Entre Sombras e Segredos

44 📖Capítulo 42: Selo de Darknox


A tensão na praça central de Vesperthalia era um fio de navalha prestes a cortar a garganta de cada presente. Valerius mantinha a postura de ataque, os caninos à mostra, e o rosnado coletivo da matilha formava um coro fúnebre ao redor de Leonardo. Mas o som que quebrou o transe não foi um grito, e sim o impacto pesado de botas de couro reforçadas contra a pedra fria.

— Já chega! — A voz não apenas soou; ela vibrou no peito de cada pessoa.

A multidão se abriu como o Mar Vermelho. Fenris, surgiu das sombras da mansão. Ele era uma montanha de homem, com cicatrizes de batalhas que contavam a história de um clã que se recusava a morrer. Seus olhos âmbar pareciam ler a alma de qualquer um que cruzasse seu caminho.

Ele caminhou até parar a centímetros de Leonardo. O rapaz não recuou, embora o instinto de sobrevivência gritasse. Fenris inspirou fundo, o peito expandindo-se ao captar cada nota do aroma do jovem.

— Um Braverd — murmurou Fenris, e um clamor de desaprovação subiu da multidão. — Sim, eu sinto o sangue. O sangue daqueles que caçaram nossos avós por esporte.

Valerius deu um passo à frente, triunfante: — Viu, pai? Ele é um inimigo!

Fenris levantou uma mão, silenciando o filho com um olhar de advertência que faria um lobo alfa de outra matilha recuar.

— Mas este Braverd... este rapaz é a razão de minha filha estar viva. Aurélia não entrega sua confiança a vermes, e eu confio no julgamento de minha herdeira. Se ela diz que ele é um aliado, Vesperthalia o tratará como tal. Quem desafiar isso, desafia a mim.

O silêncio foi de puro choque. Valerius apertou os punhos, a mandíbula travada. No entanto, a pose de líder implacável de Fenris derreteu no segundo seguinte, quando ele se virou para Aurélia.

— Minha pequena loba! — A voz dele subiu uma oitava, perdendo toda a agressividade. — Pelos deuses, você está pálida! Aquele reino de elfos vegetarianos não te deu carne? Você parece um graveto!

Ele a envolveu em um abraço de urso que tirou os pés de Aurélia do chão.

— Pai... na frente de todo mundo, não... — Aurélia resmungou, o rosto ardendo de vergonha enquanto Valerius revirava os olhos, indignado com a "derrota" de sua autoridade.


A mansão do clã era uma estrutura gótica onde a pedra era aquecida por lareiras que nunca se apagavam. Ao cruzarem o umbral, um borrão de energia disparou do topo da escadaria.

— LIA! — O pequeno Erik, de apenas oito anos, voou degraus abaixo e saltou no pescoço da irmã. Aurélia riu, uma risada genuína que Leonardo raramente ouvira. O pequeno lobo logo se soltou, olhando para Leonardo com uma curiosidade descarada: — Você é o humano? Você tem poderes? É verdade que humanos quebram se a gente apertar muito forte?

— Erik, modos — uma voz suave, mas firme, ecoou.

Selene, a matriarca, aproximou-se com uma elegância letal. Ela cumprimentou Leonardo com um aceno de cabeça impecável, embora seus olhos analisassem cada fibra do seu ser. O jantar que se seguiu foi uma cena surreal: de um lado, Valerius emanando ódio em silêncio; do outro, Fenris tentando empilhar as melhores fatias de javali no prato de Aurélia, enquanto Erik disparava perguntas sem parar.

Ao fim da noite, Fenris se levantou, a expressão tornando-se severa novamente.

— Vou levá-los aos seus aposentos. Mas prestem atenção: Vesperthalia à noite pertence a coisas que nem mesmo nós gostamos de enfrentar. Não saiam de seus quartos após a meia-noite. Se ouvirem vozes conhecidas chamando lá fora... ignorem.

A aura de Fenris começou a pesar na sala, fazendo as sombras dançarem de medo, até que Selene colocou a mão em seu ombro.

— Querido, menos. Você vai assustar o rapaz antes da hora. — O Alfa murchou instantaneamente, pedindo desculpas enquanto os conduzia escada acima.

Longe dali, no limite da floresta, o ancião Malakai ajoelhava-se diante do Carvalho Ancestral. O sangue de sua mão cortada tingia as raízes enquanto ele invocava o espírito da cidade.

A árvore estalou e o rosto de névoa de Vesperthalia emergiu, seus olhos de luz esmeralda brilhando com uma sabedoria milenar. A entidade olhou em direção à mansão, mas, no mesmo instante, algo aconteceu.

No alto da sacada da mansão, Leonardo, que deveria estar dormindo, observava a floresta. Seus olhos, agora brilhavam em um vermelho escarlate pulsante, com um símbolo complexo e obscuro gravado nas pupilas. Ele não parecia mais um humano; parecia um predador do qual até os pesadelos teriam medo.

Leonardo fixou o olhar exatamente na direção de Malakai e do espírito, cruzando quilômetros de escuridão com uma percepção impossível. O espírito de Vesperthalia estancou. A névoa que formava seu rosto começou a oscilar violentamente.

Na sacada, os lábios de Leonardo se moveram em um sussurro frio que pareceu viajar pelo vento até os ouvidos da entidade:

— Você não deve interferir nesses assuntos, Vesperthalia. Saiba o seu lugar.

O efeito foi imediato. O espírito da floresta, uma força que existia há eras, recuou. Pequenas gotículas de uma seiva clara — o equivalente ao suor para uma entidade arbórea — brotaram na casca do carvalho. Ela estava aterrorizada.

Malakai, sentindo a mudança drástica na energia, olhou para o espírito com pavor: — O que... o que foi isso? O que você viu?

O espírito de Vesperthalia, ainda tremendo e com o rosto de névoa quase se dissipando de medo, forçou uma voz instável:

— Não... não se preocupe, Malakai. Apenas observe. Ele é... ele é a chave para tudo. Não faça nada.

A entidade antes de sumir, pensou: Darknox? — e então apressadamente entrou para dentro do tronco, deixando Malakai sozinho com o silêncio da noite, sem saber que, na mansão, o brilho vermelho nos olhos de Leonardo se apagava enquanto ele voltava para a escuridão do seu quarto, como se nada tivesse acontecido.


Leonardo sentiu uma pontada aguda nas têmporas, como se agulhas de gelo perfurassem seu crânio. A luminosidade carmesim que emanava de seus olhos vacilou até se apagar por completo, deixando apenas o vazio da exaustão. Sem forças para questionar o que acabara de presenciar, ele desabou em um sono pesado e antinatural.

No abismo de sua mente, a escuridão não era estática; ela pulsava. Diante dele, a silhueta colossal e amorfa de Voidrex se materializou, uma mancha de puro vácuo contra o nada.

— É fascinante como o destino tece diversão onde deveria haver apenas silêncio — a voz da Sombra ecoou, vibrando nos ossos de Leonardo. — Nenhum humano jamais foi capaz de suportar o peso do selo de Darknox. A agonia deveria ter consumido sua alma em segundos, mas você... você já não pertence mais a essa linhagem frágil.

A entidade inclinou-se, o olhar invisível vasculhando a essência do rapaz.

— Eu me pergunto quem teria a audácia de entregar tal fardo a você. Teria alguém rompido o selamento que eu mesmo projetei, ou seria você um capricho cósmico, nascido com a marca gravada no espírito? São perguntas que eu adoraria responder, pequeno Braverd. Mas, no fim, a verdade é irrelevante para quem caminha no escuro. Mesmo que eu revelasse os segredos do princípio, ao despertar, você não carregará nada além do esquecimento. Aproveite o silêncio, enquanto ele ainda é seu.