Entre Violetas e Turquesa
1 1. Entre verdades e despedidas
Notas iniciais
Capítulo 1
O som dos talheres batendo de leve contra os pratos era quase reconfortante. Quase. Porque naquela noite, o silêncio entre mãe e filha gritava mais alto do que qualquer palavra.
A mesa da cozinha estava posta com um cuidado quase simbólico — guardanapos de linho bordado, velas aromáticas acesas, taças de vinho para Helena e suco de frutas vermelhas para Atena. A mulher queria uma noite especial. Algo íntimo, significativo. Mas para Atena, tudo parecia uma encenação forçada demais.
Ela estava ali, sentada, com o olhar fixo no vidro da janela, onde o reflexo da luz das velas tremia como sua paciência. O celular repousava sobre a mesa, a tela ainda acesa com a última mensagem que ela se recusava a abrir de novo. Já bastava uma vez.
“Foi só uma vez, juro. Ela não significou nada.”
Claro. Nada. Como se o vazio daquela frase fosse capaz de justificar a traição. Como se o gosto amargo da mentira engolida com uma sobremesa bonita fosse se desfazer com o tempo.
Atena segurou o garfo com mais força do que deveria.
Helena, do outro lado da mesa, percebia. Ela sempre percebia. Os olhos atentos da mãe a acompanhavam com carinho e cuidado, mas Atena estava num território de sentimentos afiados demais para acalmar com afeto.
— Tá tudo bem com o risoto? — Helena perguntou, como quem testava a água antes de entrar.
— Tá ótimo. — Atena respondeu sem levantar os olhos.
Helena sorriu, sem graça. Ela tinha esperado por esse momento por semanas, ensaiado o que diria, escolhido o tom. Mas agora, diante da filha com o olhar duro, percebeu que talvez não fosse o melhor momento. Ou talvez nunca fosse.
Atena respirou fundo, largou os talheres e cruzou os braços.
— Eu posso falar primeiro?
Helena arqueou uma sobrancelha. Surpresa, mas curiosa.
— Claro.
Atena não hesitou.
— O Marcus me traiu.
O silêncio foi como o barulho seco de uma porta batendo. Helena levou um segundo a mais do que o normal para reagir.
— O quê?
— Descobri hoje. A menina mandou prints. — Ela deu de ombros, como se estivesse relatando algo que não a tocava. Mas o aperto nos olhos, a mandíbula tensa, entregavam o contrário. — Ele jura que foi uma vez só, que tava bêbado, que foi erro. Clássico, né?
Helena pousou o guardanapo com cuidado sobre o colo, os olhos marejados não pela traição em si, mas pela dor escondida na voz da filha.
— Ai, meu amor... Eu sinto tanto.
— Não precisa sentir. Eu já senti tudo o que tinha pra sentir na hora. Agora tô só tentando não vomitar quando lembro da cara dele. — Ela forçou um sorriso cínico, que mais parecia um escudo.
Helena estendeu a mão por sobre a mesa, mas Atena não se moveu.
— Você não quer... conversar melhor sobre isso?
— Na verdade... quero esquecer. — Ela pegou a taça de suco e tomou tudo de uma vez. — E já que hoje é noite de confissões, talvez você devesse falar logo o que tá tentando engolir desde que a gente se sentou.
Helena arquejou uma risada nervosa, rendida. Claro que Atena sabia. Ela sempre sabia. Não era só inteligente — era afiada, instintiva, e quando queria, desmontava qualquer armadura.
— Ok. — Helena inspirou profundamente. — Eu fiquei noiva.
Atena piscou uma vez. Duas.
— Do Phillip? O produtor super famoso?
— Sim.
Um silêncio caiu entre as duas como uma cortina de veludo pesado.
— Desde quando?
— Ele me pediu há três semanas.
— E você achou que hoje era uma boa noite pra contar?
— Eu... achei que a gente tava num bom momento. Queria fazer isso com calma. Celebrar com você.
Atena riu. Um som seco e descrente.
— Hoje. Depois de eu contar que fui traída, você achou uma boa hora pra brindar o amor?
Helena se encolheu um pouco.
— Desculpa. Eu realmente achei que...
— Que ia suavizar a bomba com velas e risoto?
O silêncio voltou, mas dessa vez era mais duro, cortante.
— Quando é o casamento? — Atena perguntou, encarando a mãe como se ela fosse uma estranha.
— Daqui a dois meses.
— Dois. — Ela repetiu, como se testasse a palavra. — E você ia esperar quanto tempo pra me avisar? No altar?
— Atena...
— E onde vai ser?
— Vai ser... aqui.
— Aqui tipo...?
— Na mansão dele.
O garfo de Atena caiu sobre o prato com um estalo.
— Então deixa eu ver se eu entendi: a gente vai morar na casa dele?
— Um mês e meio antes do casamento.
Atena se recostou na cadeira, olhando para o teto, como se pedisse paciência aos céus.
— Ótimo. Incrível. Que maravilha.
— Eu sei que é muita coisa de uma vez, mas...
— Ele sabe cozinhar? — Atena interrompeu, do nada.
Helena franziu a testa.
— Phillip?
— É. Porque eu só consigo engolir esse noivado se ele fizer panquecas melhores que as suas. Caso contrário, tô fora.
A mãe sorriu, surpresa e aliviada, mas com olhos ainda preocupados.
— Ele... sabe cozinhar. Mal, mas tenta.
Atena respirou fundo. O riso que escapou depois foi real, apesar de carregado de ironia.
— Então vou pensar no caso.
A verdade é que ela não tinha outra opção. A vida da mãe era sua prioridade, mesmo quando tudo parecia uma bagunça emocional. Mas ela precisava de tempo. De espaço. E talvez, só talvez, de um quarto novo para chamar de seu.
— Ele disse que você pode decorar o quarto como quiser.
— Tá tentando me comprar com tinta e papel de parede agora?
— E uma cama king size.
— Hmm... estamos nos aproximando de um acordo.
Helena riu, e Atena riu também, pela primeira vez com o rosto inteiro. Mas havia uma sombra ali, discreta, rondando o canto dos olhos. Não era sobre o quarto, nem sobre Marcus. Era sobre a mudança inevitável que estava prestes a engoli-la.
E o nome dessa mudança era Sinclair.
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