Entre a Razão e a Loucura
13 Cativeiro
Após ver o momento em que Mogi era alvejado por duas vezes, Misa não conseguia ter qualquer reação que lhe permitisse sair correndo dali. Isso facilitou – e muito – a ação dos raptores que logo a imobilizaram e a amordaçaram. Em seguida, vendaram-lhe os olhos e a jogaram no grande porta-malas do carro preto, que saiu a toda velocidade.
Muito tempo se passou desde que fora colocada lá, devido ao som ininterrupto do motor do carro e do atrito ente os pneus e o asfalto. Depois disso, o barulho cessou e ouviu o porta-malas se abrir. Sentiu seu corpo ser içado por dois braços, que a levaram para algum lugar.
Misa sentia medo, muito medo.
Percebeu que os solavancos comuns de uma caminhada cessavam. Havia chegado ao local, pois a sentaram numa cadeira, ainda imobilizada.
Já havia passado por isso antes, mas fora Ryuuzaki.
Agora estava presa na cadeira e seus olhos eram destapados e a mordaça era removida de sua boca. Quando pôde voltar a ver, reconheceu a primeira pessoa à sua frente e mordeu o lábio. Diante de seus olhos, estava Light.
Ele não estava trancafiado numa cela de penitenciária, cumprindo sua pena de prisão perpétua?
Como ele conseguira fugir?
Quando viu Ryuk logo atrás do Yagami, a resposta saltou aos olhos: fora graças ao Death Note!
- Fazia tempo que eu queria te encontrar, Misa. – ele disse com voz suave, embora com uma ponta de ironia.
A garota mordeu o lábio inferior em sinal de apreensão. O que Light iria fazer com ela ali?
Estava consciente de que o que fizera durante o julgamento do jovem Yagami poderia lhe trazer riscos, mas queria dar-lhe uma lição e uma mostra de que ela deixara de ser uma mera mulher-objeto. Pelo menos se livrara do mal que fizera a si mesma ao se sujeitar a ele.
- É uma pena que por dentro deste belo corpo haja um cérebro tão minúsculo, Misa. – Light segurou com a mesma delicadeza seu queixo, de forma que a fez olhar em seus olhos. – Eu sabia que você era capaz de fazer bobagens, mas não a esse ponto. Você me prometeu fidelidade, mas agora não passa de uma traidorazinha barata!
- Eu fiz o que achava certo. – ela respondeu.
- Não. Você não teve uma luz te iluminando pra te fazer enxergar a verdade. E você não tem inteligência suficiente pra isso.
- Ei!
- Por que você testemunhou contra mim? Foi chantageada?
- Claro que não! – a loira assumiu um ar mais firme. – Eu assumi os riscos! Eu sabia o que tava fazendo!
Aquilo surpreendeu Light. Ela sabia do risco que corria e, mesmo assim, se arriscava a se virar contra ele? Tinha que admitir, realmente não esperava isso dela. Esperava que fosse ingenuidade, não que ela entrasse de forma consciente nesse jogo arriscado, em que se desse um passo em falso sua vida seria ceifada.
Mas por que ela fazia aquilo? Por que deixara de agir como o segundo Kira e rompera a aliança que existia entre os dois?
Por que ela revelara a L que o primeiro Kira e ele eram a mesma pessoa? Quais foram as suas motivações?
Sabia que Misa tinha suas razões.
- Misa, por que mudou de lado? – ele perguntou.
*
A mídia não parava de especular o possível paradeiro de Light e onde estava Misa. A polícia japonesa era pressionada o tempo todo para solucionar os dois problemas. Os mais pressionados eram os integrantes da força-tarefa liderada por L, que estavam envolvidos no Caso Kira até o pescoço, desde o início.
Matsuda terminava de fazer os últimos ajustes no Death Note preso ao seu corpo de forma que não levantasse suspeita de ninguém e jogou por cima o seu paletó. Sentia-se meio que sufocado, então decidiu que não colocaria a gravata. Os elásticos que prendiam o caderno ao seu corpo já lhe traziam incômodos o bastante.
Conferiu também se seu revólver estava bem colocado no coldre escondido também pelo paletó. Tudo estava “nos conformes”.
Por mais que tentasse, o jovem detetive não conseguia disfarçar a apreensão que sentia ao ter sido “escolhido” para levar o Death Note para ser moeda de troca por Misa Amane. Todos ali eram vítimas em potencial da fúria de um Kira fugitivo. Todos, sem distinção. Incluindo aí Soichiro Yagami.
Pelo menos, se morresse, não morreria como um completo inútil. Queria pelo menos ter ou a eficiência de Mogi, ou a sensatez de Aizawa, a tenacidade de seu chefe Soichiro ou até mesmo 1% da genialidade de Ryuuzaki.
Mas não tinha nada disso. Era apenas “Matsuda, o idiota”, ou “Matsuda, o inútil”. O desastrado, o que botava tudo a perder, ou quase isso. Ou também imaturo e ingênuo.
Agora era carregador de caderno. E com certeza seria alvo mais uma vez das chacotas de Light a respeito de sua inutilidade.
Estava era doido pra dar uma surra naquele moleque prepotente! Toda a sua admiração à mente brilhante do filho de seu chefe se convertera em ódio quando foi revelado que ele era o Kira.
Ele estava ali próximo de todos, conquistando a amizade da equipe e, na verdade, estava era fazendo todos caírem em sua lábia de santinho e inocente, quando na realidade era um assassino insano bancando o justiceiro.
Light Yagami não passava de um sujeito de duas caras. Um sujeito que, aos poucos, acabava com a própria vida e com a vida de sua família.
Ele simplesmente não sabia parar. Era infantil e não queria perder de L.
- Tudo pronto, Matsuda? – Aizawa perguntou.
- Tudo, creio eu. Mas eu me sinto como um kamikaze. Pronto pra ir ao encontro da morte.
- O que é isso? Por que esse pessimismo todo?
- Pra ser sincero, eu tô é quase me borrando todo de medo. Pensar que posso morrer a qualquer momento me dá arrepios.
- Os detetives já assumem esse trabalho, conscientes dos riscos da profissão. – L disse antes de ingerir mais um pedaço de bolo.
- Eu sei, mas a gente assume os riscos de sermos mortos a tiros, não por um caderno. – o jovem detetive da polícia japonesa retrucou.
*
Suas mãos ficavam dormentes e seu corpo doía pelas várias horas em uma mesma posição, sentada e presa a uma cadeira. Além disso, estava sendo vigiada e tinha novamente uma mordaça na boca, impedindo-a de pronunciar qualquer pedido de socorro.
Podia ser pior, poderia ser espancada e até abusada por qualquer um ali, até mesmo por Light. Mas o jovem Yagami ordenara expressamente para que ninguém a agredisse. O “segundo Kira” não poderia sofrer nenhum dano, ou o agressor pagaria com a própria vida.
Ninguém ousaria contrariar qualquer ordem do futuro deus do novo mundo.
Light voltou a adentrar o recinto e retirou a mordaça de Misa. Agora queria saber mesmo a razão de Misa estar mudada. Por que ela mudaria de lado?
- Misa, não adianta ficar muda. – ele disse com um olhar penetrante. – Você vai ter que me dizer onde está o seu Death Note.
Misa nada respondeu. Preferia guardar silêncio. Mas Light insistiu:
- Me diga onde está o seu Death Note.
Nada. Nenhuma palavra saía dos lábios da atriz e modelo. Algo lhe dizia que ela provavelmente havia sido instruída a não falar do caderno sob hipótese alguma.
Certamente tinha o dedo de L nisso tudo. Será que ele queria ganhar tempo?
Vontade de dar um tapa em Misa não lhe faltava. Porém, sabia que não poderia fazer isso, pois – ironicamente – isso o “rebaixava” ao nível daqueles criminosos que matava e mandava matar através do Death Note.
- Você pode perguntar, pode insistir, que EU NÃO FALO ONDE ESTÁ MEU DEATH NOTE! Já chega de te obedecer!
- Onde está o caderno?
- Eu já disse que não falo! Nem sob tortura!
- É mesmo...? – ele deu um sorriso assustador. – Não faz mal, eu tenho meus métodos.
Os olhos da Amane se arregalaram. O que Light tinha em mente pra arrancar dela onde estava seu Death Note?
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