Entre Sombras e Segredos
41 📖Capítulo 39: Fragmento de uma Alma Morta
O silêncio que se seguiu ao último uivo de Aurélia não foi um sinal de paz, mas de exaustão cósmica. Quando seu corpo finalmente colidiu contra os lençóis de seda do Palácio Élfico, o ar ao redor dela ainda estalava com o ozônio de uma realidade que fora costurada à força.
Um servo da corte entrou no quarto, tropeçando nos próprios pés. Em suas mãos, repousava uma redoma de cristal contendo um fragmento da Árvore-Mãe. O fragmento brilhava com uma luz comum; ela emitia uma pulsação gravitacional que fazia os ossos de todos os presentes vibrarem em uma frequência de reverência e medo.
Quando o fragmento foi aproximado do peito de Aurélia, o efeito foi imediato e violento. A energia de Elyria, impregnada de vácuo e morte recente, reagiu à força primordial da Árvore. Faíscas de um violeta absoluto saltaram da pele da loba, duelando com a ressonância ancestral do fragmento. Por um segundo, o corpo de Aurélia arqueou-se, suspenso por fios invisíveis de poder, antes de desabar definitivamente. O fragmento não apenas a curava; ele estava selando a anomalia em sua alma.
Aurélia abriu os olhos.
Por alguns segundos, não havia nada além de um branco absoluto em sua mente — uma tela vazia onde a identidade deveria estar. Então, a represa rompeu.
As memórias da "outra" Aurélia inundaram seu consciente como vidro moído correndo pelas veias. Ela sentiu o frio da lâmina que a matou na outra linha do tempo; ouviu o choro de um filho que ainda não nasceu, mas que ela já vira morrer; sentiu o gosto de cinzas de um futuro que ainda era apenas uma promessa de destruição.
— Ar... eu... não consigo... — Ela arquejou, levando as mãos à garganta.
As expressões ao redor eram de puro terror. Leonardo tentou avançar, mas parou, paralisado pelo que via. O rosto de Aurélia estava contorcido em uma agonia que transcendia o físico. Suas mãos arranhavam os lençóis enquanto as palavras começavam a jorrar de sua boca em um fluxo caótico:
— As torres... elas caem antes do sol nascer! O fogo não queima a carne, ele devora a esperança! Ele está vindo... o Lorde das Cinzas não espera pelo tempo, ele é o tempo parado!
Sua voz oscilava. Em um momento era o tom doce de Aurélia; no seguinte, uma voz mais profunda, gélida e carregada de uma fadiga milenar.
— Aurélia, olhe para mim! — Leonardo gritou, as lágrimas queimando seus olhos ao ver a mulher que amava se fragmentar diante dele.
A transformação física começou a se manifestar com uma rapidez assustadora. Os cabelos prateados de Aurélia, símbolo de sua linhagem, começaram a ser tingidos por mechas de um violeta abissal, uma cor que parecia não refletir a luz, mas sim devorá-la. Era a marca indelével de Elyria, o preço de ter sido tocada pelo Refúgio Celestial.
A loba sentou-se na cama com um solavanco, encarando a realeza élfica. Seus olhos haviam mudado para sempre. Onde antes havia a íris lupina, agora brilhava um símbolo lunar prateado incrustado em um fundo de escuridão total. O símbolo pulsava conforme ela respirava, uma bússola mística gravada em sua própria visão.
A Rainha dos Elfos recuou um passo, a mão sobre o peito sentindo a pressão que emanava de Aurélia. O fragmento da Árvore-Mãe agora estava silencioso.
Aurélia parou de gritar. O ar no quarto ficou pesado, denso como chumbo. Ela olhou para as próprias mãos, vendo a aura de "cinzas e estrelas" que emanava de seus poros. Ela não era mais apenas uma loba.
Ela era o fragmento de uma alma morta, devolvida ao mundo para garantir que a morte não tivesse a última palavra.
— Eu vi... — ela sussurrou, sua voz agora uma uníssona e assustadora harmonia de duas vidas. — Eu vi como todos nós terminamos. E desta vez, eu não vou permitir.
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