Entre Sombras e Segredos
43 📖Capítulo 41: Sob o Luar de Vesperthalia
A jornada para o norte foi marcada por uma mudança drástica na paisagem e no espírito do grupo. À medida que os campos abertos do Reino Élfico ficavam para trás, a terra tornava-se mais acidentada, tingida por tons de cinza e azul profundo. Eles atravessaram os Desfiladeiros de Prata, onde o vento uivava entre as fendas como se estivesse lamentando, e cruzaram florestas de árvores cujas folhas eram tão escuras que pareciam absorver a luz do sol.
As noites eram o período mais difícil. O grupo evitava fogueiras altas para não atrair predadores ou batedores remanescentes de Kael. Eles se revezavam na guarda, sentindo o frio penetrante que descia das montanhas. Aurélia, cada vez mais distante em seus próprios instintos, muitas vezes passava as horas de descanso no topo de rochedos, observando a escuridão. Leonardo a via lá do alto, uma silhueta solitária contra a lua, percebendo que a proximidade com sua terra natal estava despertando algo nela que ele ainda não compreendia totalmente.
Em uma dessas noites, enquanto dividiam uma ração seca sob o abrigo de uma caverna natural, Leonardo finalmente mencionou o que descobriu.
— Aurélia — disse ele, mexendo na palha do acampamento — encontrei registros nos laboratórios de Kael. Ele tinha uma obsessão pelo sangue do seu clã, algo sobre estabilizar energias do Abismo. Parece que ele via sua linhagem como um tipo de âncora.
Aurélia mal desviou o olhar das sombras da floresta. O assunto parecia distante, uma nota de rodapé diante do peso que sentia no peito ao retornar para casa.
— Kael é um fantasma do passado agora, Leonardo — respondeu ela, a voz fria. — Se ele queria meu sangue para seus experimentos, terá que vir buscá-lo no inferno. Guarde isso. Temos preocupações maiores quando cruzarmos a fronteira.
O assunto morreu ali, pairando como um gancho para um futuro inevitável, mas soterrado pela urgência do presente.
Dois dias depois, eles finalmente entraram na Floresta das Brumas, o cinturão verde e sombrio que protegia Vesperthalia. O ar era espesso, carregado com o cheiro de pinho úmido e terra molhada. A luz do dia mal penetrava a copa das árvores gigantescas. De repente, o cavalo de Aurélia empinou, relinchando de pavor.
Antes que Leonardo pudesse sacar sua lâmina, vultos saltaram das vinhas das árvores e emergiram do subsolo coberto de folhas secas. Eram lobos em forma humana, vestidos com couros escuros e armados com lanças de osso e aço negro. No centro do cerco, um homem alto, com olhos que brilhavam com um dourado elétrico e cabelos da cor do corvo, caminhou lentamente à frente.
— O cheiro de traição viaja mais rápido que o vento, irmã — disse o homem, sua voz carregada de um desdém cortante.
Era Valerius, o irmão de Aurélia.
— Valerius — Aurélia deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Saia do meu caminho. Estou voltando para casa.
— Casa? — Valerius soltou uma risada seca e amarga. — Você perdeu o direito de chamar este lugar de casa quando fugiu e se misturou com a escória.
Ele desviou o olhar para Leonardo, analisando o humano com uma indiferença que beirava o nojo. Não havia ódio em seus olhos para com Leonardo, apenas a mesma falta de importância que se dedica a um inseto sob a bota.
— E você traz um humano? Um animal de vida curta para dentro dos nossos portões sagrados? — Valerius voltou-se para Aurélia, o rosto transfigurado pela raiva. — O que você se tornou, Aurélia? Uma mascote de homens?
— Ele lutou ao meu lado enquanto nosso povo se escondia nas sombras! — rugiu Aurélia, seus dentes caninos alongando-se enquanto ela avançava.
O conflito físico foi breve, mas violento. Valerius a interceptou com uma velocidade sobre-humana, e por um momento, os dois irmãos foram um borrão de garras e força bruta. Ele a prensou contra o tronco de uma árvore secular, seu rosto a centímetros do dela.
— Por que ele está aqui? — Valerius rosnou, ignorando completamente os protestos de Leonardo. — O que um humano poderia possuir que justificasse profanar nosso solo?
— Ele é mais leal do que você jamais foi ao nosso sangue — respondeu ela, empurrando-o com um chute poderoso.
Valerius limpou um rastro de sangue no canto da boca e olhou para o grupo de guerreiros ao redor. A tensão era absoluta. Após um longo silêncio, ele fez um sinal para seus homens baixarem as armas, embora seus olhos nunca deixassem de vigiar Aurélia com desconfiança.
— Que assim seja. Deixem que entrem. Deixem que vejam o que restou. Mas se o humano der um passo em falso, eu mesmo arrancarei o coração dele antes que ele possa implorar por misericórdia.
O caminho até a cidade foi um rastro de hostilidade silenciosa. Quando finalmente cruzaram os portões de pedra gótica de Vesperthalia, a visão era de uma beleza melancólica. Construções de pedra escura subiam em espirais em direção ao céu, integradas perfeitamente às árvores ancestrais. O luar de prata iluminava as ruas de paralelepípedos.
O movimento na cidade parou. Moradores saíam de suas casas de arquitetura austera, observando o grupo passar. O clima não era de festa, mas de estranhamento absoluto. Os olhares não caíam sobre Aurélia, mas sobre Leonardo. As conversas cessavam, substituídas por sussurros de desaprovação. O povo de Vesperthalia olhava para Leonardo como se ele fosse uma anomalia, um erro na realidade daquela cidade isolada. As mães puxavam os filhos para dentro e os guerreiros nas sacadas apertavam os cabos de suas espadas.
Leonardo sentia o peso de mil olhos sobre si. Ele era o primeiro estranho a pisar ali em décadas, e a frieza dos lobos era mais cortante que o clima da montanha. Eles haviam chegado, mas a batalha pela aceitação — ou pela sobrevivência — estava apenas começando.
Essa adição traz uma tensão excelente para o clima da cidade ancestral. O contraste entre o olfato apurado dos lobisomens e a natureza enigmática do Leonardo reforça que ele não é apenas um "intruso", mas algo que desafia a lógica daquela linhagem.
— Olha só para isso... — murmurou uma voz rouca, vinda de um grupo de anciãos sentados à porta de uma taverna rústica. — O que a protegida do Alfa trouxe para casa?
O irmão de Aurélia, que caminhava logo à frente, parou abruptamente. Ele se virou para o lado, as orelhas movendo-se levemente, captando o que um humano comum jamais ouviria.
— Se têm algo a dizer, digam na minha cara, e não como covardes escondidos no escuro — retrucou ele, a voz carregada de uma autoridade impaciente.
Um dos moradores mais velhos, cuja pele parecia pergaminho curtido pelo tempo, deu um passo à frente. Ele não olhou para o irmão de Aurélia, nem para a loba. Seus olhos baços estavam fixos em Leonardo. O ancião inspirou profundamente, as narinas dilatando-se enquanto captava o rastro deixado pelo rapaz.
— Esse aí... — o velho falou baixinho, mas com uma clareza cortante. — Ele cheira a sangue dos Braverd. O cheiro é inconfundível, mas está errado.
O irmão de Aurélia franziu o cenho, aproximando-se.
— O que quer dizer com "errado"? Ele é um humano, um protegido.
— Não — o ancião balançou a cabeça lentamente, um calafrio percorrendo os outros moradores ao redor. — A presença dele não é a de um homem. Não há o calor da vida comum nele. O que sinto... é uma anomalia. Algo que não deveria existir. Ele está mais para uma entidade do que para um mortal.
O silêncio que se seguiu foi pesado. O irmão de Aurélia virou-se para Leonardo, os olhos estreitados em desconfiança, analisando o rapaz de cima a baixo como se o visse pela primeira vez sob uma nova luz.
— Sangue Braverd, — questionou o irmão, a voz agora baixa e carregada de dúvida. — Aurélia, o que exatamente você trouxe para o nosso território? Ele é mesmo um braverd, ou algo que apenas usa a mais?
Leonardo permaneceu imóvel, sentindo o peso de dezenas de olhares predatórios sobre si, enquanto a dúvida plantada pelos anciãos começava a corroer a pouca confiança que restava no vilarejo.
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