Entre Um e Outro - Ema Cavalcante
1 Decidindo-se
Ele contara, Edmundo revelara em público sua piada, sua triste desgraça. E agora o responsável por publicar sua façanha encontrava apagado, completamente embriagado. Ela até poderia desculpá-lo, foi a dor e o amor que o fizera agir. Mas, isso não apagava o fato de que ela se atinha no meio dos dois. Jorge ao seu lado direito, prumo, eixo; Ernesto do seu lado esquerdo coração e descoordenação. Ambos a olhavam , um apreensivo, envergonhado até; o outro, ela podia até sorrir, um misto de preocupação e satisfação. Na verdade todos a olhavam, e ela sinceramente não queria se ver.
Precisava sair dali, mas seus pés pareciam fincados no chão, enquanto as lágrimas desciam. Precisava de um refugio, de um prumo. Olhou para Jorge, o direito, o amigo, a calma que ela precisava para encarar aquela situação. Mesmo que tivesse Amélia ao seu lado, ela não queria nada que não fosse um ombro sensato e amigo para afastá-la daquela cena cômica e de péssimo gosto. Porém, Jorge estava estagnado, como sempre estivera, nem um sinal de ação, e ela sorriu de sua própria tolice. A quem ela enganaria agora que tudo tinha sido exposto? Então se viu tentada a olhar para onde menos queria, seu lado esquerdo, sua desordem, sua bagunça, sua verdade, seu coração. E foi nesse exato momento que viu o movimento vindo de lá, o mirou e viu a luta em seu olhar, a dúvida, ela não suportou ver a dúvida em seu olhar. Ernesto nunca tivera dúvida de nada. Ela não admitiria que ele tivesse agora. E como sempre, descoordenados, mas sempre bem sincronizados um para o outro, ela avançou para seu lado esquerdo no mesmo instante que ele se precipitou para segurá-la. Corações. Corações batendo furiosos unidos num abraço.
Ema aconchegou-se ao peito dele, vendo suas lágrimas molharem seu colete. Enquanto sentia o aperto aconchegante de seus braços. Ele era tudo. Era paz e desordem. Era causador e protetor. Ernesto era tudo, e mais que isso, ele era tudo que ela precisava.
— Me tira daqui! — sussurrou contra o pescoço dele.
Ela jurara que o tinha ouvido sorrir.
— Nada me daria mais prazer, Baronesinha!
Ele virou o corpo encaixando o dela ao seu lado, abraçou-a pelos ombros, segurando sua cabeça próxima a seu peito. Ela percebeu, querendo protegê-la daqueles olhares astutos e inquisidores dos convidados. Ele sempre, realmente, era tudo que ela precisava. Passo ante passo, ela percebeu que suas pernas se moviam, seus pés avançavam e já descia as escadas do alpendre da fazenda. Seu corpo sempre reagia a ele.
Aquele homem. Aquele homem que pela ordem deveria ser sua última opção, era sempre o primeiro. E se deu conta que não existia ordem. O amor sempre vencia, lá estava Edmundo, derrotado, no chão do salão da Ouro Verde para não lhe deixar mentir. Amor... Ela se deu conta! Amor. Olhou para Ernesto. Resoluto. A certeza voltara ao rosto dele, e parecia apossar-se dela. Ela entendeu, o próprio Edmundo tinha falado em alto e bom som: “E Ema ama Ernesto, que também a ama! Viva o amor!”, a compreensão adentrando em sua mente fazia um frio delicado apossar-se de todo seu corpo. Sorriu, em meio as lágrimas... Talvez não tivesse pronta para admitir a ele ainda, mas já tinha entendido.
E com isso em mente, por enquanto, pelo menos, iria com ele, iria com seu coração para onde quer que ele lhe levasse.
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