Entre Sombras e Segredos
3 📖 Capítulo 3 - Parte 1: O Visitante
O envelope tremia nos dedos de Leonardo, como se quisesse escapar. O papel queimava contra sua pele, e os símbolos pareciam dançar, vivos. Mas o silêncio da casa foi quebrado por um rangido profundo no corredor.
A porta abriu-se devagar.
Elion surgiu.
- Então... você finalmente chegou — disse, a voz baixa, tão controlada que soava ensaiada.
Leonardo recuou um passo. — O que você quer de mim tio?
O homem avançou, lento, o cabelo prateado refletindo a pouca luz. Os olhos claros o atravessaram como lâminas.
- Pergunta errada, garoto. Não é o que eu quero... é o que você já está se tornando.
Leonardo franziu o cenho, tentando firmar a voz. — Eu não entendo.
Elion sorriu de lado, um sorriso breve, cruel. — Não precisa entender. Só sentir. E você sente, não sente? O peso no peito, os sussurros na sala... — ele gesticulou levemente, como se indicasse o vazio ao redor. — Eles chamam por você.
- Não... isso não é real.
- Real? — Elion inclinou a cabeça, como se estudasse um animal preso. — Você acha que a realidade liga para o que você acredita?
Leonardo respirou fundo, tentando disfarçar o medo, mas sua voz falhou. — Me diga a verdade. O que está acontecendo comigo?
Elion se aproximou mais, e o ar pareceu se comprimir, pesado, sufocante.
- A verdade? — repetiu, quase num sussurro. — A verdade é que você sempre foi uma peça. A diferença é que agora... o tabuleiro começa a se mover.
O envelope escorregou das mãos de Leonardo e caiu no chão. Ele tentou se abaixar, mas uma vibração percorreu seu corpo, fria como gelo nos ossos. Os sussurros cresceram, mais altos, como vozes apressadas, desesperadas.
- Está ouvindo? — murmurou Elion, aproximando-se ainda mais. — Eles não querem te destruir, Leonardo. Eles querem te moldar.
- Eu não sou como você. — A frase saiu num rompante, mas tremida.
Elion riu baixo, seco, sem humor. — Não, ainda não é. Mas cada medo seu, cada dúvida, cada batida acelerada desse coração tolo... já te aproxima de mim.
Leonardo recuou até a parede, sentindo-se encurralado. — Por que eu?
Os olhos prateados do tio brilharam na penumbra.
- Porque sangue não escolhe. Ele chama. E você... — aproximou-se o bastante para que o hálito gelado tocasse o rosto de Leonardo. — ...já respondeu.
O silêncio caiu entre eles, pesado. Apenas os sussurros preenchiam o espaço, rastejando pelas paredes. Elion não precisou de mais nada. A ameaça não estava em suas mãos, mas nas palavras que deixava envenenar o ar.
Leonardo entendeu: não havia saída. Não era apenas observado. Era um experimento... e Elion estava ali para moldar o resultado.
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