo no estoque. Mas, na prática, sou eu, as revistas de mangá encalhadas, e uma vitrine de Nikuman que parece estar girando há três dias. — Ele fez uma pausa. — Estou sentado no chão, encostado no vidro da frente. A rua está deserta. A neve apagou as faixas de pedestre. Parece que a cidade foi formatada.
Minami fechou os olhos. A descrição dele, somada à voz grave, criou uma imagem nítida em sua mente. Ela podia ver o brilho branco e estéril da loja de conveniência recortado contra a escuridão azulada da neve. Podia ver um rapaz — o rosto ainda era um borrão, mas a postura era clara — sentado no chão, com o fone de um telefone público verde preso ao ombro.
— Você não ia comprar comida? — perguntou ela, lembrando-se da "pizza" que ele mencionou antes.
— Ia. Mas a fome passou. Ou melhor, a preguiça de levantar e pegar algo é maior que a fome. E você? O que ia jantar com sua mãe pelo telefone?
Minami olhou para a tigela de soba, agora fria e empapada sobre a mesa.
— Toshikoshi soba. Para ter vida longa e cortar o azar.
— E você comeu?
— Não. Esfriou. Parece uma peruca molhada agora.
Kento soltou uma gargalhada genuína, um som que fez o fone vibrar contra a orelha de Minami.
— Certo, Sra. Escritora. "Peruca molhada" acabou com meu apetite também.
Ficaram em silêncio por um momento. Mas, diferentemente do início da ligação, não havia pressa em preenchê-lo. Era um conforto estranho, compartilhado por fios de cobre enterrados sob o gelo.
— Sabe... — Kento disse, a voz ficando um pouco mais baixa, mais confessional. — É estranho. Eu deveria estar em uma festa em Roppongi. Meus amigos da faculdade foram. Tinha música, comida, gente fingindo que se importa com a contagem regressiva. Mas quando saí de casa... eu simplesmente não consegui ir. Então vim fazer um extra num konbini. Preparei um café e a neve começou a cair forte. E eu pensei: "Quer saber? Prefiro o barulho da neve do que o barulho daquela gente".
Minami apertou o fone com mais força. Ela conhecia aquela sensação. A exaustão social que não é cansaço físico, mas um esvaziamento da alma.
— Eu entendo — disse ela, suavemente. — Eu passei o dia revisando textos acadêmicos para não ter que pensar no fato de que não escrevi uma única linha da minha própria história este ano. A neve foi... uma desculpa conveniente para eu não me sentir culpada por estar sozinha.
— Então somos dois fugitivos — concluiu Kento. — Escondidos na tempestade.
— Dois fugitivos presos por um cabo telefônico defeituoso.
— Poderia ser pior — disse ele.
— É? Como?
— Poderíamos estar presos em um elevador com desconhecidosou fazendo um tour de última hora pela cidade com um motorista solitário. Pelo menos aqui eu tenho acesso a revistas em quadrinhos de graça e você tem... bom, você tem sua peruca molhada de macarrão.
Minami sorriu. Um sorriso real, que seus lábios haviam esquecido como formar nas últimas doze horas.
— Ei, Kento?
— Sim?
— Já que estamos presos aqui e o ano já começou... você se importa se ficarmos na linha? Pelo menos até a neve diminuir? O silêncio do meu apartamento está meio alto demais hoje.
Do outro lado, ouviu-se o som de moedas caindo na máquina do telefone público. O som metálico, tilintante, de tempo sendo comprado.
— Eu acabei de colocar todas as minhas moedas de 100 ienes na máquina, Minami — respondeu ele. — Tenho crédito para, pelo menos, mais duas horas de conversa. Me conte sobre o livro que você não escreveu este ano.
E, enquanto a neve continuava a cair, cobrindo Tóquio em um branco absoluto, Minami começou a falar. Não com a voz de revisora, mas com a voz de quem finalmente encontrou alguém disposto a ouvir não apenas o texto, mas a música por trás dele.
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