Entre Sombras e Segredos

7 📖Capítulo 6 - Vozes do Abismo


O salão ancestral do clã Braverd era um coração petrificado, pulsando em silêncio. As tochas queimavam fracas, como se a própria luz não ousasse desafiar a sombra. O círculo dos anciãos estava completo, mas só um deles se erguia diante de todos: Eryon, o mais velho.


Sua voz começou como um fio de vento, rouca, mas cada palavra parecia ter peso de pedra.


— O sangue desperto… carrega mais que herança. Ele é passagem.


O cajado bateu no chão, vibrando nos ossos de todos.


— Vocês falam de Kael como se fosse homem. Mas Kael é só carne. O que nele abriu o selo não é homem… é o abismo.


As tochas minguaram, curvando-se como escravas.


— Não pensem no abismo como lugar. Nem como criatura. O abismo é fome. É ausência desejando existir. Ele não escolhe. Ele chama. E todo aquele que escuta já está perdido.


Sua voz, antes baixa, agora ecoava como trovão contido na terra.


— O garoto não é vítima. Ele é ponte. E toda ponte liga dois mundos.


Silêncio. Até que Maelith, a única mulher entre eles, ergueu a voz.


— Se é ponte, não se destrói a passagem antes de saber o que cruza por ela. Observem-no. Julgar cedo é o mesmo que cegar-se de propósito.


As palavras dela permaneceram no ar como veneno lento.


E, como se a noite escutasse, outra cena nasceu distante…


Leonardo caminhava ofegante. Não havia corrida, apenas o peso de algo invisível sobre os ombros. Desde o primeiro encontro, os olhos de Aurélia nunca haviam deixado sua sombra.


Ela seguia ao lado, fria e firme, como uma lâmina.


— Você teme — disse, sem olhar para ele. — Mas ainda assim avança. Isso já é escolha.


Leonardo engoliu seco.

— E se eu não quiser continuar?


Aurélia parou. A noite pareceu parar com ela.

— Então o abismo continuará por você.


O peito dele queimava, mas antes que respondesse, a visão o golpeou.


Um grito. Cortante. Um pedido de socorro.

A criança diante dele… o rosto idêntico, os olhos iguais. Mas não era ele. Nunca foi.

O chão pareceu fugir debaixo de seus pés.

— Não… não sou eu… — murmurou, em choque. — É outro.

A respiração falhava, o coração batia como se quisesse escapar.

— Um irmão…?

Aurélia permaneceu imóvel. Não negou. Não confirmou. Apenas o observava, como se o silêncio fosse a resposta mais cruel.


E, em outro lugar, outras vozes também falavam dele.


A névoa era espessa, como ossos triturados suspensos no ar. Kaorath permanecia imóvel, olhos fechados, enquanto a terra parecia esperar que ele respirasse.


Atrás dele, Anastásia. Sua venda pulsava, viva.


Kaorath falou primeiro, como quem rompeu um pensamento.

— Você ouve?


— Ouço — respondeu ela, com a calma de quem nunca deixa de ouvir.


— O que chamam?


O sorriso de Anastásia se abriu devagar.

— Não o menino. O outro.


Kaorath abriu os olhos. Nenhum brilho, apenas profundidade.

— Ele ainda existe?


— Existe. Mas não aqui. — Sua voz oscilava como se fosse de muitas bocas. — Está preso… entre.


Um silêncio tenso se instalou.


Kaorath curvou levemente o rosto, quase em deleite.

— Então Leonardo não grita sozinho.


— Não. — Anastásia inclinou a cabeça. — E é isso que o abismo mais deseja: dois ecos que se buscam, sem nunca saber se se encontrarão.


Nenhum dos dois sorriu. Mas a quietude deles era pior que qualquer ameaça.

E em torno deles, nada ousava se mover.