Entre Sombras e Segredos

19 📖 Capítulo 18 - Ecos do Retorno


Ao retornar de onde estava, Abyssus abriu os olhos e diante dela, estava Elion.

— Aconteceu alguma coisa? Você do nada fechou os olhos e disse que alguém estava te chamando — perguntou Elion.

— A Árvore-Mãe me invocou no subconsciente de uma das pontes por causa de um parasita.

— Parasita? — perguntou Elion.

— Sim! A Árvore-Mãe é um ser ao qual eu não posso me opor. Eu a respeito e a temo; é algo automático. E é uma história antiga para ser contada agora.

— Interessante — sussurrou Abyssus.

[Pensamento de Abyssus]

— Então as pontes estão próximas uma da outra.


O sol da manhã atravessava os vitrais do quarto, pintando o espaço com tons quentes de dourado. Leonardo despertou lentamente, os olhos se abrindo para a luz que lhe parecia mais intensa do que antes. Cada respiração ainda carregava o peso dos dias de sofrimento, mas já havia uma força sutil retornando ao seu corpo.


Aurélia estava ao seu lado, sentada na cadeira próxima à cama, a mão firmemente entrelaçada à dele.

— Finalmente acordou — disse ela, com um sorriso que misturava alívio e reprovação leve. Já estava começando a achar que teria que carregar você para o salão do banquete.


Leonardo tentou esboçar um sorriso, mas soltou apenas um suspiro.

— Eu... quase posso ouvir você suspirando aliviada. Admito que funcionaria melhor se eu estivesse realmente morto. disse, tentando brincar, mas a voz ainda fraca denunciava o quanto estava cansado.


Aurélia arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Interessante. Um mortal recém-saído de um pesadelo quase fatal tentando fazer piada. Preciso lhe dizer que não funcionou.


Ele riu baixo, fechando os olhos por um instante.

— Eu gosto de tentar, mesmo quando não funciona.


Ela balançou a cabeça, mas não conseguiu conter um sorriso.

— Sabe, eu realmente pensei que tinha perdido você. Cada vez que eu fechava os olhos, imaginava que... -sua voz tremeu levemente.. que talvez não houvesse como te trazer de volta.


Leonardo apertou sua mão, olhando-a nos olhos.

— Eu sei. Eu senti que você estava lá, mesmo quando eu não podia sentir nada. Obrigado por não ter me deixado sozinho.


Aurélia desviou o olhar, corando levemente.

— Não havia outra opção. E você sabe disso.


— Talvez seja por isso que você é impossível de ignorar — disse ele, com um sorriso tímido, mas sincero.


Ela riu, uma risada curta, mas genuína, tocando o braço dele.

— E você continua com essas palavras que parecem bem ensaiadas, mas eu consigo sentir quando são sinceras.


— Então é bom saber que algumas coisas ainda funcionam — respondeu ele, ainda sorrindo.


Por um momento, ficaram em silêncio, apenas aproveitando o calor e a sensação de segurança. O mundo parecia ter diminuído de tamanho, cabendo apenas aquele quarto, aquela manhã e a companhia um do outro.


O rei Eldarion entrou em seguida, acompanhado de Lythienne, seu semblante sério suavizado pelo alívio de ver Leonardo desperto.

— Hoje à noite haverá um banquete — anunciou o rei. Em celebração à sua recuperação, Leonardo. A corte deve ver que a paz ainda se mantém, e você estará presente como símbolo disso.


Aurélia apertou a mão dele, encorajando-o com um olhar firme.

— Ele estará pronto — disse, confiante.


Leonardo assentiu, sentindo que, apesar da fraqueza residual, podia enfrentar a noite, e que com Aurélia ao seu lado, nenhum desafio parecia grande demais.



À noite, o grande salão estava iluminado por candelabros que lançavam reflexos dourados nos vitrais, e mesas fartas exibiam pratos requintados. Músicos tocavam suavemente, e nobres conversavam, riam e brindavam, sem perceber que algo estava prestes a mudar o clima da noite.


A porta principal se abriu com passos silenciosos, e uma figura elegante entrou. Seus cabelos negros caíam sobre os ombros, mas o detalhe mais chamativo era a venda cobrindo seus olhos. Murmúrios se espalharam, e alguns convidados se curvaram em reverência ao perceberem que se tratava de Anastasia.


Ela dirigiu-se primeiro aos pais, os reis. Ao aproximar-se, Lythienne deu um passo à frente, franzindo o cenho:

— Minha filha… por que usa essa venda nos olhos?


Anastasia permaneceu em silêncio, inclinando a cabeça levemente. A tensão pairava no ar, até que uma dor súbita atravessou sua mente, trazendo consigo uma lembrança clara: Kaorath, falando sobre a venda, seu propósito e o que ela escondia. Respirando fundo, Anastasia desviou o olhar, respondendo com suavidade:

— Algumas escolhas não precisam de explicação agora.


O rei Eldarion assentiu, embora seu olhar ainda carregasse uma mistura de preocupação e curiosidade.


Logo em seguida, o príncipe herdeiro chegou, os olhos se iluminando ao vê-la.

— Anastasia! — disse, com genuína alegria na voz. — Pensei que nunca mais a veria tão cedo.


Ela sorriu levemente, curvando-se em reverência.

— Eu voltei, irmão.


— Voltar é pouco — respondeu ele, rindo levemente. Devíamos ter um banquete só para você, mas fico feliz que esteja aqui, Como tem se sentido?


— Melhor do que esperava — respondeu ela. — E vocês? O reino está em paz?


— Nada está realmente tranquilo — disse ele com um sorriso travesso.

— mas isso é assunto para depois. Por agora, aproveite a noite.



Anastasia então se dirigiu a Leonardo e Aurélia. Leonardo sentiu algo estranho, como se aquela figura lhe fosse ao mesmo tempo familiar e distante. Aurélia não conseguia identificar de onde vinha aquela sensação, apenas sabia que seu coração apertava.


— Ouvi sobre sua recuperação — disse Anastasia, a voz firme, mas amistosa.

— Estou feliz que estejam bem. Aurélia, você continua sendo uma companhia fiel, vejo isso claramente.


— Obrigada — respondeu Aurélia, ainda intrigada, mas mantendo a cortesia. E você… parecia… diferente.


— Diferente? Talvez — disse Anastasia com um sorriso enigmático. — Mas a vida nos muda, mesmo quando não percebemos.


Leonardo tentou lembrar-se de algo, qualquer coisa sobre aquela presença, mas nada veio. Ainda assim, havia uma sensação estranha de familiaridade que o deixava inquieto.


Durante o restante do banquete, Anastasia circulou pelo salão, cumprimentando convidados e mantendo diálogos leves e educados, sem perder a elegância. Leonardo e Aurélia a observavam, sentindo que havia algo importante por trás de cada gesto e olhar dela, mas sem conseguir decifrar.


Quando a noite estava chegando ao fim, Anastasia se aproximou de Leonardo e Aurélia novamente. Seus olhos permaneciam ocultos pela venda, mas a aura de autoridade e mistério era inegável.


— Divirtam-se… porque nem todos os retornos são bem-vindos — disse, com um sorriso enigmático.


Ela se retirou em seguida, deixando-os com um silêncio pesado e inquieto.


Aurélia fechou os olhos por um instante, tentando processar tudo. Então, de repente, uma lembrança surgiu, clara e confusa: “Eu… me lembro dela…”. Seu coração disparou, e um turbilhão de emoções tomou conta de sua mente. Leonardo notou sua mudança de expressão, mas ainda não compreendia o motivo.


E assim terminou a noite que deveria ser apenas uma celebração: leve na aparência, mas carregada de ecos de um retorno Que mudaria tudo, e de memórias que agora começavam a emergir na mente de Aurélia.