Entre Sombras e Segredos
36 📖 Capítulo 34: O Triunvirato de Sangue
O topo da montanha, antes castigado pelo vento uivante, mergulhou em um silêncio antinatural. Grimshadow parou a poucos metros de Leonardo. Suas garras perfuravam o solo rochoso, e a aura que emanava dele não era mais de um mentor, mas de uma relíquia viva de uma era de massacres.
— Para que você entenda o peso do sangue que corre em suas veias, Leonardo, o mundo ao seu redor precisa calar-se. — A voz de Grimshadow vibrou no peito do jovem como um trovão distante. — Umbra.
A palavra foi o gatilho. No mesmo instante, a luz do sol de 1286 foi violentamente devorada. A escuridão não caiu como a noite; ela expandiu-se de Grimshadow como um domo de breu líquido, sólido e absoluto. Em segundos, o horizonte desapareceu. Não havia céu, não havia terra. Restavam apenas os olhos prateados da Besta Sagrada e a respiração pesada de Leonardo no vácuo.
O Eco de 8 Mil Anos
— O que os humanos chamam de "civilização" é apenas uma crosta fina sobre uma ferida que nunca cicatrizou — começou Grimshadow, sua voz ressoando de todos os pontos da escuridão. — Volte comigo. Oito milênios atrás. O ano era 6714 antes da sua era.
No vazio da Umbra, imagens feitas de fumaça cinzenta e fogo fatuo começaram a se projetar. Leonardo viu um mundo jovem, mas fragmentado.
— Naquela época, o equilíbrio não passava de um conceito frágil. Os Demônios de Erfén não aceitavam a separação das dimensões. Eles queriam o caos, a carne e o domínio. O plano deles foi a maior traição da história: eles não invadiram com exércitos de início; eles usaram o Desejo Obsceno. Infiltraram-se na mente dos primeiros humanos, oferecendo o que chamavam de "magia".
As imagens mostraram homens e mulheres com olhos obscurecidos, realizando rituais que rasgavam o tecido da realidade.
— Esses foram os primeiros Magos. Seres nascidos de um pacto de sangue, humanos cujas almas foram moldadas pela energia de Erfén. Eles eram cavalos de Troia. O objetivo era um ritual global: fundir a Terra ao Inferno, apagando a linha entre o místico e o mortal.
A Brutalidade do Triunvirato
As projeções tornaram-se violentas. Leonardo viu criaturas colossais — os Dragões — mergulhando dos céus em chamas, enquanto legiões de demônios saíam de fendas no chão.
— O Triunvirato de Sangue. Foi assim que batizamos aquela era. Uma guerra de três frentes: Dragões protegendo seu orgulho, Demônios buscando a destruição e Humanos lutando para não serem extintos. Foi um massacre sem paralelos. Cidades inteiras sumiram em cinzas. Oitenta por cento da vida no mundo foi erradicada em menos de uma década. Nós, as Bestas Sagradas, sangramos ao lado dos mortais, vendo nossos irmãos caírem um a um sob o peso da superioridade numérica de Erfén.
O Surgimento de Merlin
— No auge do desespero, surgiu uma anomalia. Seu nome era Merlin.
Uma figura solitária apareceu na névoa da Umbra. Ele não brilhava como um deus; ele emanava uma calma terrível.
— Merlin não era como os magos corrompidos. Ele compreendeu que a magia era a linguagem do mundo, não uma ferramenta de poder. Ele foi o único, em toda a eternidade, capaz de estabelecer um elo com as cinco Bestas Sagradas simultaneamente. Ele nos liderou. Ele nos deu um propósito quando estávamos prontos para desistir.
Grimshadow deu um passo à frente, a escuridão da Umbra ondulando ao seu redor.
— Merlin sabia que a vitória total era impossível. Então, ele escolheu o sacrifício. Antes de selar as portas de Erfén com sua própria alma, ele garantiu que sua essência continuasse. Ele deixou descendentes, sementes de uma linhagem que um dia teria que vigiar os portões. Ele morreu para que o mundo pudesse esquecer o nome do Inferno.
O Filho do Paradoxo
A voz de Grimshadow tornou-se mais grave, quase temerosa.
— Nós fizemos uma profecia naquela noite, cercados pelos corpos dos caídos. Sabíamos que, após 8 mil anos, o selo enfraqueceria e um descendente de Merlin teria que despertar. Mas nem a sabedoria das Bestas poderia prever o que o Destino reservava para você, Leonardo.
— O Abismo... aquela força primordial que existia antes da primeira luz e que não se curva a demônios ou deuses... ele não ligava para a nossa guerra. Ele não se importa com o equilíbrio. Mas, por um capricho do destino, ele cruzou o caminho de Ayla.
Grimshadow parou diante de Leonardo. A escuridão da Umbra começou a pulsar em sincronia com o coração do rapaz.
— Você é o impossível, Leonardo. Você é o sangue de Merlin — o homem que trancou a porta — fundido à essência do Abismo, a força que nunca precisou de chaves. Oitocentos anos de história esperavam por um herdeiro de Merlin para proteger o mundo, mas o que recebemos foi você: um paradoxo ambulante que pode ser a salvação final que pode salvar o que Merlin levou a vida inteira.
A técnica Umbra começou a se desmanchar em fragmentos de sombra, e a luz fria da tarde de 1286 retornou aos olhos de Leonardo. O silêncio da montanha voltou, mas para o jovem, o mundo nunca mais soaria o mesmo.
Fale com o autor