Entre Sombras e Segredos

4 📖 Capítulo 3 - Parte 2: A Visão do Passado


O frio atravessou Leonardo como centenas de lâminas afiadas. Seus olhos se tornaram brancos, e o mundo ao seu redor derreteu em escuridão líquida. Ele não estava mais na casa; estava em um lugar que parecia vivo, respirando com dores e gritos invisíveis. Risadas se transformavam em choros, passos sem dono ecoavam, e sussurros de crianças chamavam seu nome, confundindo passado e presente.

O chão sob seus pés pulsava como carne. Ele percebia estar flutuando sobre uma superfície coberta de sombras que se contorciam, arranhando sua mente e deixando cicatrizes de medo que queimavam como fogo. O cheiro metálico e azedo de sangue e suor invadia suas narinas.


Então, ele viu Kael.

Não o pai, mas um monstro.

Manipulava seringas, tubos e máquinas, observando crianças como se fossem apenas números em uma experiência. Entre elas, Leonardo viu a si mesmo, pequeno, indefeso, sendo perfurado por agulhas que queimavam músculos, ossos e consciência.


Gritos ecoaram dentro de sua cabeça. Cada batida do coração era um martelo no peito. Tentou gritar, mas sua voz se dissolveu em um eco distorcido, sugado por um abismo invisível.


E ali, imóvel, estava Elion.

Ao seu lado.

Observando.

Não o tocava, não o salvava. Apenas acompanhava sua tortura com olhos prateados, analisando cada tremor, cada lágrima, cada reação. Não era inimigo direto, mas também não era aliado. Era o espectador de sua agonia.


As imagens pioraram. Crianças marcadas, câmaras cheias de dor, experimentos brutais. Uma delas morreu diante de seus olhos, e Kael apenas anotou, frio, meticuloso. A náusea tomou Leonardo. Queria desmaiar, mas não conseguia. Algo o forçava a assistir. O tempo se distorcia — segundos se arrastavam como eternidades.


- Concentre-se! — a voz de Elion cortou o caos. Firme, baixa, mas tão penetrante que atravessou sua mente. — Não se perca. Lembre-se de quem você é.


Leonardo agarrou-se a essa ordem como a um fio de vida. Respirou fundo, lutou contra o colapso, até que, pouco a pouco, a escuridão recuou. O chão voltou a existir. Seus olhos perderam o branco, mas seu corpo tremia inteiro, o peito queimava e sua mente latejava como se tivesse sido perfurada por centenas de agulhas invisíveis.


O quarto estava em silêncio. Mas o peso do que presenciara ainda vibrava no ar. Elion continuava lá, imóvel, registrando cada detalhe de sua reação.


- É real... — a voz de Leonardo saiu fraca, quebrada. — Tudo... o que meu pai fez.


Elion apenas inclinou a cabeça, sem resposta, sem consolo.


Leonardo percebeu que não havia visto apenas memórias. Aquilo era um aviso. Uma preparação cruel. Uma ferida aberta que revelava o horror correndo em suas próprias veias.


E ali, sem volta, ele soube: o verdadeiro pesadelo estava apenas começando.