Entre a Raposa e o Falcão

5 A Vila do Som - Parte II


Notas iniciais
Sakura desperta num lugar diferente, e descobre que o Som tem mais um pedido a lhe fazer.

Entre a Raposa e o Falcão

Escrita por BastetAzazis

Capítulo 5: A Vila do Som – Parte 2

Sakura desperta num lugar diferente, e descobre que o Som tem mais um pedido a lhe fazer.

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Sakura abriu os olhos para observar o sol da primavera que já iluminava seu quarto. As flores que lhe emprestavam o nome, desabrochadas pela rua que ela enxergava pela janela, deixavam aquele dia ainda mais especial. Na verdade, seu aniversário era apenas no dia seguinte, mas Naruto não conseguiu esconder que lhe preparava uma festa surpresa para aquela noite.

Claro, ela fingiria que não tinha percebido nada e passaria o dia inteiro treinando ou cuidando dos seus afazeres no hospital. À noite, ela não se oporia a qualquer desculpa que ele inventasse para tirá-la de casa e, quando voltasse e todos gritassem ‘surpresa!’ ela arregalaria os olhos fazendo sua melhor expressão de espanto.

Depois de se lavar e trocar de roupa, Sakura desceu para o café da manhã. Mas já era tarde. Na verdade, já era noite e todos os seus amigos pularam de lugares escondidos e gritavam: “Surpresa!!!” enquanto ela ainda admirava embasbacada a decoração da sala.

Estavam todos ali. Ino e Sai, um ao lado do outro, fingindo que eram apenas bons amigos, como sempre. Hinata, TenTen, Neji e Lee formavam um grupo enquanto Shikamaru, Chouji, Shino e Kiba conversavam acaloradamente no outro canto da sala. Tsunade-shishou e Kakashi-sensei também estavam lá, conversando alegremente com o Yamato-taichou, e aquilo nem lhe pareceu estranho. Se eles estavam ali, então talvez ele também estivesse... Ela vasculhou a sala com os olhos esperançosos, procurando por um par de olhos negros, impassíveis,até que ouviu ser chamada:

- Sakura-chan! Gostou da surpresa?

Sakura desceu os olhos para a voz. Naruto a considerava com os olhos brilhantes e um grande sorriso no rosto. Instintivamente, ela sorriu de volta; a alegria dele era contagiante.

- Naruto! Não acredito que você conseguiu preparar essa festa sem eu notar nada – ela mentiu, correndo para os braços dele.

- He, he... – ele riu enquanto a abraçava de volta. – Você caiu direitinho, não é, Sakura-chan?

Sakura o soltou e o encarou seriamente.

- Obrigada, Naruto, eu gostei muito da festa.

- Ei, eu ainda não te dei o meu presente! – Naruto berrou, fazendo todos em volta ficarem em silêncio.

Quando já tinha a atenção de todos na sala, ele tirou uma caixinha do bolso e continuou:

- Sakura-chan, você sabe que a sua felicidade sempre foi o mais importante para mim. Agora, se você aceitar esse anel, você vai me fazer a pessoa mais feliz em Konoha, e eu prometo que nunca vou deixar você derramar mais uma lágrima.

Sakura sentiu as bochechas esquentarem enquanto todos na sala a observavam com olhos emocionados. Ela sabia que Naruto se referia ao quanto ela chorou pelo Sasuke quando ele deixou Konoha pela primeira vez. Bem, ela havia chorado igualmente na segunda vez que ele partiu, mas já havia se decepcionado demais para mostrar sua fraqueza na frente dos outros, e apenas a foto do Time 7 que ela ainda tinha em sua cabeceira fora testemunha daquelas lágrimas.

Percorrendo a sala com os olhos, todos a observavam em expectativa. Aquele era um pedido de casamento! E só havia uma resposta esperada para aquela pergunta. Mordendo os lábios, ela ainda considerou os dois ex-senseis no fundo da sala, eles eram os únicos que a consideravam com apreensão.

Mas eles não entendiam, Sakura pensou. Eles nunca a viram com o Naruto, eles não sabiam como o Naruto era cuidadoso com ela, como ele sempre pensava nela e fazia de tudo para vê-la sorrindo. Eles nunca viram como ele a fazia feliz, por isso aquelas caras de reprovação. E mesmo que eles não gostassem daquilo, ela jamais poderia ferir o coração do Naruto daquele jeito, negando um pedido daqueles na frente de sua família e todos os seus amigos.

Sakura respirou fundo e fechou os olhos. O Naruto a fazia feliz, o Naruto a amava, o Naruto foi o único que sempre esteve ao lado dela. Sim, ela concluiu, só havia uma resposta para aquela pergunta.

- Eu aceito – ela respondeu abrindo os olhos.

O sorriso dele era encantador e contagiou todos na sala. Sakura sorriu também, mais uma vez olhando em volta da sala. Como ela queria que ele estivesse ali agora, assistindo tudo aquilo... Será que ele se arrependeria de ter partido?

- Você acha que esse dobe vai fazer você esquecer de mim, Sakura?

Os olhos verdes se arregalaram instantaneamente, e ela virou o rosto procurando de onde vinha aquela voz. Não encontrou ninguém.

- Ele nunca vai me substituir, Sakura...

Seu coração começou a bater acelerado. As pessoas na sala agiam naturalmente, como se ele não estivesse ali. E ele não estava mesmo ali! Mas ela sentia o hálito quente dele roçando na pele sensível do pescoço, exatamente como naquele dia que eles se despediram. As mãos dele desciam pelo seu corpo, parando na altura do quadril, então aquela voz soou de novo perto do ouvido:

- Não é com ele que você tem aqueles sonhos...

Com aquilo, ela sentiu um frio na barriga e suas pernas começaram a tremer. A sala e as pessoas nela pareciam girar a sua volta. Ela não podia mais ficar ali, não podia continuar no mesmo cômodo que ele. Não com o Naruto ainda admirando-a com aquela expressão tão alegre no rosto.

Sakura deu meia volta e subiu as escadas correndo, trancando-se no quarto. Sem entender todas aquelas sensações, aninhou-se na cama segurando a foto do Time 7 que sempre ficava em sua cabeceira fortemente no peito. Por mais que ela soubesse que estava sozinha ali, ainda sentia a presença dele... o cheiro... a voz... A voz dele balbuciava coisas sem sentido ao longe, que ela não conseguia entender, mais que ainda assim preenchiam seu ouvido. E quanto mais ela se enrolava nos lençóis, mais forte era aquele cheiro, o perfume envolvente que ela sempre sentia perto dele e que a intoxicava. Ela queria esquecer aquela lembrança, mas não conseguia... mesmo que a voz dele tivesse silenciado, o perfume ainda estava lá, embriagando-a...

- Sakura-sama...

Era a voz de uma mulher. Uma voz conhecida, mas que ela não conseguia lembrar...

- Sakura-sama! – a voz repetiu mais forte.

Aos poucos, Sakura recobrou a consciência. Abrindo os olhos, encontrou a mesma enfermeira que a levara até o Sasuke na noite anterior. Era uma menina de longos cabelos escuros e olhos muito claros, que parecia um pouco mais velha que os alunos do Sasuke. Ela aproximou-se de Sakura e explicou:

- Ainda bem que você acordou! O Sasuke-sama já estava ficando preocupado...

Vasculhando o cômodo onde estava, Sakura percebeu que não se tratava de um quarto de hospital. Ela lembrava de ter desmaiado no escritório do Sasuke, provavelmente porque estava praticamente sem chakra, mas não tinha a mínima idéia nem de como havia parado ali ou quanto tempo ficara desacordada.

- Onde estou? Quanto tempo eu fiquei desmaiada? – ela perguntou ainda um pouco zonza, provavelmente um efeito tardio do uso demasiado do chakra.

- Sasuke-sama a trouxe até o quarto dele quando você desmaiou – a menina explicou. – Eu usei a técnica do meu clã para recuperar seu chakra mais rapidamente, mas mesmo assim, você ficou um dia inteiro inconsciente.

Sakura sentou na cama, analisando as palavras que acabara de ouvir. Olhando em volta, observou as paredes rústicas no quarto espaçoso, iluminado pelo sol da manhã através uma grande janela que ocupava quase uma parede inteira. Então ela entendeu o que era aquela presença que não a largava. Sentiu uma pontada no estômago ao concluir que o cheiro que parecia impregnado nela era o cheiro dele, da cama dele. Aquilo a incomodava mais do que deveria, e ela se concentrou no que a trouxera para o Som para tentar esquecer o efeito que o Sasuke ainda provocava nela.

- E o Satoshi-kun? Ele já acordou?

- Sim – a enfermeira assentiu. – Ele acordou no final da tarde de ontem, mas ainda está muito fraco.

- O corpo dele ainda está lutando para se recuperar – Sakura concluiu em voz alta. – Trabalhando sozinha, eu pude apenas cuidar dos pontos vitais.

- Não se preocupe, Sakura-sama. Nós estamos monitorando os sinais vitais dele. Ele está dormindo a maior parte do tempo, mas é possível ver que já está melhorando.

- Eu preciso vê-lo – Sakura exigiu.

A enfermeira assentiu com a cabeça e a ajudou a se levantar da cama. Quando as duas mulheres deixaram o cômodo, Sakura entendeu por que Sasuke a levara justamente para o quarto dele. Os aposentos do líder do Som consistiam no quarto onde ela acordara e uma enorme sala, separados apenas por uma shoji. Na sala, onde ela também percebeu um futon jogado sobre o tatame – indicando onde ele estivera dormindo enquanto ela ocupara o quarto principal –, havia mais uma divisão, desta vez uma fusuma, que as conduzia para o escritório onde ela lembrava ter desmaiado.

- Quando você desmaiou, Sasuke-sama a levou até os aposentos privativos dele porque eram os mais próximos – a enfermeira confirmou as suspeitas de Sakura. – Ele me chamou, e nós dividimos turnos de vigília enquanto Momiji-chan e Karin-sama monitoravam o Satoshi-kun.

Enquanto seguia a enfermeira, que mais tarde descobriu chamar-se Yuzu, Sakura finalmente entendeu como estava estruturada a Vila do Som. O escritório e os aposentos particulares do Sasuke eram umas das poucas construções que ficavam no mesmo nível do solo. Uma escada discreta as conduzia para a verdadeira “vila”, formada por um labirinto subterrâneo que conectava os quatro pontos estratégicos nas divisas do País dos Campos de Arroz. Provavelmente, uma herança dos tempos quando a vila servia apenas os propósitos de esconderijo do seu fundador, Orochimaru.

Elas andaram por vários corredores escuros, iluminados apenas por candelabros e cheios de portas que ela não tinha a mínima idéia do que escondiam, até virarem para o que era conhecido como ala hospitalar.

- Sasuke-sama ficou muito preocupado – Yuzu falava sem parar, contado diferentes fatos do cotidiano da vila, até voltar ao que acontecera dois dias atrás. – Se você não acordasse hoje, ele já estava decido a entrar em contato com o Hokage novamente.

Por um momento, Sakura se espantou com a idéia de um Sasuke preocupado com alguém além dele mesmo, mas a lembrança da última conversa deles a fez considerá-lo com o antigo carinho por seu companheiro de time. Talvez ela tivesse sido dura demais com ele naqueles últimos anos.

- Chegamos – Yuzu a despertou de suas reflexões ao parar na frente de uma das portas.

- Sakura-sama! – A primeira coisa que Sakura viu quando entrou no quarto do seu paciente foi uma menina correndo em sua direção. – Obrigada, Sakura-sama. Você salvou a vida dele – Momiji agradeceu com o rosto enterrado nos braços da médica-nin, que apenas devolvia o gesto, comovida.

- O Satoshi-kun ainda precisa de cuidados – Sakura respondeu, fazendo com que a menina a soltasse para poder examinar o garoto.

Após os exames de rotina, Sakura constatou que, apesar dos recursos escassos comparados com o Hospital de Konoha, Satoshi fora bem cuidado durante o tempo em que ela ficara inconsciente. Ele ainda estava fraco e um pouco febril, por isso passava grande parte do tempo dormindo, mas sua recuperação era certa. Em breve, ele estaria pronto para novas missões. Ela disse isso, e Momiji a encarou com olhos ainda mais agradecidos.

- Agora que Satoshi-kun está fora de perigo – Sakura acrescentou –, está na hora de cuidarmos do antídoto deste veneno que o atingiu.

Yuzu assentiu àquelas palavras e explicou:

- O veneno foi levado para o antigo laboratório do Kabuto-sama. Acredito que você poderá encontrar tudo o que precisa lá.

- Obrigada, Yuzu-san. – Virando-se para a menina que ainda a admirava, ela acrescentou: — Momiji-chan, você pode ficar aqui com o Satoshi-kun e me chamar assim que ele acordar?

A menina assentiu prontamente, orgulhosa de ser escolhida para cuidar do seu companheiro de time. Sakura lhe concedeu um sorriso e deixou o quarto com Yuzu, que lhe conduziu ao laboratório onde ela passaria quase todo o resto do dia trabalhando num antídoto.

Nos raros momentos que sua mente a deixava espairecer do trabalho complexo de identificar e separar as substâncias que compunham o veneno para só então formular um antídoto, Sakura se pegava pensando apenas no líder do Som. Ele parecia uma pessoa totalmente diferente do Sasuke que ela vinha odiando nos últimos cinco anos, e ela não via a hora de encontrá-lo novamente para, talvez, se redimir da frieza com que o tratara da última vez que conversaram.

A cada ruído de passos do lado de fora do laboratório, ela prendia a respiração, imaginando que poderia ser ele vindo agradecê-la pelo que fizera ao seu aluno. Mas a cada vez que o som morria no corredor sem ninguém abrir a porta, suas esperanças morriam devagarinho no seu coração. Ela já começava a praguejar mentalmente por ter caído de novo naquela armadilha de olhos negros e olhar impassível. Não era ela que tinha se enganado quanto ao verdadeiro Sasuke, era ele que ainda sabia como manipulá-la.

Tentou esvaziar sua mente daqueles pensamentos, concentrando-se em Momiji, Satoshi e o outro companheiro deles, Rioko; ela não deixaria que aquela célula tripla tivesse o mesmo destino do Time 7. Entretanto, quando ela menos esperava, a porta do laboratório foi aberta.

- Sakura-sama... – Era a voz de Momiji, baixa e apreensiva. – Você pediu para avisar quando o Satoshi-kun acordasse...

Sakura assentiu enquanto a menina ainda permanecia de pé, perto da porta.

- Bem, ele... Ele não está acordado, mas está... Ele está...

Ela não esperou a menina terminar de falar e já seguia pelo caminho contrário que fizera com Yuzu pela manhã, até chegar no quarto de Satoshi. O olhar desesperado de Momiji já lhe dizia que alguma coisa grave estava acontecendo. Assim que ela entrou no quarto, encontrou o garoto se debatendo na cama. Yuzu e outro ninja do Som tentavam segurá-lo, mas apenas quando Sakura usou suas técnicas médicas conseguiram acalmá-lo.

Não era nada preocupante. Uma febre alta que estava lhe causando alucinações, efeito das duras provações que o corpo dele passara recentemente, mas que seria facilmente tratada por qualquer ninja com treinamento médico. O problema era que ela era a única ninja por perto com qualquer tipo de treinamento que não se resumisse a alguma kenkei genkai ou o resto de uma experiência de Orochimaru. Era ela quem teria que monitorar Satoshi, não poderia delegar aquela tarefa a qualquer um dos outros ninjas que se mostravam dispostos a ajudá-la.

Mesmo tendo dispensado todos no quarto, ela ainda tinha a companhia de Momiji, que não abandonava o leito do companheiro de time. Sakura começava a sentir uma certa simpatia pela menina, que tanto a fazia se lembrar da Sakura ingênua e apaixonada de anos atrás. Por várias vezes ela se pegou desejando poder voltar àquela época, a ser novamente parte da célula tripla que era o seu antigo Time 7. Mas eles tinham amadurecido de uma maneira muito dura, e voltar a ter um time tão unido quanto o time de Momiji era praticamente impossível agora.

Uma batida na porta fez aqueles pensamentos melancólicos se esvaírem. Sakura levantou os olhos para finalmente encontrar o olhar firme e indecifrável do Sasuke parado na entrada do quarto. Ela se odiou por sentir o coração começar a pulsar mais forte no peito e, sem falas, apenas continuou observando-o enquanto tentava acalmar suas emoções.

- Sakura...

A voz aveludada a fez segurar a respiração por um instante. Entretanto, quando entrou mais no quarto e percebeu a presença de Momiji, ele não disse mais nada, e os dois continuaram naquele silêncio desconfortável até a chuunin se manifestar:

- Sasuke-sensei, Sakura-sama disse que o Satoshi-kun logo deve acordar – ela contou, com um sorriso largo no rosto.

Sasuke simplesmente assentiu com a cabeça para a menina e voltou-se para Sakura:

- Obrigado.

Passando diretamente por ela, ele caminhou até o leito de Satoshi, observando-o dormir tranquilamente depois dos cuidados da Sakura.

- Yuzu me disse que ele teve uma recaída esta tarde – ele disse, sem se virar para a Sakura.

- Ele ainda está com febre, é normal sofrer algumas alucinações – a médica-nin explicou. – Mas o quadro geral é bom.

Sakura observou ele abaixar ainda mais a cabeça, soltando o que parecia um suspiro de alívio. Mais alguns instantes de silêncio constrangedor, e o líder do Som levantou os olhos para sua aprendiz.

- Momiji, você pode nos dar licença?

Em silêncio, a menina assentiu e deixou o quarto. Apenas depois que ficaram sozinhos, a não ser pelo menino inconsciente, Sasuke falou novamente.

- Você está bem? – ele perguntou, virando-se para ela.

Sakura arregalou os olhos, surpresa por vê-lo preocupado com ela. No mesmo instante, sentiu suas bochechas esquentarem, como se ela ainda fosse uma garotinha de doze anos. Odiando-se por aquilo, conseguiu respondê-lo apenas com um assentimento em silêncio.

- Você usou quase todo o seu chakra – ele continuou, com um tom firme. – Nós ficamos preocupados quando você demorou a acordar.

- Eu estou bem – ela respondeu, seca. A idéia de que ele estivesse repreendendo-a por ter ido até suas últimas forças para salvar Satoshi fez sua surpresa transformar-se imediatamente em outra decepção.

Sasuke percebeu o tom ríspido, perguntando-se por que as coisas com ela eram sempre tão difíceis de serem resolvidas. Engolindo seu orgulho, ele começou o discurso que estivera ensaiando mentalmente por quase todo o dia e que o fez evitar a ala hospitalar até àquela hora.

- Eu sei que se nós estivéssemos equipados com um hospital de verdade, com ninjas treinados apropriadamente, isso não teria acontecido – Sasuke afirmou.

Sakura levantou uma sobrancelha, considerando-o novamente com espanto. Toda aquela situação com ele começava a deixá-la insegura. Uma hora ele parecia insensível e incapaz de um gesto amigo, para logo depois mostrar uma faceta que raramente ela tivera a oportunidade de presenciar. Ela odiava não saber como agir na frente dele, se deveria ou não gostar daquele Sasuke que se mostrava apenas nos momentos que eles ficavam a sós.

- Eu apenas fiz o meu dever, Sasuke-kun – ela respondeu, lutando para permanecer com a voz firme.

- Você fez muito mais que um dever – Sasuke devolveu, apaziguando o tom da conversa. – Nenhum outro teria ido tão longe para salvar um desconhecido.

- Talvez você tenha ficado muito tempo longe de Konoha – Sakura o reprimiu quase que imediatamente. Era triste imaginar que o Sasuke-kun que ela conhecera quando criança ainda acreditava tão pouco na Vontade do Fogo.

O tom ríspido dela o fez se calar por alguns minutos. Qualquer outra pessoa teria pensado duas vezes antes de censurar o líder do Som, mas não ela. E era apenas ela que conseguia deixá-lo sem ação daquele jeito, talvez porque ambos soubessem que Sakura estava certa.

- Sakura... – ele finalmente quebrou o silêncio, fazendo-a voltar o olhar para ele. – Quando escrevi para o Naruto, eu sei que pedi sua ajuda apenas para tratar do Satoshi. Mas vendo tudo o que aconteceu, eu percebi o quanto esta vila está fragilizada sem ninjas com um treinamento médico adequado.

Sakura ainda conhecia Sasuke bem o suficiente para saber como ele estava incomodado com aquelas palavras. Ele começou a falar encarando-a, mas freqüentemente seus olhos desviavam os dela, e a expressão dele era a mesma de quando ela o deixava sem graça quando ainda estavam no Time 7.

- Eu sei que é pedir demais – ele continuou –, mas eu gostaria que você considerasse a hipótese de permanecer no Som por mais algum tempo e nos ajudar a reestruturar nosso hospital e treinar alguns ninjas mais habilidosos em ninjutsu médico.

Sakura perdeu a fala. Não era apenas a proposta de permanecer mais tempo no Som, era a sinceridade e a humildade que ela lia nos olhos dele. Para o Sasuke lhe fazer aquele pedido era porque ele realmente a reconhecia. O Sasuke que ela conhecera como orgulhoso e que escondia suas fraquezas. Mas logo a razão a fez despertar de sua admiração, dizendo-lhe que ela não poderia abandonar seus deveres em Konoha, por mais que aquele pedido lhe tocasse o coração.

- Sasuke-kun... – ela começou, balbuciando. – Eu... Isso é muito repentino... Eu não posso responder assim...Eu não deixei Konoha preparada para ficar longe por tanto tempo...

- Eu entendo – Sasuke respondeu. – Eu não vou te obrigar a ficar, mas seria de grande ajuda para o Som.

Sakura mordeu os lábios. Antes de responder, ela aproximou-se mais dele, sem conseguir controlar o corpo a fazer o contrário. Eles estavam a menos de alguns centímetros de distância quando ela lhe respondeu, encarando-o sinceramente nos olhos:

- Eu não posso responder isso agora, mas vou pensar no assunto.

Por um momento, Sasuke pareceu se perder naqueles olhos verdes. Por que ela tinha que se aproximar tanto dele? Por que ele tinha que caminhar igualmente na direção dela? Por que aquela sensação tão incômoda quando ela ficava tão perto dele?

- Sasuke-sensei?

A voz fraca, sussurrada, de Satoshi veio salvá-lo daquela situação desconcertante. Sasuke deixou os olhos verdes que o incomodavam para parar ao lado do garoto.

- Estou aqui, Satoshi. Momiji e Rioko ficarão felizes em saber que você acordou.

- Me desculpe... – ele respondeu, com a voz ainda fraca. – Eu... eu não queria ter dado tanto trabalho.

- Você protegeu seus companheiros, e graças a você, eles conseguiram completar a missão – Sasuke o consolou. – Você não precisa se desculpar.

Sakura apenas observou a conversa entre mestre e aluno. Era gratificante assistir aquelas cenas, ver que seu trabalho havia promovido o restabelecimento de mais um shinobi importante para alguém, principalmente quando ela sabia que esse alguém já havia perdido muitos laços, e talvez não suportasse mais esta perda. Com um sorriso discreto no rosto, ela deixou o quarto, a fim de procurar Momiji e seu amigo para avisar-lhes sobre Satoshi.

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- Sakura-sama... – Momiji lhe chamou depois que Satoshi voltou a dormir e as duas ficaram a sós no quarto novamente. Mesmo sendo dispensada, ela não quis saber de deixar o leito do amigo. – Posso lhe perguntar uma coisa?

Sakura a considerou calmamente, assentindo levemente com a cabeça para que a menina continuasse a falar:

- É verdade que o Sasuke-sensei pediu para você ficar mais tempo aqui com a gente?

Sakura ficou sem ação ao ver o olhar esperançoso da menina, mas antes mesmo que pudesse respondê-la, Momiji emendou:

- Eu sei que se nós tivéssemos ninjas treinados como você, o Satoshi-kun talvez não precisasse passar por tudo isso que ele já passou. Eu gostaria de aprender o que você faz... Eu sei que eu poderia ajudar muito mais o meu time assim...

Os olhos verdes da ninja médica lutaram para não lacrimejar, emocionados e ao mesmo tempo agoniados sem saber como explicar que ela não poderia tomar uma decisão daquelas tão subitamente. Partia o coração ter que negar uma coisa que ela faria com todo prazer, mas ela não pretendia permanecer no Som por tempo suficiente para treinar uma aluna em ninjutsu médico.

- Sim, é verdade que ele me pediu para ajudar a melhorar o hospital e treinar alguns ninjas – ela respondeu, observando o sorriso que se formava vagarosamente no rosto da menina. – Mas eu ainda não tomei uma decisão.

O sorriso de Momiji esvaeceu imediatamente. A menina correu para os braços de Sakura, implorando-a :

- Por favor, Sakura-sama... Eu prometo me dedicar arduamente aos seus treinos. Você vai ver que eu aprendo rápido. Eu... eu...

- Momiji-chan – Sakura a interrompeu, afastando-a do abraço. – Eu não posso tomar essa decisão sozinha... Eu preciso pedir ao Hokage, em Konoha, e ainda tem minhas obrigações com a minha vila...

- Mas então... – Momiji recomeçou. – Isso significa que você está pensando em ficar, não é? Só precisa avisar Konoha?

Não era exatamente isso, mas Sakura sentia que jamais conseguiria explicar todas as complicações que haviam naquele pedido. Uma parte dela queria realmente ficar e treinar aquela menina que parecia tão decidida quanto ela quando foi pedir o mesmo à Tsunade-sama.

- Sim – Sakura respondeu com a voz trêmula. – É mais ou menos isso.

Os olhos claros de Momiji voltaram a brilhar alegremente.

- Obrigada, Sakura-sama!

Sakura devolveu o sorriso e observou a menina correr para o lado de Satoshi, segurando a mão dele com força enquanto se sentava na poltrona ao lado da cama.

- Você deveria voltar para casa e descansar um pouco – ela ainda recomendou, mas Momiji pareceu ignorá-la.

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Momiji já havia adormecido na mesma poltrona ao lado de Satoshi há algumas horas, mas Sakura ainda permanecia de vigília, embora acreditasse que uma segunda recaída era quase improvável. Estava prestes a procurar uma maneira de se ajeitar no pequeno sofá que completava a mobília do quarto quando ouviu uma batida na porta.

- Eu vim ver se está tudo bem com o Satoshi – Sasuke explicou assim que ela abriu a porta para ele.

- Ele está dormindo, mas acredito que a partir de amanhã já poderá levantar e aos poucos voltar a sua vida normal – ela respondeu com a voz baixa por causa das duas crianças que dormiam.

Sasuke assentiu com a cabeça e, ainda parado no batente da porta, observou a sua volta. Ele não queria demonstrar o verdadeiro motivo daquela visita, recriminando-se interiormente por não ter ordenado que Yuzu viesse ver se Sakura precisava de alguma coisa.

Depois de uns segundos de total silêncio, ele finalmente dirigiu-se a ela:

- Eu posso providenciar um quarto para você passar a noite.

- Obrigada, mas acho que é mais prudente que o Satoshi não passe esta noite sozinho. Não se preocupe, eu estou acostumada a passar a noite em quartos de hospital – ela respondeu com um sorriso tímido.

Sasuke assentiu mais uma vez, em silêncio, os olhos vasculhando o quarto, mas sempre recaindo sobre ela. Sakura percebeu o embaraço dele, também sem saber como agir naquela situação. Felizmente, Sasuke pareceu notar Momiji dormindo desajeitadamente na poltrona e caminhou até ela.

- Ela dormiu aqui de novo – ele concluiu em voz alta, balançando a cabeça em negação e pegando-a no colo.

- Ela praticamente não deixou o lado dele – Sakura comentou. – Os pais dela já devem estar preocupados.

Com aquilo, Sasuke parou instantaneamente e virou-se para ela.

- Pais? – Sasuke repetiu. – Ela não tem pais. Assim como o Satoshi, Rioko ou qualquer outra criança que encontrar aqui.

Sakura levantou uma sobrancelha, sem entender. Sasuke, entretanto, virou-se novamente para sua aprendiz e a pegou no colo. Sakura observou admirada a maneira como ele cuidava dela, tomando-a nos braços facilmente sem acordá-la, como um pai que já fizera o mesmo muitas vezes com a filha. Era um momento que parecia incabível com a figura temida do líder do Som, e Sakura se viu sorrindo silenciosamente ao perceber que havia muito mais no Sasuke que aqueles olhos impassíveis deixavam transparecer. Algo que, felizmente, mesmo com os anos ao lado do Orochimaru ou da Akatsuki não se perdeu.

Ajeitando o corpo adormecido de Momiji nos braços, Sasuke virou-se novamente para ela e explicou:

- A Vila do Som foi formada por ninjas que Orochimaru seqüestrou ou resgatou de vilas destruídas. Ninjas que ele escolheu por terem alguma linhagem interessante ou para servirem de cobaias em suas experiências. Aos poucos algumas famílias estão se formando, refazendo suas vidas, mas a maioria ainda vive nos quartos subterrâneos dos esconderijos.

- Eu entendo – foi a única coisa que Sakura conseguiu dizer, baixando os olhos, quase que envergonhada por saber tão pouco por aquelas pessoas que Sasuke escolhera como seus semelhantes. Talvez agora ela entendesse um pouco o porquê. Enquanto Konoha apenas lhe ofereceu um passado de mentiras e intrigas, no Som, ele estava no meio de pessoas que também haviam perdido todos os seus laços, que não tinham um alguém para voltarem após a morte de Orochimaru, e que precisavam de um líder para se reerguerem.

- Eu vou levá-la para o quarto dela – Sasuke comentou, mudando de assunto. – Estes dias foram muitos cansativos para ela.

Sakura assentiu e ainda observou em silêncio quando ele deixou o quarto, carregando Momiji no colo delicadamente, incapaz de imaginar aquela cena se não estivesse assistindo pessoalmente. Seu coração ficou apertado ao lembrar de quantas vezes ela praguejara a Vila do Som depois que Sasuke decidira voltar para o antigo reduto de Orochimaru. Por um breve momento, Sakura se pegou admirando a decisão dele que ela sempre recriminara. Ele deixara para trás o orgulho que o nome Uchiha lhe trazia para emprestar sua força e determinação a pessoas que precisavam muito mais dele do que ela algum dia chegou a precisar.

Continua...

Notas finais
N.A.: Prontinho! Para os que estavam preocupados com a Sakura, aqui está mais um cap! Espero que tenham gostado (deixem reviews para eu saber...)

o.O.o

Quanto à descrição dos aposentos do Sasuke, elas foram baseadas neste texto sobre a arquitetura e decoração japonesa:

“No Japão dividem-se os espaços com shoji ou fusuma, não existindo fechaduras. Shoji é uma divisória de correr, com uma moldura feita de madeira lacada e coberta com janelas de papel de arroz para deixar a luz entrar, ainda que esteja fechada. Existem também as divisórias fusuma, igualmente de correr, feitas de papel muito espesso emoldurado em madeira.”

Espero que isso tenha conseguido explicar como imagino o escritório e aposentos do líder do Som. (agradecimentos à Mia e à Ro por achar este site pra mim e darem algumas dicas de arquitetura japonesa!)