Entre a Véspera e a Virada
7 FREQUÊNCIA DA NEVE

Setagaya, 31 de dezembro de 2025
A neve em Tóquio não cai; ela se instala. Começou como uma promessa tímida nos telejornais da manhã e, quando a noite chegou, transformou a metrópole de neon e concreto em algo abafado, silencioso e estranhamente paralisado.
Para Minami, aquilo parecia menos um fenômeno meteorológico e mais um decreto de isolamento.
Do lado de dentro do apartamento 204, o mundo se resumia a um quadrado de doze metros, aquecido pelo zumbido constante do ar-condicionado/aquecedor e pelo brilho alaranjado da resistência do kotatsu. Ela estava sentada no chão, as pernas enfiadas sob o cobertor da mesa térmica, observando o vapor subir da tigela de Toshikoshi Soba. O macarrão da passagem de ano. A tradição dizia que comer aquilo cortava as mágoas do ano velho, mas Minami sentia que estava apenas mastigando o próprio tédio.
Ela olhou para o relógio na parede: 23h48.
— Doze minutos — murmurou para si mesma. A voz saiu rouca pelo desuso. Havia passado o dia inteiro revisando uma tese de doutorado sobre a sintaxe na era Meiji e não tinha dito uma única palavra em voz alta desde que agradeceu ao entregador do correio pela manhã.
Ela afastou a tigela e pegou o celular. A tela acendeu, fria e indiferente. “Sem Serviço.”
Minami suspirou, jogando o aparelho sobre as almofadas. A rede estava congestionada ou a nevasca tinha derrubado alguma antena crucial no bairro de Setagaya. Era o cúmulo da ironia moderna: a tecnologia que prometia conectar o mundo ruía diante de um pouco de água congelada.
Restava o telefone fixo.
Aquele aparelho bege, de fio espiralado encardido, que o proprietário do imóvel se recusou a retirar. "É bom para emergências", ele disse. Minami sempre o encarou como uma peça de museu, um intruso analógico em sua vida digital. Agora, era sua única ponte até a casa dos pais, em Kyoto.
Ela se levantou, sentindo o frio do chão penetrar através das meias grossas assim que deixou o refúgio do kotatsu. Caminhou até o balcão da cozinha, tirou o fone do gancho e ouviu. O sinal de discagem estava lá. Um zumbido contínuo, grave, reconfortante.
— Pelo menos você funciona — ela disse ao aparelho.
Discou o número de casa. Seus dedos conheciam a sequência de cor, um ritmo muscular que a levava de volta à infância. Um toque. Dois toques. O som do outro lado era estranho. Não era o toque límpido e digital a que estava acostumada. Havia uma estática grossa, como o som de chuva batendo em telhado de zinco, e ecos distantes de vozes que pareciam fantasmas presos na fiação de cobre da cidade.
Clique.
— Alô? Mãe? — Minami adiantou-se, a voz subindo uma oitava na ansiedade de ouvir algo familiar. — Mãe, desculpa a hora, o celular morreu e...
— Eu não sou a sua mãe.
A voz do outro lado não era aguda, nem acolhedora. Era masculina, grave, arrastada, como se tivesse acabado de acordar ou estivesse profundamente cansado. E soava bem nítida, como se ele estivesse sentado no chão da sala dela.
Minami congelou. Afastou o fone do ouvido por um segundo, encarando os buraquinhos do auscultador, e o trouxe de volta.
— Perdão? — ela perguntou, a formalidade defensiva assumindo o controle. — Acho que disquei errado.
— Acho que não — o rapaz respondeu. Havia um som de fundo do lado dele. Um bipe eletrônico repetitivo, talvez uma porta automática abrindo e fechando. — Eu estava tentando ligar para a pizzaria. A menos que sua mãe faça entregas debaixo dessa tempestade, nós dois caímos no lugar errado.
Minami franziu a testa. A irritação começou a borbulhar sob a pele. Ela tinha um plano: ligar, desejar feliz ano novo, ouvir a voz da mãe, talvez chorar um pouco de saudade, comer o macarrão já frio e dormir. Estranhos sarcásticos não faziam parte do cronograma.
— Olha, deve ser a neve — disse ela, seca. — Vou desligar e tentar de novo. Por favor, desligue também para liberar a linha.
— À vontade.
Clique. O silêncio voltou.
Minami bufou, batendo o fone no gancho com mais força do que o necessário. Esperou cinco segundos. Dez. "Respira, Minami. É só uma falha técnica."
Tirou o fone do gancho novamente. O sinal de linha estava lá. Discou o número de Kyoto, com cuidado excessivo, pressionando cada tecla com a precisão de quem desarma uma bomba.
O chamado começou. O chiado de estática voltou, mais alto dessa vez. E então, o estalo.
— Mãe? — ela tentou, a esperança lutando contra a lógica.
— Pizza de pepperoni, massa fina?
A voz dele novamente. Dessa vez, não havia sarcasmo, apenas uma resignação divertida. Minami sentiu o rosto esquentar.
— É você de novo! — ela exclamou, quase acusatória. — O que você está fazendo na minha linha?
— Sualinha? — O rapaz soltou uma risada breve, soprada. Era um som grave, texturizado. — Moça, eu estou num telefone público dentro de uma loja de conveniência vazia. Acredite, a última coisa que eu queria era estar "na sua linha". Eu só queria comer uma pizza quente antes que o ano acabe.
Minami olhou para o relógio. 23h55. O pânico da virada solitária bateu em seu peito. Se ela não conseguisse falar com a mãe agora, só conseguiria pela manhã. A superstição boba de começar o ano desconectada da família pesou sobre ela.
— Escuta... — ela começou, a voz tremendo levemente. — Eu preciso muito falar com a minha casa. É Kyoto. O DDD é 075. Você não pode... sei lá, bater no telefone ou desligar com mais força?
Do outro lado, houve uma pausa. Ela podia ouvir a respiração dele. Lenta, compassada. Diferente da dela, que estava curta e errática.
— Eu já desliguei três vezes antes de você ligar agora — disse ele, o tom agora mais suave, perdendo a aresta de zombaria. — O sistema deve ter entrado em curto. Os cabos velhos não aguentam o peso do gelo. Cruzamento de linhas. É raro, mas acontece. Basicamente, estamos presos no mesmo canal.
Minami encostou as costas no balcão da cozinha e escorregou até sentar no chão frio. Abraçou os joelhos, segurando o fone contra a orelha como se fosse um escudo.
— Isso é ridículo — sussurrou ela, mais para si mesma do que para ele. — Eu só queria ouvir "feliz ano novo".
O silêncio na linha se estendeu, mas não foi cortado. A estática chiou, como ondas do mar ao longe.
— Minami — ela disse, de repente. A necessidade de não ser apenas uma voz anônima no vazio falou mais alto que a prudência.
— O quê? — ele perguntou.
— Meu nome. É Minami.
Houve um ruído do outro lado, como se ele estivesse mudando de posição, talvez se apoiando na cabine do telefone.
— Kento — ele respondeu. — E, Minami... sinto muito pela sua ligação para Kyoto. Mas acho que a pizzaria também não vai me atender.
Ao fundo, na casa de Minami, ouviu-se o som abafado de uma sirene distante. Mas foi através do telefone, vindo do lado de Kento, que ela ouviu o som mais nítido. O primeiro sino. Grave, profundo, reverberando através da fiação elétrica da cidade até o ouvido dela. O Joya no Kane. As badaladas dos templos tinham começado.
— Começou — disse Kento. A voz dele parecia ter ficado mais próxima, mais íntima, agora que a hostilidade inicial tinha se dissolvido na inevitabilidade da situação. — Feliz Ano Novo, Minami.
Minami fechou os olhos. A solidão do apartamento parecia menos vasta com a voz dele preenchendo o espaço entre sua orelha e seu ombro.
— Feliz Ano Novo, Kento— ela respondeu, e pela primeira vez na noite, não sentiu vontade de desligar.
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