Entre a Cena e o Silêncio

4 Sob a Lâmina do Microscópio


O laboratório de criminalística estava mais silencioso do que o habitual naquela manhã. Talvez fosse o peso do caso, talvez fosse a tensão entre as equipes após a reconstituição. Ou talvez fosse apenas Sara, que andava de sala em sala com os olhos mais atentos do que de costume, como se buscasse algo que nem os equipamentos mais avançados poderiam detectar.


Na sala de análises, David Hodges ajustava os controles do espectrômetro quando viu Grissom cruzar a porta. Parou imediatamente.


— Grissom? — perguntou, surpreso. — Achei que estivesse... com as baleias.


— Elas estão em boas mãos — respondeu Grissom, sem perder o humor. — Hoje é dia de lidar com outro tipo de predador.


Hodges sorriu, mas havia algo de desconfortável em sua postura. Grissom era uma lenda ali — e, mesmo depois de tantos anos, causava o mesmo efeito: respeito e ansiedade.


Sara apareceu alguns minutos depois, carregando um tablet com as imagens da reconstituição. Ao notar Grissom, hesitou por uma fração de segundo, depois entrou sem cerimônia.


— Temos novos dados da análise das fibras encontradas na grade da escada — disse ela, entregando o tablet a Grissom.


— Algodão industrial. Fibras sintéticas misturadas — leu ele. — Provavelmente de um uniforme.


— De zeladoria ou manutenção, talvez — completou Hodges. — Estou cruzando com os registros de funcionários do edifício.


Grissom assentiu e se virou para Sara.


— E quanto ao padrão de fratura da vítima?


Ela caminhou até o quadro branco onde estavam rabiscadas as hipóteses da queda.


— O ângulo das fraturas sugere uma torção antes do impacto. Como se ele tivesse sido empurrado com o corpo ainda em movimento, ou girado — explicou. — E mais: encontramos marcas de mão na lateral do corrimão. Alguém tentou segurá-lo... ou empurrá-lo dali.


Grissom olhou para ela com admiração contida.


— Você está brilhante, como sempre.


Sara desviou o olhar por um momento, mas sorriu. Era difícil ignorar o tom de ternura na voz dele, mesmo em meio a evidências.


Horas depois, no depósito de evidências, Grissom examinava uma amostra de solo quando Douglas entrou. Ele trazia um envelope com os registros do turno da noite do prédio onde ocorreu o crime.


— Grissom — disse ele, com a voz controlada. — Posso?


— Claro — respondeu, sem tirar os olhos do microscópio.


Douglas colocou o envelope na mesa, mas não saiu.


— Olha, eu sei que a situação entre nós foi... incômoda.


Grissom ergueu os olhos, mas não disse nada.


— Eu e a Sara... trabalhamos bem juntos, mas nunca passou disso. Só quero que fique claro. Ela sempre falou de você com... peso. Como alguém que deixou uma marca.


Grissom cruzou os braços e se afastou do microscópio.


— Douglas, não tenho nada contra você. Sei como é fácil se aproximar dela. Sara é intensa, apaixonada pelo que faz. Mas... — ele deu um pequeno sorriso — ...ela também é leal. E eu confio nela.


Douglas assentiu e saiu, aliviado.


Mais tarde, Grissom e Sara analisavam juntos uma nova imagem: uma digital parcial recuperada do corrimão. O sistema estava quase concluindo a comparação quando ele disse, sem olhar para ela:


— Douglas veio falar comigo.


— Sobre o que?


— Sobre você.


Ela revirou os olhos com leve ironia.


— Homens...


— Ele foi respeitoso. E sincero. Mas eu não precisava da conversa. Eu já sabia — disse Grissom. — Confio em você, Sara. Sempre confiei.


Ela se virou para ele, agora séria.


— E eu queria que você soubesse que, apesar de todos os silêncios, e de todas as vezes em que duvidei, eu também nunca deixei de confiar em nós.


O sistema apitou. Um match foi encontrado. Ambos se viraram para a tela: LUIS MORENO – Funcionário da limpeza, turno da noite. Histórico de comportamento agressivo.


— Temos nosso suspeito — disse Sara.


— E mais perguntas para responder — completou Grissom.


Ela se levantou, pegando o tablet.


— Vamos terminar esse caso. Depois disso... talvez seja a hora de responder as nossas perguntas também.


Ele a seguiu, e juntos saíram da sala, lado a lado, como tantas outras vezes — não como se estivessem voltando ao início, mas como se finalmente estivessem prontos para seguir adiante.