Entre a Cena e o Silêncio
8 Ecos e Cicatrizes
As imagens da cena do crime piscavam em alta definição no telão da sala de reuniões do laboratório. Grissom mantinha os braços cruzados enquanto observava os dados projetados: localização, data, padrão do corte, tinta vermelha nas unhas da vítima — tudo meticulosamente registrado.
Mas algo ainda faltava. A peça-chave. O elo invisível entre as vítimas.
Sara digitava no teclado ao lado, puxando dados do sistema da polícia estadual.
— As três vítimas nas últimas duas semanas não tinham relação direta — disse ela. — Mas olha isso... — virou a tela na direção de Grissom. — Todas tinham ligações, mesmo que periféricas, com instituições artísticas independentes da cidade. Um era escultor. A segunda, curadora. A última, aluno de arte performática.
— Então talvez não sejam os indivíduos que importam — murmurou Grissom. — Mas o que eles representavam. Arte. Criação. Expressão.
— Um símbolo atacando símbolos — completou Sara, como se tivesse compreendido ao mesmo tempo.
Grissom se aproximou mais da tela, fixando o olhar no símbolo talhado no braço da terceira vítima.
— O “O” cortado ao meio... Pode ser uma distorção. Ou uma assinatura. Mas de quê?
Sara se moveu para a bancada ao lado, vasculhando os arquivos de um antigo caso arquivado. Ela puxou um dossiê coberto de poeira. Quando o abriu, os dois ficaram em silêncio por longos segundos.
— Esse símbolo apareceu antes — sussurrou ela. — Quase dez anos atrás. Três vítimas, cortes semelhantes, mas o caso nunca foi resolvido. O arquivo foi deixado como “oculto”, provavelmente pela complexidade e falta de provas.
Grissom analisou o nome do detetive que cuidou da investigação inicial.
— Thomas Beck. Ele foi afastado do cargo por comportamento instável e passou os últimos anos vivendo nos arredores do deserto.
— E se o assassino voltou... ou nunca parou? — perguntou Sara.
— Ou... — completou Grissom, tenso — nunca trabalhou sozinho.
NO DESERTO – CASA DE THOMAS BECK
O calor irradiava das pedras sob os pés quando Sara e Grissom chegaram à casa de Beck. Um trailer velho, rodeado por sucata e esculturas deformadas feitas com ossos e ferragens. Era como entrar num pesadelo artístico.
Beck apareceu à porta — olhos fundos, barba espessa, e um sorriso que não combinava com o rosto sombrio.
— Eu sabia que vocês viriam — disse, antes mesmo de ser cumprimentado.
Grissom trocou um olhar rápido com Sara.
— Sr. Beck, estamos investigando uma série de assassinatos com características semelhantes às de um caso de dez anos atrás. Você lembra?
— Eu nunca esqueci. — Beck entrou de volta no trailer, como se os estivesse convidando. — A arte... deixa rastros, mesmo quando querem apagá-la.
Lá dentro, o trailer parecia uma instalação macabra. Quadros riscados com tinta vermelha, recortes de jornal colados às janelas, símbolos desenhados no teto com carvão.
Sara se aproximou de uma das paredes e parou, o sangue gelando.
— Grissom... — chamou ela, em voz baixa.
Ele se aproximou. Um quadro mostrava fotos coladas lado a lado. As vítimas recentes. E, entre elas... uma foto de Sara. Uma imagem antiga, provavelmente de um artigo antigo do laboratório.
— O que é isso, Beck? — a voz de Grissom soou grave, dura.
Beck se aproximou devagar.
— Eu não sou o assassino. Eu sou o arquivo. O guardião. Eu sei quem é. Mas ninguém acreditou em mim antes. E agora ele está se aproximando de vocês.
Grissom se colocou à frente de Sara instintivamente.
— Diga o nome.
— Eu não posso — disse Beck, recuando com as mãos erguidas. — Ele me vigiava. Ainda vigia. Vocês são parte da nova obra dele. Ele quer mostrar que até os que investigam... sangram.
Sara sentiu um arrepio subir pela espinha. Aquilo não era só um caso. Era pessoal agora.
NO APARTAMENTO DE SARA
Mais tarde naquela noite, depois de prestarem depoimento e deixarem Beck sob vigilância, Grissom insistiu para que Sara não dormisse sozinha. Ela não discutiu.
O apartamento estava silencioso. Na sala, apenas a luz fraca de um abajur iluminava os livros, o sofá e o casaco de Grissom jogado na poltrona.
Sara se sentou na beira da cama. Os ombros ainda pesavam. Ela tocou a foto impressa dela que Beck tinha no quadro. O rosto sorridente dela, anos atrás. Inocente. Desprotegida.
Grissom veio por trás, se sentou ao lado.
— Você está segura agora.
— Estou mesmo? — ela perguntou, encarando-o. — E se ele estiver perto? E se você estiver na lista também?
Grissom pegou sua mão e a levou até o peito dele.
— Se for pra correr risco, que seja ao seu lado. Eu não estou mais aqui por obrigação. Estou porque escolhi. Por você.
Ela encostou a testa na dele.
— Eu te amo, Grissom. E odeio tanto o que essa cidade faz com a gente.
— Mas ainda assim... a gente continua aqui.
Eles se abraçaram. Um abraço longo. Intenso. Cheio de silêncio, mas cheio de tudo o que as palavras não conseguiam mais conter.
E quando os lábios deles se encontraram, foi com a precisão de uma ciência antiga, como um instinto que se reconhece no escuro.
A cidade lá fora ainda brilhava. Mas agora, o calor estava dentro daquelas paredes — e a noite, silenciosamente, preparava o que viria: uma entrega, uma conexão física e emocional há muito adiada.
E talvez... o risco mais profundo de todos: amar alguém em meio à escuridão.
Fale com o autor